Gestão 360, o Fim do Mimimi e os Desafios da Sucessão Familiar com Débora Saionara | Além do CNPJ (EP #094)
A Casca Grossa do Empreendedorismo de Vida Real
No mundo dos negócios, é muito fácil encontrar teorias em livros de administração. Mas nas trincheiras do mercado, o jogo é outro. No mais recente episódio do Além do CNPJ, gravado no novo estúdio profissional da Cross Host na Vila Mariana, recebemos Débora Saionara, diretora da FCDL, da FNF Jovem e mente por trás de uma indústria de moda praia com mais de 37 anos de história em Natal (RN). Débora é o verdadeiro significado de resiliência e força: superou crises econômicas severas, perdas familiares avassaladoras e desenhou uma metodologia revolucionária de Gestão 360, transformando a governança de sua empresa familiar em um escudo indestrutível.
1. Cultura de Soluções: O Fim do “Mimimi” Corporativo
Muitos empresários perdem horas ouvindo reclamações de colaboradores ou se lamentando das oscilações do mercado. A postura de Débora é implacável contra o vitimismo. Na parede de sua sala, uma regra dita o ritmo da operação: para cada problema apresentado, o funcionário deve trazer, no mínimo, duas soluções. Essa mentalidade foca a energia do time na resolução e na proatividade, extinguindo a cultura do lamento e forjando equipes altamente resolutivas e independentes.
“Na minha sala tem uma placa: para cada problema traga duas soluções, eu não lhe escuto. […] A gente tá vivendo um momento de uma velocidade de informação… Reclamar é uma bosta e é um vício. Se o cara vem com mimimi, traga a solução, senão nem anda.”
2. O Drama Oculto da Sucessão Familiar nas Empresas
Um dos dados mais alarmantes do mercado corporativo é o gargalo na sucessão familiar. Segundo Débora, cerca de 90% das empresas enfrentam crises profundas ou chegam a fechar as portas porque a nova geração não deseja assumir o negócio dos pais, ou porque os fundadores, movidos pelo ego, não dão autonomia e nem ouvem as ideias dos filhos. No caso de sua indústria, que reúne três gerações de mulheres (sua mãe de 72 anos, ela com 47 e sua filha com 28), a solução foi a implementação de mediadores e consultores externos para balizar as expectativas técnicas através de dados, blindando o negócio contra discussões emocionais.
“Muitas vezes as empresas chegam a fechar porque o jovem não quer suceder. […] O pai acha que sabe tudo porque construiu aquilo sozinho, o filho acha que o pai faz tudo errado, e vira uma pancadaria generalizada. A gente resolveu isso trazendo consultores para mediar e validar os processos com base nos números.”
3. Atração de Mão de Obra: Recrutando Como se Vende a um Cliente
Contratar mão de obra qualificada na construção civil ou na indústria têxtil (como costureiras e padeiros) se tornou um dos maiores desafios do mercado atual. A Geração Z chega ao mercado com facilidade digital, mas com uma fragilidade emocional extrema e pouca disposição para o ralo do trabalho técnico de base. Para vencer esse gargalo, Débora inovou ao aplicar estratégias de marketing no setor de RH. Ela utiliza Dark Posts em redes sociais, anúncios em carros de som nas comunidades e contratos de experiência lícitos de 30 dias na CLT para treinar e filtrar o comportamento dos candidatos diretamente na prática.
“Para você contratar bem virou tão difícil quanto conseguir um bom cliente. Você tem que fazer uma estratégia de marketing: fazer patrocinado, usar carro de som nos bairros. O resto a gente ensina na prática na nossa própria célula de treinamento em 30 dias. O comportamento e a assiduidade definem tudo.”
4. O Mapa dos Sonhos e a Gestão de Pessoas
Para engajar um time de centenas de colaboradores, o líder precisa conectar o propósito da empresa ao sonho individual de quem está no “chão de fábrica”. O escritório de Débora implementou a dinâmica do Mapa dos Sonhos, onde cada funcionário expõe suas metas pessoais (comprar uma moto, reformar a casa, fazer um curso). Nas reuniões de feedback, a cobrança por metas e desempenho não é feita de forma fria, mas baseada no próprio mapa do colaborador, mostrando como o comportamento dele impacta o sonho da equipe inteira.
Conclusão: A história de Débora Saionara é um soco no estômago de quem passa os dias reclamando. Ela nos ensina que, seja liderando uma holding bilionária ou uma confecção local, o segredo da longevidade empresarial é a estruturação e a clareza. Se você quer proteger seu negócio para o futuro, prepare sua governança para crises, implemente processos enxutos, entenda como o mercado pensa e lembre-se da máxima definitiva de Débora: no final do dia, todo negócio é feito de pessoas para pessoas.
Quer aprender na prática como blindar a sua gestão e estruturar a sucessão do seu negócio? Assista ao episódio completo agora mesmo!
Ler Transcrição Completa
Tem muita gente que fica nessa: “Ah, eu vou empreender, e se não der certo?”. Aí, se a empresa em que você estiver não der certo, tem um empreendedor por trás dela; se ele não der certo, você vai ser demitido igual. Não é uma questão de se vai dar certo, mas é quando vai dar certo. O que eu vou fazer se der certo? De algum jeito, a empresa é legal, dá grana. A empresa tem que ter um propósito, você focar nesse propósito. E a empresa é como se fosse um carro: você pode gostar muito dele, mas se um dia perder, pô, tá bom, dá para seguir, né? A gente já vendeu em todos os países do mundo. A gente já teve uma venda em todos os países do mundo. Vi isso, é uma história até legal. Quando eu fui olhar, o relatório deu 240 países. Aí eu perguntei pro ChatGPT quantos países têm no mundo, e ele deu 193. Eu falei: “Impossível, vendi em 240”.
Buenas, buenas, buenas. Seja bem-vindo a mais um podcast do Além do CNPJ. Muito obrigado por estar aqui para trocar essa ideia de empreendedorismo vida real com a gente. E, cara, quem é do mercado digital com certeza conhece o cara que tá aqui na minha frente. Se não conhece ele, pode ter certeza de que conhece a empresa do cara. E quem não é do mercado digital, fica aqui para esse podcast, acompanha o papo de hoje, porque é uma empresa que, cara, despontou no mercado, é uma empresa muito conhecida. A gente estava até conversando aqui nos bastidores. Quem nos apresentou foi um amigo e um antigo sócio meu que inclusive já veio aqui no podcast e que tem uma trajetória longa: ele fundou a SEO no Brasil, praticamente todo mundo de SEO conhece o Dija. No podcast de hoje, a gente vai falar de uma empresa muito conhecida no mercado digital, mas hoje a gente quer trazer os bastidores do empreendedorismo. E o que me surpreendeu nos bastidores: o cara é um programador — não menosprezando os programadores —, mas cara, programador normalmente é fechadão, não troca ideia, é um cara bem mais introspectivo. E o cara é um baita empreendedor, troca ideia, super receptivo na comunicação. Eu falei: “Caramba, até estranhei um programador que conversa, que fala”. Então, meu cara, tô aqui hoje com o Márcio Mota, CEO, fundador e coo da Monetizze.
Estrutura de Agentes de IA Utilizada nas Empresas do Grupo Success
Cara, muitíssimo obrigado, um baita de um prazer.
Eu que agradeço pelo convite, cara, de verdade.
Antes de te dar a palavra para você agradecer e a gente iniciar, pô, obrigado além de tudo, cara, pela tua humildade, pela tua simplicidade. E quem, como eu falei, é do mercado digital conhece a Monetizze, sabe do tamanho e da expressividade dela no mercado. E, naturalmente, se você é o fundador e o CEO, cara, imagina a tua importância, a tua agenda. Você mora em BH, você comprou uma passagem — eu conversando aqui nos bastidores —, e veio para São Paulo para essa gravação. Você veio especificamente para essa gravação, não veio para outra coisa. Cara, que moral! Obrigado mesmo por esse respeito. Tô lisonjeado de estar aqui com você. Já estaria se você morasse em São Paulo, pelo teu tamanho e pela tua expressividade no mercado, mas você vindo de BH, pegando um voo, você e tua esposa, e vindo aqui para gravar comigo… cara, tô muito feliz, obrigado mesmo, cara. Tamos juntos. Cara, se apresenta: quem é você, de onde você veio? Dá um overview aí para a galera, mas não dá tanto spoiler, porque a gente vai discorrer sobre isso no decorrer do programa.
Como você falou, Márcio Mota, fundador e CEO da Monetizze. Moro, sempre morei em BH, nasci e moro em BH até hoje. A sede da Monetizze é lá, uma delas, né? Mas é isso, então não vou dar mais spoiler, vou falar só isso aí. Vamos conversando e a gente vai falando tudo.
Boa. Márcio, quero conhecer um pouco a história do Marcinho. O cara que nasceu… quais foram as suas referências familiares? Você teve pai e mãe presentes? Como foi a sua trajetória? Se não teve, como foi isso para você? Como foi a tua infância? O que você esperava do futuro? Como foi essa trajetória de forma resumida, pra gente conseguir contextualizar o Márcio de hoje? Dá um overview pra gente.
Então, vamos lá. Meu pai não foi muito presente, ele se separou da minha mãe quando eu tinha uns 4 anos de idade. Ele me via uma vez por ano, mais ou menos, é o que eu tenho de lembrança. E depois de um tempo, eu mais velho, tive mais convivência com ele, até morei um ano com ele uma época e tal, mas não tive muita presença dele na infância, foi ausente. Na infantaria, éramos minha mãe, meus três irmãos e eu. Eram quatro filhos, e minha mãe cuidou de quatro filhos praticamente sozinha. Eu sou o terceiro mais velho, então tem só um mais novo que eu, vamos dizer assim. Depois de mim só veio mais um. E minha mãe criou os quatro filhos sozinha, praticamente cuidou dos quatro. Então minha infância foi essa, numa casa com minhas duas irmãs, minha mãe e meu irmão. Foi uma infância com muita batalha, ela batalhando muito. Ela trabalhava com lapidação de pedras preciosas.
Caramba, que legal, bicho! Que interessante, cara. As joias que você vê aí, ela trabalhava com isso. É um trabalho bem bruto. Ela lapidava para ficar bonitinha, dar aquele formato. Trabalhava com isso e trabalhava em casa, ela conseguiu com o tempo montar em casa o que chamavam de banca. O lugar onde fazia o trabalho lá se chama banca. Conseguiu montar uma banca em casa. Mas não trabalhava com joias de muitos valores, ela fazia mais ametistas, não era diamante ou joias muito caras, era mais pedras para bijuterias, porque joias caras não podem ficar numa casa, num lugar comum, por questão de segurança. Conduta padrão, não era de muitos valores. Minha mãe trabalhava de 8 horas da manhã até 10, 11 horas da noite. O que dava para fazer, fazia sentada, trabalhando para sustentar a gente. Foi muito duro para ela.
E cara, nessa época aí, como que você enxergava o futuro, com a referência de hoje? Se você tem essa lembrança, o que você pensava pro futuro?
Cara, eu nunca imaginaria que eu estaria aqui onde estou hoje. Nunca, nunca, nunca. Eu brincava, depois de uma certa idade, tipo com uns 16, 17 anos, eu falava assim: “Ah, quando eu for rico, eu faço tal coisa”. Mas se me perguntassem: “Como você vai ser rico?”, eu dizia: “Não sei, um dia eu vou ser, não tenho nem ideia”. Não tinha nem ideia, mas falava. Eu falei com a minha dentista uma vez, eu tinha que fazer um canal no dente, devia ter uns 17, 18 anos. Fui na dentista e ela falou: “Tem que fazer o canal”. Perguntei quanto era. Não lembro exatamente o valor, mas a proporção do preço era mais ou menos a seguinte: o canal custava R$ 300 e para arrancar o dente custava R$ 30. Trezentos para fazer o canal e trinta para arrancar! Eu falei: “Arranca”. Ela disse: “Não, mas você vai perder o dente, é ruim perder o dente, diminui o osso e depois é difícil de repor, você vai quebrar toda a estrutura, vai ter que fazer um implante que é muito caro”. Eu falei assim: “Não, eu não tenho dinheiro para fazer canal, não tem como eu fazer um canal agora. Quando eu ficar rico, eu coloco os dentes de novo”. Aí deu certo, hoje eu coloquei todos os dentes que faltavam. Deu certo.
E cara, quando você estava com esses seus 16 anos e falava em ficar rico, como foi a tua trajetória no começo da vida adulta? Você fez faculdade, não fez faculdade, seguiu o caminho tradicional?
Eu falava isso mais na confiança, mas não trabalhava para isso, não era aquele cara bitolado que planejava a carreira. Era quase uma piada que eu soltava. E faculdade eu fiz, mas só fiz até o quarto período e saí, porque estava difícil pagar. Tive que sair da faculdade, estava apertado o pagamento. Uma vida pesada, com uma mãe solo praticamente tocando uma casa com quatro filhos, e você não conseguir estudar por falta de grana. Tive que sair porque não dava. E é muito lúdico porque tem muita gente que coloca as pessoas em caixinhas, dizendo que tem que fazer isso e aquilo, e cara, você fundou a Monetizze. É muito mais do perfil da pessoa do que pelas oportunidades iniciais que ela teve. E como foi a tua vida adulta? Porque você é programador desde os 16 anos. Como você caiu nisso?
Com 15 para 16 anos foi a época em que fui morar um tempo com meu pai aqui em Belo Horizonte mesmo. Fui morar com ele e ele tinha um computador, e aí eu tive acesso ao computador e vi o que era programação. Meu pai gostava de fazer uns bicos de programação, ele entendia, era uma mente inteligente também. Aí eu resolvi aprender, e fiquei fascinado com o mundo de você programar uma coisa e o computador te obedecer. Sabe aquilo? O que você fez vai executar do jeito que você quer. Fiquei fascinado com esse mundo e quis aprender a programar. Foi assim que eu comentei, mais na curiosidade de gostar daquilo, e nunca mais parei.
E aí arrumou emprego, começou a fazer sites?
Demorei muito tempo para arrumar emprego de programador mesmo. Arrumei um com 18 anos e fui demitido com um mês porque eu não sabia programar direito! Eu era só um entusiasta. O cara demitiu, e depois fiquei sabendo que foi por causa disso, porque eu não era um bom programador. Depois trabalhei com manutenção de computadores, trabalhei com um monte de coisas: pesquisa de preços em supermercados, um monte de coisas, até arrumar emprego de novo como programador, o que já foi em 2002 ou 2003. Nesse tempo eu continuava estudando programação em casa, quando eu não tinha o que fazer, ficava no computador e programando. Aí eu inventava o problema e eu era o programador que tinha que resolver o problema do cliente fictício. Eu pensava: “O cliente pediu tal coisa, como é que faz?”. Eu não sabia fazer, então eu tinha que aprender, e aprendia mesmo. Eu gostava disso, era curiosidade de nerd. Eu sabia que queria fazer aquilo: “eu quero fazer isso porque eu gosto muito de fazer isso”. Já imaginava que ia trabalhar com isso mesmo.
E aí você conseguiu o emprego de programador lá na frente. Como foi isso?
Fui trabalhar na empresa de um amigo meu — hoje ele é meu amigo —, conheci o Neon na época, ele era o meu patrão. Conheci através de um amigo em comum que é meu amigo até hoje, o Sandro. Ele me apresentou pro Neon, que estava precisando preencher uma demanda lá, e me contratou para fazer essa demanda funcionar. Não era uma agência de publicidade, eles faziam apenas sites, não trabalhavam com marketing. Era uma desenvolvedora de sites. Depois, nós fizemos um software para imobiliárias gerenciarem imóveis e aluguéis, contratos. Fui eu quem desenvolveu, chamava Fantastico, com ‘K’ no final. Nós desenvolvemos esse sistema para a empresa, eu era funcionário, então o sistema era da empresa, mas fui eu que o desenvolvi. Depois chegou uma equipe para me ajudar, a gente estruturou a equipe e o negócio virou um sucesso em Minas Gerais. A gente chegou a ter quase duas mil imobiliárias usando o sistema. Até hoje usam o sistema, só que foi vendido e mudou de nome, mas a base é o mesmo sistema.
Caramba, bicho, você é um bom programador! Você desenhou na unha o projeto. Mas como foi o processo nesses bastidores, onde você conheceu o Dija nesses eventos que aconteciam de SEO e afiliados? Nem sei se na época o mercado de afiliados era forte.
Existia o mercado de afiliados, só que não era muito divulgado. E eu era funcionário dessa empresa e frequentava os eventos. Comecei a descobrir sobre SEO, o que era SEO, comecei a fazer um curso ou outro e a ir aos eventos de SEO. Como a gente desenvolvia sites, eu falou com meu chefe: “Cara, é bom a gente fazer os sites já preparados para SEO. A gente não presta o serviço de SEO para as empresas, mas a gente já entrega o site preparado para quem presta esse serviço, para posicionar melhor no Google. O nosso site vai sair na frente e as agências de publicidade vão começar a indicar a gente para fazer os sites, porque muitas agências não criam sites do zero”. Eu tinha essa mente vaga, mesmo sendo funcionário eu já pensava com visão empreendedora, estava empreendendo pro cara. O meu patrão era ótimo, ele bancava as viagens, bancava os hotéis e eu ia para os eventos para poder conhecer um pouco mais e adaptar os nossos sites. Eu sou um cara curioso, gosto muito de saber das coisas, tenho curiosidade de nerd sobre tudo que me dá interesse e que eu gosto de me aprofundar.
E a gente estava até conversando aqui nos bastidores também sobre o Ramon, que veio aqui e é um dos gigantes do mercado, meu amigo, meu irmão, um cara super do bem e muito humilde. E ele tem uma mente filosófica, ele criou um perfil chamado “Ramon sobre a vida” e solta umas filosofias do caramba, eu adoro. O cara é ligeiro. Como foi esse processo de você conhecer as pessoas, o networking que você fez e a ideia de empreender? Quantos anos você tinha quando começou a Monetizze?
Eu tinha 34 anos quando comecei a desenvolver a Monetizze, e ela foi pro ar quando eu tinha 36. Ficou dois anos em desenvolvimento. Eu tinha o meu outro emprego e era só eu desenvolvendo em paralelo nas horas vagas.
Como foi essa virada de chave de você largar o teu emprego e focar 100% na Monetizze? Você foi tocando em paralelo por um tempão. Como foi esse processo psicológico de largar o certo pelo duvidoso, ou você foi conservador e só saiu quando a Monetizze já estava dando lucro?
É complicado falar em “conservador” porque tem vezes que o negócio tá dando grana e pode parar de dar a qualquer momento. E até no emprego em que você está, há riscos. Tem muita gente que fica nessa: “Ah, eu vou empreender e se não der certo?”. Aí, se a empresa em que você trabalhar não der certo, tem um empreendedor por trás dela; se ele não der certo, você vai ser demitido igual. O risco não está na sua responsabilidade de fazer certo, você confia mais no outro para fazer o negócio dar certo do que em você mesmo. Esse prisma é muito verdadeiro. Você troca o duvidoso pelo duvidoso.
Em 2013 comecei a desenvolver a Monetizze e ela foi pro ar em 2015. A ideia surgiu porque o Ramon me chamou para uma reunião. Eu o conheci nos eventos de SEO. O Ramon é o pai do SEO, todo mundo que entende de SEO aprendeu alguma coisa com ele. Nesses eventos, ele estava organizando o “Afiliados Brasil” junto com o Flávio Raimundo e o Paulo Faustino. Depois do primeiro Afiliados Brasil, ele me chamou no Skype e falou: “Cara, estou pensando em fazer uma plataforma de pagamentos com sistema de afiliados, e eu te conheço há um tempo, sei que você é um bom programador, acho que daria certo a gente fazer”. Aquilo me pilhou. Acabou a reunião e eu fiquei pensando naquilo. Tivemos outras reuniões e os sócios do evento decidiram não entrar no projeto pelo fato de que iria concorrer diretamente com os patrocinadores do próprio evento de afiliados, que já existiam. O Ramon falou: “Cara, esse projeto da plataforma não vai dar para a gente entrar por uma questão ética, o projeto nem tem nome ainda”. Eu falei: “Ramon, mas isso tá na minha cabeça e agora eu quero fazer”. Ele falou: “Cara, se você fizer, o mérito é seu porque eu te dei a ideia, mas se você quiser tocar sozinho, pode fazer”. Eu falei: “Então tá, vou tocar esse negócio”.
Fui desenvolvendo. Foi nessa época, quando recusaram entrar com o dinheiro, que eu pensei nessa frase que eu até tatuei depois: “Não é uma questão de SE vai dar certo, mas de QUANDO vai dar certo”. Eu ia fazer dar certo de algum jeito, tinha aquela certeza empreendedora que você nem sabe de onde vem. Não tinha plano B. Meu plano B era o emprego que eu já tinha. Eu trabalhava na empresa das 8h às 18h, normalmente, não existia home office. O meu home office era a Monetizze. Eu ia para casa trabalhar na Monetizze: acordava às 3h30 ou 4h da manhã, trabalhava na Monetizze, ia para a empresa trabalhar e, à noite, trabalhava até as 23h de novo na Monetizze. Fiz isso durante dois anos direto. Desenvolvi o negócio do zero, sem framework, sem nada, todo o código do zero na unha.
E, em 2015, ela foi ao ar. Só que não é só colocar o site online e ganhar dinheiro. No primeiro mês, o lucro foi de R$ 500 e eu fiquei feliz para caramba, sendo que o meu servidor custava R$ 300! Como foi o processo de divulgar o negócio? Eu tive que aprender a me comunicar por causa disso, a conversar com as pessoas e perder a timidez, porque eu sempre fui muito tímido e sou tímido até hoje, embora as pessoas não acreditem. Num evento, eu fico extremamente deslocado. Tive que aprender a quebrar o gelo de sentar numa mesa onde eu não conhecia ninguém e conversar. O meu jeito de fazer isso era fazer piadas, brincar e falar o que todo mundo estava pensando na mesa, mas ninguém tinha coragem de falar alto. Eu ia lá e falava. O pessoal dizia: “Maluco, você é louco!”. Isso começou a gerar mais empatia e conversas.
Quando lancei a Monetizze, eu já tinha muitos amigos na área de afiliados e infoprodutos, e tive alguns cadastros no começo. Meus amigos começaram a apoiar a ideia e me deram a força de se cadastrar e colocar os produtos para vender lá. O Ramon foi um dos primeiros a colocar os produtos dele. O negócio começou a ganhar corpo.
O maior problema da Monetizze no começo era o dilema do ovo e da galinha: para você ter afiliados na plataforma, eles entram procurando produtos para vender; mas para ter produtores cadastrando produtos, eles exigem que a plataforma já tenha afiliados para vender os produtos deles. O produtor dizia: “coloquei o produto e não tem afiliado”, e o afiliado dizia: “entrei e não tem produto”. Eu conversei com um, conversei com outro, até que conseguimos alguns produtos que se destacaram muito, venderam muito e atraíram uma massa de afiliados para a Monetizze. Foi no networking de criar confiança com as pessoas. Teve o caso do Mario Vergara, que conversei com ele na época para ele vir para a Monetizze, e ele trouxe uma galera de afiliados e nos ajudou muito com feedbacks para a melhoria do checkout. O fato de eu ser programador me deu uma autonomia gigante; muitas coisas eu não dependia de terceiros para colocar numa esteira de produção. O programador tradicional muitas vezes não tem a visão do empreendedor e acha que as demandas comerciais são inúteis, mas eu fazia as customizações pensando no cliente. Muitas ferramentas eu desenvolvia para um cliente específico e depois outros empresários diziam: “Você é louco de mudar o sistema por causa de um cara só”. Mas isso nos trouxe muitos clientes pela personalização.
Hoje, o Leonardo Zanette e o Fernando Muniz, que são os donos da Perfect Pay (que era concorrente da Monetizze), são nossos sócios, viramos um grupo. Eles começaram como afiliados na Monetizze, viraram produtores, tornaram-se os nossos maiores clientes e depois criaram a própria plataforma concorrente. O Zanette me falou uma vez num evento: “Se o sistema tivesse tal função, eu testaria a Monetizze de novo”. Eu fui lá, peguei o computador, programei a função e, uma hora depois, no mesmo evento, falei para ele: “Abre aí a sua conta na Monetizze”. Ele abriu e viu que estava pronto e funcionando. Ele falou: “Não é possível, cara, vocês não tinham isso há uma hora atrás!”. Ele conta essa história dizendo que viu na minha atitude que nós éramos parceiros de verdade com quem ele podia contar. Quando você é pequeno, tem que aproveitar essa agilidade para escalar e ganhar os clientes na personalização, sem ficar encastelado achando que o seu produto já tá pronto e perfeito.
Para a galera da economia tradicional entender o que é o mercado de afiliados: o afiliado é como se fosse um representante comercial ou revendedor autônomo, sem vínculo empregatício. Você cria um infoproduto (um curso de como fazer bolo, por exemplo) e o hospeda na Monetizze. Você ativa o programa de afiliados e define a comissão (ex: o curso custa R$ 100 e você dá 50% de comissão para quem vender). O afiliado se afilia ao seu produto, ganha um link exclusivo dele e passa a divulgar esse link nas redes sociais e anúncios. Quando o cliente clica no link do afiliado e compra o curso, a Monetizze faz o split de pagamento automaticamente: envia 50% pro produtor e 50% pro afiliado. A grande vantagem é que o produtor e o afiliado não precisam se conhecer ou ter relação de confiança direta, porque a Monetizze garante que o processo vai funcionar e que ambos vão receber os valores corretos de forma segura, além de proteger o consumidor final, garantindo o reembolso do dinheiro caso o produto não seja entregue. É importante o produtor treinar e dar suporte para os seus afiliados porque quem conhece o produto é o dono, mas tem produtores que possuem mais de 700.000 afiliados cadastrados e conversam mais de perto apenas com os top afiliados. O afiliado é a melhor porta de entrada para quem quer começar a vender online sem precisar criar um produto do zero, pois ele pega algo validado e foca na gestão de tráfego e vendas, podendo virar produtor no futuro. O mercado de afiliação se profissionalizou muito; hoje exige mais estrutura por causa dos bloqueios de contas de anúncios do Facebook, mas continua extremamente forte. A Monetizze foi pioneira em aceitar a venda de produtos físicos (como as cápsulas de suplementos) nesse modelo de afiliados e continua sendo referência no país.
Hoje, a nível de branding e faturamento, a Monetizze está entre as três maiores plataformas do mercado nacional, junto com a Hotmart e a Eduzz. O mercado se expandiu e surgiram muitas plataformas menores. O faturamento exato das empresas é estratégico e fechado, mas o valuation de uma estufa aceita qualquer número no papel baseado em projeções de ego, a não ser que haja um comprador real disposto a pagar aquele valor por uma porcentagem considerável do negócio. A Monetizze foi construída 100% no modelo bootstrap, ou seja, com recursos próprios, sem nenhuma rodada de investimentos de fundos de venture capital no início. Eu não entendia nada de rodadas de investimento na época, eu era apenas o programador focado em fazer o projeto dar certo na raça e com paixão. Depois, quando os grandes fundos começaram a nos procurar em 2017 por causa do nosso crescimento exponencial, nós passamos a recusar os aportes. O dinheiro já não era o problema e as propostas dos fundos muitas vezes engessam a essência do negócio e focam apenas no lucro desumano a curto prazo. No ano passado, fizemos uma movimentação de grupo e os meus dois sócios fundadores saíram da empresa, dando espaço para a entrada do Fernando e do Léo na sociedade, gerando uma sinergia brutal entre as marcas. Estamos lançando agora o checkout internacional da Monetizze para processar e receber vendas nativamente em dólar e em euro no mercado global de forma muito mais simples para os produtores.
A pandemia em 2020 foi o grande estopim do mercado digital, foi o mês em que a Monetizze mais vendeu na história, pois todos estavam em casa consumindo e estudando online. Nós já transacionamos mais de R$ 2 bilhões de reais em vendas concretizadas na história da Monetizze!
No início da empresa, em 2015, o fluxo financeiro passando pela nossa conta bancária acendeu o alerta do fisco e dos bancos. Quando você processa pagamentos, o dinheiro dos produtores e afiliados entra no seu CNPJ e você faz a intermediação. Eu fui pessoalmente na prefeitura de Belo Horizonte com uma carta explicando detalhadamente o nosso modelo de negócios, comparando a Monetizze a uma imobiliária: o dinheiro dos aluguéis passa pela conta da imobiliária, mas o montante pertence aos proprietários dos imóveis, e a imobiliária só emite nota fiscal e paga imposto sobre a taxa de administração que ela retém. A prefeitura emitiu o parecer formal de que nós só pagamos impostos sobre a nossa taxa de corretagem, o que nos deu segurança jurídica para operar. Mas no início, a movimentação de saques gerava bloqueios diários de segurança nos bancos tradicionais. O sistema nos travava porque fazíamos dezenas de TEDs manuais por dia. O cliente solicitava o saque e mandava os dados bancários por e-mail, e eu conferia se o e-mail batia com o cadastro, salvava num bloco de notas e digitava a transferência manualmente no internet banking do banco, para depois dar o OK na plataforma. Era o MVP real da operação! Hoje o processo é 100% automatizado via integração bancária. E para gerir essa complexidade financeira e de tecnologia de forma eficiente, o grupo lançou a Plugin Pay, que é o nosso próprio banco digital com licença do Banco Central e cartão de crédito.
Em 2017, eu comprei a Vianet, a empresa de desenvolvimento de sites onde trabalhei como funcionário por 16 anos. Quando saí de lá em 2016, a empresa tinha 45 funcionários e eu havia ajudado a estruturar toda a equipe de TI. Eu precisava aumentar a capacidade de programação da Monetizze e decidi comprar a empresa. A história da sociedade com o Neon (antigo dono da Vianet) é fantástica: em 2014, eu estava devendo R$ 18.000 para ele e o valor era descontado da minha folha de pagamento. Como estava apertado para as contas de casa, propus a ele renegociar a dívida dando 9% de participação da Monetizze (que ainda estava em desenvolvimento e não tinha faturamento). Avaliamos a empresa em R$ 200.000 e ele aceitou. Ele comprou 9% do que viria a ser um negócio bilionário por R$ 18.000! Ele entrou como sócio investidor e, em 2017, a Monetizze comprou a Vianet dele, trazendo o time técnico pronto para a nossa operação. Hoje o grupo tem mais de 200 funcionários estruturados sob o modelo de CSC (Centro de Serviços Compartilhados), onde o custo fixo da estrutura jurídica, de RH e financeira é fracionado percentualmente entre as empresas de acordo com a utilização, o que traz uma eficiência fantástica para a gestão.
Nosso foco futuro é a consolidação da infraestrutura de pagamentos internacionais país por país, desbravando as burocracias e os impostos locais para facilitar a vida do produtor brasileiro que deseja dolarizar a receita vendendo nos EUA e na Europa. Internacionalizar e dolarizar o faturamento é crucial para criar um hedge contra a fragilidade econômica do Brasil. O real está batendo a casa dos seis reais e a tendência macroeconômica é desafiadora, então expandir as fronteiras de vendas com o checkout internacional da Monetizze é a nossa grande missão.
Agradeço aos patrocinadores do Além do CNPJ que viabilizam este projeto gratuito: SMB Store, Agência RPL, WJR Consulting, Inspira Capital, Polux, Max Service Contabilidade e Deisses Burguese Advogados. Todos passaram pelos meus critérios de idoneidade e qualidade de entrega.
Márcio, pergunta final do podcast: você está com 46 anos, com uma história de vida e superação espetacular e liderando um império com a Monetizze. Se você pegasse o avião agora para voltar para Belo Horizonte, o avião caísse e você falecesse hoje (batendo na madeira!), qual seria a sua última mensagem de legado para a humanidade?
A primeira coisa é: se você está procurando dinheiro para ser feliz, você não vai encontrar. Mas dinheiro é bom pra caralho, é muito bom, mas não traz felicidade. É muito bom, cara, mas o que traz felicidade é só família, seus amigos — amigos que eu falo amigo de verdade, e você sabe quem é. Sabe aquele amigo com quem você não conversa há muito tempo, mas se você ligar para ele, ele pega um avião e vem cá? É isso. Você fala: “Cara, matei um cara, preciso esconder o corpo”, o cara tá aqui. Ele fala: “Não, tô levando a pá”. Não te pergunta quem é, ele fala: “Tô levando a pá”. Esse é o que eu falo que é amigo de verdade. O dinheiro ajuda a gente a ser mais feliz porque tira alguns problemas que incomodam a gente e que acabam fazendo a gente ficar de mau humor em casa, ele tira esses problemas. Só ajuda, mas não é ele que vai resolver a sua vida interna, a felicidade. Então procure essas pessoas, fique mais próximo delas e seja mais feliz com elas. Porque no final a gente trabalha para isso. E é claro que a gente precisa de dinheiro, tem que trabalhar por dinheiro, o mundo é capitalista, não tem jeito, a gente tem que trabalhar mesmo até para essas pessoas que a gente ama. Mas dê valor a isso.
E outra que eu lembrei agora: imagina quando você reclamar de uma coisa, toda vez que você for reclamar de alguma coisa, imagine a sua vida sem ela. Forte, né? Então você fala assim: “pô, mas essa água tá ruim”. Tá bom, então você nunca mais vai tomar água. “Pô, meu carro é ruim”. Beleza, você nunca mais vai ter carro. “Eu não gosto da minha esposa”. Solteiro. “Pô, minha mãe brigou comigo”. Pensa se você fosse órfão. Se a sua mãe morresse no parto. Traz uma consciência que faz você passar a reclamar menos das coisas, e reclamar é uma bosta, é um vício ruim pro cérebro, já é comprovado cientificamente. Então, antes de reclamar de alguma coisa, imagine se aquilo não existisse. Em vez de reclamar, agradeça por aquilo estar ali, e resolva o problema.
Márcio, prazer em te conhecer pessoalmente, obrigado pela parceria. Obrigado a todos que acompanharam o podcast, cliquem nos botões para engajar e compartilhem com seus sócios e amigos empresários. Sucesso e até a próxima! Valeu, galera!
