O Futuro da Alimentação, Carne de Peixe em Laboratório e o Aquário do Rio com Marcelo Szpilman | Além do CNPJ (EP #150)

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Eu fui captado para a ciência naquele momento. Eu já sabia o que eu queria ser na vida. Foram anos dizendo que o aquário ia ser e, depois que ele foi inaugurado, ele foi muito mais do que eu mesmo imaginava que ele seria. Montamos um laboratório super bem equipado no campus tecnológico do Inmetro. Eu produzo esse mesmo 1 kg de carne limpa, só a carne, em duas semanas. Essa é apenas uma de muitas histórias de transformações.

Buenas, buenas, buenas. Seja bem-vindo a mais um episódio do podcast do Além do CNPJ. Primeiro de tudo, muito obrigado por estar aqui pra gente trocar essa ideia de empreendedorismo, vida real. Aqui do meu lado, Bruno Bertozzi. Mais um episódio, mais um podcast, e o que temos aqui na nossa frente hoje o negócio tá bruto, tá pesado aqui hoje. O papo vai ser legal, o papo vai ser massa.

Nós estamos na frente de um cara que tem uma história sensacional. A gente tava falando sobre a diferença dos loucos e dos sábios. Quando a gente inventa uma coisa totalmente fora da casinha, você vai ser louco ou você vai ser sábio, dependendo do seu resultado. E o cara tinha tudo para ser louco, porque ele tá inventando coisas totalmente fora da casinha realmente, mas que já tem resultados comprovados e o futuro vai ser maravilhoso. A gente tava trocando ideia nos bastidores e dava para ter filmado, já tem conteúdo gravado. Estamos diante de um sábio, de um cara que tá fugindo do tradicional, tentando reinventar coisas totalmente diferentes que podem mudar, inclusive, a parte de meio ambiente do nosso mundo e como a gente se relaciona com tudo. É animal. E o que ele tá fazendo é uma coisa que abre caminhos para muitas outras invenções.

Tô aqui na minha frente com Marcelo Szpilman. Muito obrigado, meu caro. Seja muito bem-vindo.

Obrigado. É um prazer te receber aqui, ainda mais com toda a tua história, a tua trajetória profissional, as coisas que você idealizou, a tua experiência e principalmente o que você tem feito atualmente. A sua trajetória já é muito curiosa, mas o que você tem feito atualmente é muito mais curioso. Então vai ser massa trocar essa ideia. Mas antes da gente entrar nos dias de hoje e entender um pouco da tua trajetória, dá um overview pra gente do Marcelinho. Onde o Marcelinho nasceu? Quais foram as referências que ele tinha, o que ele queria ser? Você sempre quis ser biólogo? Já tô dando um spoiler aqui, mas dá um overview pra galera de como você caiu na vida adulta e começou a tua trajetória profissional.

OK. Obrigado pela oportunidade. Bom, eu nasci e fui criado em Copacabana. O meu pai levava a mim e aos meus irmãos para pescar desde cedo, e a convivência com o mar sempre ficou muito intensa. A gente surfava no Arpoador, pescava na praia de Copacabana, na Barra, no Recreio. Aos 11 anos eu comecei a fazer pesca submarina.

Pesca submarina, perdoe a minha ignorância, mas é aquela que você vai com os arpões na apneia, sem garrafa? Você mergulha e pega o peixe para comer. Quer dizer, é uma coisa super natural quando bem feita.

Isso. Comecei, e uma coisa que me marcou muito quando a gente vai fazer pesca submarina é que vamos sempre com alguém que tem mais experiência, que vai ensinar pra gente. O que mais me impressionou foi que os mais velhos, os mais experientes, olhavam o peixe e conseguiam identificar visualmente de bate-pronto. O cara já sabia: “Aquilo é uma garoupa, um badejo, um sargo-de-beiço”. Eu falei: “Eu quero também fazer isso”. E aí comecei a mergulhar. Foi a experiência do pescador. Eu comecei a identificar os peixes visualmente pelo nome vulgar. Quando eu tinha 16 anos, eu tava vendo um filme do James Bond, chamado “007 O Espião Que Me Amava”. Nesse filme, ele se faz passar por um biólogo marinho num laboratório submarino, onde tem um visor que passam peixes coloridos do Indo-Pacífico. O vilão da história, para saber se ele realmente é biólogo marinho ou não, começa a perguntar para ele: “Que peixe é esse que tá passando?”. E o James Bond respondeu na lata para todos os peixes com nome científico.

Cara, eu fiquei hipnotizado. Naquele momento eu fui captado para a ciência. Eu já sabia o que queria ser na vida: queria ser um biólogo marinho e saber identificar os peixes não mais pelo nome vulgar, mas sim pelo nome científico. E essa foi minha trajetória. Fiz biologia marinha na UFRJ. É engraçado que você tem milhões de matérias, e uma delas é identificação de peixes marinhos. Todo mundo, inclusive a professora, para identificar o peixe que compravam no mercado e traziam, precisavam sempre de um livro do lado. E eu já sabia todos. Quando o peixe chegava ali, eu já sabia todos. Então, já tinha a experiência do pescador e eu comecei a conciliar com a ciência.

Eu já escrevi nove livros publicados: identificação de peixes marinhos, identificação de tubarões, ataques de tubarão — que foi uma das minhas especialidades. Criei, junto com outras pessoas, o Instituto Ecológico Aqualung. Foram 22 anos como diretor executivo, patrocinando o projeto Tamar, Baleia Jubarte, Peixe-Boi, uma série de projetos ligados a meio ambiente. Aí, em 2005, por uma série de circunstâncias, comecei a ver que o Rio de Janeiro merecia um aquário de nível internacional, que ele não tinha. A cidade de São Paulo tinha cinco! Claro que São Paulo é uma cidade que adora praia e o Rio de Janeiro já tem o mar, mas como uma cidade como o Rio de Janeiro não tem um aquário? Depois eu entendi que era muito difícil.

Só para vocês entenderem, o Aquário Marinho do Rio (AquaRio) é 100% privado, não tem um real público investido ali, nem na construção, nem na operação. E é o maior aquário marinho da América Latina. Muita gente acha que é público, mas não é. Em 2005 comecei com essa história. Quando eu me formei em 1984 na UFRJ, não tinha emprego para biólogo. Em 1985, primeiro ano do Rock in Rio, eu tava lá sem emprego e resolvi entrar pro mercado financeiro.

Tudo a ver. De peixe para identificar número.

Pois é. Fiquei 4 anos no mercado financeiro, fiz milhões de cursos de matemática financeira e cheguei a ser o responsável por toda a parte de financiamento em bolsa de uma das maiores corretoras do Rio. Mas no último ano eu comecei a fazer pesca submarina, comecei a pegar os peixes e a estudar para começar a escrever meu primeiro livro de identificação de peixes. Aí teve um momento em que eu falei: “Não chega, eu quero voltar pra biologia”. Larguei o mercado financeiro e voltei. Mas foi uma experiência muito boa, porque o plano de negócios do Aquário Marinho do Rio fui eu quem fez. Eu tinha essa base matemática que criei, o que foi ótimo.

Em 2007 eu ganhei a cessão de uso do prédio onde tá o aquário, na zona portuária, que era uma região largada. Eu ia construir. Em 2008 eu já estava com três patrocinadores: a Coca-Cola, o falecido Unibanco e fechando com a Petrobras. Eu ia construir o aquário sozinho, só com patrocínio. Mas em setembro de 2008 o mundo quebrou. A crise estourou e eu tive que mudar o modelo de negócios. Foram 4 anos mudando modelo de negócio, criei duas S/A, uma de capital aberto na bolsa de valores… muito tempo e muito dinheiro gastos. Até que, em 2012, eu consegui fechar uma parceria com o Grupo Cataratas, que já operava Fernando de Noronha e o Parque das Cataratas do Iguaçu. Foi uma parceria muito boa. A partir de 2012, foram 4 anos de obra e, em novembro de 2016, a gente abriu o aquário pro público. Foi um sucesso absoluto. O plano de negócios previa 700.000 visitantes por ano para o modelo ficar em pé. A gente fechou com 1 milhão e 400 mil.

Hoje o Grupo Cataratas tem vários parques, mas o Aquário é o item de maior rentabilidade do grupo. É um business muito bom, mas como eu sempre disse para as minhas filhas: “Faz bem feito que o dinheiro vem depois. Não pensa no dinheiro”. E a gente fez muito bem feito. Eu vim com uma filosofia nova de que o aquário tem que ser um equipamento focado em educação, pesquisa e conservação. Se não for, não tem por que fazer. Ele também é entretenimento, claro, mas primeiro tem que cumprir esse papel. Foram anos dizendo que o aquário ia ser assim, e depois que foi inaugurado, ele foi muito mais do que eu mesmo imaginava.

Uma das coisas de que mais fiz questão é receber todas as crianças de escolas públicas de graça. É importante você dar acesso a crianças que não podem pagar. O ticket hoje do aquário é R$ 160. Não é todo mundo que pode pagar. Então você precisa dar acesso para que essas crianças tenham oportunidades de cultura e possam até ser captadas para a ciência, como eu fui. Quando ela visita aquele equipamento belíssimo — um tanque de 3,5 milhões de litros, 7 metros de profundidade, as águas mais azuis que você vai ver —, a criança olha e fala: “É aqui que eu quero trabalhar”. Há uma história real de um rapaz chamado Jean-Luc Martinez. Ele era muito pobre, morava na periferia de Paris e, até aos 11 anos, nunca tinha ido a nenhum museu. Foi numa excursão escolar para o Museu do Louvre, olhou aquilo tudo e falou: “É aqui que eu quero trabalhar quando eu crescer”. E hoje ele é o diretor presidente do Louvre. Essa é apenas uma de muitas histórias de transformações possíveis quando você dá o acesso.

Em termos de pesquisa, o Aquário Marinho do Rio hoje é o aquário no mundo todo que mais publica trabalhos em revistas internacionais. Ele cumpre o objetivo principal dele. É o quarto no mundo em estudos de toxicologia em tubarões e raias, à frente da USP e de várias universidades e centros de pesquisa. Na parte de conservação, a gente faz reprodução de quatro ou cinco espécies de raias ameaçadas de extinção. É o único aquário no mundo que reproduz a raia-borboleta, que é uma das mais ameaçadas. Reproduzimos várias espécies de tubarão, peixes, cavalos-marinhos. Fazemos um trabalho brilhante.

Em 2019 o aquário já tava em voo de cruzeiro. Eu sou um cara inquieto, já não tinha muito o que acrescentar ali. Fui diretor presidente do aquário durante 14 anos, então saí da função executiva e me tornei presidente de honra. Saí exatamente para tocar um outro projeto. Agora em novembro de 2026 o Aquário faz 10 anos de operação e fui convidado pelo CEO do grupo para este último ano voltar para a função executiva, para rearrumar a casa para o aniversário.

Mas em 2019 eu criei a Sustentare Pisces. Em 84, quando saí da faculdade sem emprego, estudei a possibilidade de criar trutas e viajei para estudar o negócio. A truta é um animal que precisa de uma água muito limpa, oxigenada, fria. É muito difícil criar peixes porque você está lidando com um animal que pode morrer depois de meses tentando o abate. Quando comecei a pensar o que ia fazer de novo, pensei em criar garoupa verdadeira, mas entendi que é muito complexo, envolve um investimento pesado e o risco é alto. Existe uma questão de sustentabilidade: hoje você usa 4 kg de sardinha para transformar em 1 kg de garoupa. A taxa de conversão é de quatro para um. A ONU diz que vamos ter que dobrar a quantidade de proteína produzida no mundo para sustentar 10 bilhões de pessoas até 2040. Se você usa quatro quilos para produzir um, em vez de dobrar, você está reduzindo. Não faz sentido.

Comecei a ver que existiam duas iniciativas nos Estados Unidos fazendo salmão e atum bluefin por cultivo celular. Cultivo celular é o seguinte: você pega a célula muscular do peixe e precisa fazer com que, saindo do peixe, ela vá para um laboratório, sobreviva nesse ambiente e se reproduza. Achei que o negócio fazia sentido. Chamei investidores-anjo, montamos um laboratório super bem equipado no campus tecnológico do Inmetro em Xerém, no Rio de Janeiro, e começamos a trabalhar do zero. Tive uma reunião com um dos maiores especialistas em cultivo celular humano, propus a ele a ideia e pagamos a assessoria. Contratei dois pesquisadores — uma doutora e um mestre — com 10 anos de experiência em cultivo celular, mas que nunca tinham trabalhado com peixe. Ninguém no Brasil tinha.

Eu digo que nós, brasileiros, temos tanta ou mais capacidade de fazer bem feito quanto os caras de fora. O AquaRio é um exemplo. O Oceanário de Lisboa serviu de referência para nós. Eu fui lá seis vezes fazer visitas técnicas. Eles gastaram 300 milhões de euros em 1998, o que hoje seria mais de 1,2 bilhão de reais. Nós fizemos o aquário do Rio com 150 milhões de reais e fizemos muito melhor do que o deles. Temos um túnel em acrílico que passa por baixo do grande tanque, são 4,5 milhões de litros no total, 26.000 m² de área construída. Então, a gente tem capacidade tecnológica. Claro que a gente tem dificuldades, alguns equipamentos têm que ser importados, o que multiplica o preço por cinco, mais o frete e impostos.

Começamos o desenvolvimento celular do zero em 2021. A Europa e países menores já desenvolvem muito estudo celular focado em bovinos e frangos, com milhões de patentes, mas a parte de psicultura é restrita. E por que focar nos peixes? Primeiro porque os peixes estão acabando. A pesca predatória, que é feita de forma incorreta e ilegal, e a sobrepesca, que esgota a capacidade de reposição da natureza, estão dizimando as espécies. Países pescam em águas internacionais, como a China, Espanha, Japão. Os tubarões sofrem com a captura apenas para a obtenção de barbatana, e são devolvidos mutilados ao mar. Isso é cruel e insustentável. Segundo: a poluição dos oceanos intoxicou os peixes. Cerca de 80% do mercúrio que nós temos no nosso organismo vem de comer peixe. Quanto mais no topo da cadeia trófica o peixe estiver (como o tubarão, vendido como cação), mais intoxicado ele está por conta da acumulação de metais pesados. Fomos à Ilha da Trindade, a 1000 km do litoral brasileiro, no meio do oceano, e os peixes lá já estavam intoxicados. Não tem nenhum organismo marinho hoje que não esteja intoxicado com metal pesado, substâncias orgânicas persistentes e microplásticos. O ser humano tá acabando com o planeta.

Boi e galinha não estão acabando, e nunca vão acabar por conta da capitalização. Mas peixe tá. Outra diferença: o cultivo celular de boi e galinha requer que a célula seja mantida a 36ºC o tempo todo para não morrer. O peixe tem uma resistência térmica grande e se reproduz bem a 28ºC, gastando menos energia. E o peixe cresce a vida toda. Esse fator de crescimento fez com que a gente conseguisse no robalo um fato inédito no mundo: a imortalização natural das células musculares. Ou seja, eu não preciso nunca mais pegar nenhum robalo na natureza para produzir toneladas e toneladas de carne no futuro. Imortalização celular funciona assim: a célula de boi ou galinha não passa de umas 20 passagens e morre em laboratório. A de peixe, conseguimos imortalizar, ela nunca mais vai morrer, vai se reproduzir indefinidamente.

Uma garoupa verdadeira inteira leva de 8 meses a um ano para atingir o tamanho de abate (800g a 1kg). Eu produzo esse mesmo 1 kg de carne limpa, só de carne, em duas semanas. Nós chegamos no MVP, conseguimos o bolinho de robalo. Hoje sabemos fazer a carne. Essa batelada que sai do biorreator é uma massa proteica (como carne moída) que é branquinha, tem gosto e cheiro de peixe. Você pode fazer hambúrguer, salsicha, bolinho e escondidinho. É um produto genuíno, fresco. Depois, num segundo momento, vamos ter um produto mais premium, transformando essa massa em filé de peixe e sashimi, o que já eleva o preço. Essa carne também não tem espinha, nem parasitas, nem metal pesado. Serve para alimentação segura de bebês e idosos que têm dificuldade de mastigação. O processo produtivo permite que eu já faça a carne saborizada, ou mesmo crie uma carne misturando peixe, frango e boi.

Para a produção, depois da fase laboratorial, a carne vai para os tonéis e biorreatores, parecido com o processo de produção de cerveja. Por isso não gosto do termo “proteína alternativa”. Acho que é uma proteína complementar. Existem três vertentes: a Plant-Based (feita de vegetais, mas que falhou um pouco porque os brasileiros gostam de comer carne de verdade), a fermentação (usando bactérias para produzir proteínas, mas não é carne verdadeira) e o cultivo celular (Cell-Based), que é a carne verdadeira que nós fazemos.

O desafio agora é baratear o custo. Hoje o custo do nosso quilo custou R$ 13.000. Mas precisamos chegar a uns R$ 100 o quilo para vender. O robalo e a garoupa custam caríssimo no mercado (chegam a R$ 200 o quilo), então nós temos margem de lucro por conta do alto valor agregado dessas espécies, algo que as startups que focam em boi e frango não têm, pois a carne tradicional dessas espécies já é barata. Fizemos agora uma rodada de “Seed Money” e batemos o recorde de Crowdfunding no Brasil, captando quase R$ 9,5 milhões. Isso garante mais dois anos de P&D (Pesquisa e Desenvolvimento). Nesses dois anos o objetivo é reduzir o custo e escalar a produção. Compramos biorreatores maiores (de 50 litros) alemães, que chegam a custar mais de R$ 1 milhão cada um quando importados para cá.

A sustentabilidade, no final das contas, só é abraçada pela sociedade quando pesa no bolso do consumidor. É difícil convencer as pessoas a doarem para instituições apenas pela natureza. A energia eólica, por exemplo, avançou porque trouxe soluções para crises hídricas e elétricas. Tudo que eu faço é com propósito. O Instituto Aqualung e o AquaRio foram criados para conservação marinha e educação. A Sustentare Pisces também é conservação: ao produzir carne de espécies ameaçadas, evito que esses animais sejam capturados da natureza.

Empreender em projetos tão fora da casinha, como construir um aquário no Rio de Janeiro e criar carne em laboratório, exige, acima de tudo, fôlego financeiro. Nunca larguei meu emprego e o sustento da família para me jogar no vazio. Tinha boleto para pagar. Minha esposa, que é dentista, brincava com a sócia sobre o que era mais difícil: a clínica ou o Aquário, de tanto que a obra demorou. Mas a persistência foi o diferencial. Muita gente acha que o sucesso é sorte, mas quanto mais eu trabalho, mais sorte eu tenho. A credibilidade que criei ao entregar o Aquário do Rio me ajudou muito a conseguir investidores para a Sustentare Pisces através de uma apresentação de PowerPoint.

Foi uma rota não planejada. Se eu tivesse continuado no mercado financeiro, nunca teria feito o aquário. Se eu não tivesse tido fôlego financeiro, o projeto teria quebrado no meio. O dinheiro vem como consequência de fazer algo bem feito. Se não tiver prazer no que faz, está fazendo a coisa errada. Se o AquaRio não funcionasse como banco de biodiversidade e centro de pesquisa, para mim ele não faria sentido, teria que fechar as portas. Hoje os zoológicos e aquários modernos reproduzem e reintroduzem espécies extintas na natureza de volta ao habitat.

Toda essa estrutura de conteúdo em áudio e vídeo de qualidade, que permite trazer figuras como você gratuitamente para a internet, é mantida graças aos nossos patrocinadores. Agradecemos à SMB Store (sistema fácil de usar para controle de vendas e financeiro), à Agência RPL (solução completa de marketing digital), à Polux (especialistas em planejamento tributário e gestão de crises), à CMC Displays (soluções criativas para PDVs), à Cross Host (especialistas em produção audiovisual para eventos e podcasts) e à Max Service Contabilidade (contabilidade consultiva do Simples Nacional ao Lucro Real). Se você é empreendedor e está com alguma dor, com certeza algum de nossos patrocinadores pode te ajudar a resolvê-la.

Marcelo, 65 anos de vida agora em janeiro. Imagina que, ao sair daqui, aconteça uma fatalidade, você abre os olhos e está diante de Deus com a missão cumprida. Se tivesse que condensar seus 65 anos de experiência e toda essa trajetória em um conselho, o que você diria?

Eu hoje morreria tranquilo, mas a única coisa que me faria falta é curtir o meu neto de 8 meses, o que é uma delícia. O que eu diria é o seguinte: a pessoa pode ter sonhos e conseguir realizá-los, mas para isso acontecer, você precisa se organizar, se preparar e ter muita resiliência. O caminho é longo, é difícil, muitas vezes não dá certo. Mas só vai dar certo se você for resiliente e tentar chegar até o final. Não tem outra forma.

Uma trajetória que corrobora isso, porque esperar 14 anos para tirar o aquário do papel prova que a genialidade não vence sem a persistência. Parabéns pela trajetória. Para quem quer ler mais sobre a realização desse sonho, tem o meu livro à venda na loja do AquaRio contando essa história. Obrigado, Marcelão. Valeu!

Da Pesca Submarina aos Biorreatores: A Resiliência de um Visionário

A diferença entre um louco e um gênio muitas vezes está apenas no resultado. E quando falamos de alguém que dedicou 14 anos para tirar do papel o maior aquário da América Latina e que, agora, cultiva carne de peixe em laboratório para salvar os oceanos, estamos falando de um verdadeiro sábio da nossa era. No episódio #150 do Além do CNPJ, recebemos o renomado biólogo marinho Marcelo Szpilman. Em uma conversa que explora desde o mundo corporativo do mercado financeiro até os desafios da biotecnologia celular e da conservação marinha, Marcelo nos ensina que o propósito e a resiliência são os verdadeiros motores da inovação.

1. O Sonho que Sobreviveu a 14 Anos de Desafios (A Criação do AquaRio)

A história do Aquário Marinho do Rio de Janeiro (AquaRio) é uma verdadeira aula de persistência empreendedora. Idealizado por Marcelo Szpilman, o projeto era 100% privado e dependia exclusivamente de patrocínios e parcerias para sair do papel. Quando estava prestes a iniciar a construção em 2008, a crise financeira mundial estourou, exigindo que ele mudasse o modelo de negócios inúmeras vezes. Sem nunca abandonar sua fonte de renda principal e suportando o ceticismo de muitos — até mesmo de sua família —, Marcelo manteve a resiliência por 14 anos até abrir as portas do aquário em 2016, superando absurdamente as estimativas de visitação e tornando o local o maior e mais rentável aquário da América Latina, além de um gigantesco polo de pesquisa e conservação.

“A genialidade não adianta nada se você não tiver persistência. Persistência é muito mais importante do que a genialidade. Eu não sou gênio, mas eu sou um cara persistente. Então eu tô ali, não largo o osso.”

2. O Declínio dos Oceanos e o Problema do Metal Pesado

Um dos alertas mais graves que Marcelo trouxe no episódio é sobre o estado atual dos nossos oceanos. Devido à pesca predatória, sobrepesca e poluição humana massiva, 90% dos peixes que consumimos estão em declínio acentuado ou ameaçados de extinção. Além disso, a poluição com metais pesados (como o mercúrio) atinge quase todos os organismos marinhos, tornando o consumo de peixes de topo de cadeia — como o cação (tubarão) — um risco real para a saúde humana, com efeitos cumulativos que podem gerar graves problemas neurológicos.

“Não tem nenhum organismo marinho hoje que não esteja intoxicado com metal pesado, substâncias orgânicas persistentes, microplástico… a gente tá, o ser humano tá acabando com o planeta, essa que é a verdade.”

3. A Revolução Sustentável: Cultivo Celular de Peixes (Sustentare)

Diante da necessidade urgente de dobrar a produção de proteína no mundo para alimentar 10 bilhões de pessoas até 2040 sem destruir o meio ambiente, Marcelo fundou a Sustentare (Sustentare Pisces). A startup trabalha com o cultivo celular de peixes de carne branca (como robalo, garoupa verdadeira e linguado). O processo consiste em retirar células musculares do peixe e fazê-las se reproduzir imortalmente dentro de biorreatores em laboratório. O resultado? Uma carne moída de peixe 100% real, saudável, livre de espinhas, parasitas, metais pesados e microplásticos. Além de salvar as espécies marinhas, a tecnologia apresenta vantagens econômicas, já que as células de peixe requerem temperaturas mais baixas (cerca de 28ºC) para se reproduzir, ao contrário das de boi ou frango, gerando enorme economia de energia no processo.

“Eu produzo essa mesma 1 kg de carne limpa, só a carne, em duas semanas. […] não é carne falsa ou carne artificial, é carne verdadeira.”

4. Tecnologia, Custos e a Barreira da Escala

Como toda inovação biotecnológica, a barreira inicial é o custo e a escalabilidade. O primeiro quilo de carne cultivada pela equipe de Marcelo custou cerca de R$ 13.000. Porém, após três anos e meio de Pesquisa e Desenvolvimento (P&D) bem-sucedidos e uma captação de seed money que bateu o recorde de crowdfunding no Brasil (quase R$ 9,5 milhões), a startup agora foca em baratear os custos de produção e ganhar escala através de grandes biorreatores. A meta é conseguir oferecer o produto a um custo competitivo frente ao peixe tradicional, lucrando com a margem do alto valor agregado da iguaria (como a garoupa, que chega a custar R$ 200 o quilo) e ajudando a alimentar o mundo de forma sustentável e limpa.

“Toda tecnologia começa cara. […] Eu preciso baratear o custo, reduzir o custo da produção e, segundo, escalar.”

Conclusão: O legado de Marcelo Szpilman é a prova viva de que o empreendedorismo com propósito não conhece limites. Seja criando um oásis de conservação marinha no coração do Rio de Janeiro ou cultivando o futuro da alimentação em laboratórios no interior, ele nos ensina que a resiliência e a paixão pelo que se faz são os verdadeiros catalisadores para a mudança que o mundo precisa.

Quer mergulhar nessa história impressionante e entender os detalhes científicos por trás da carne do futuro? Assista ao episódio completo agora mesmo!

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