Ives Gandra Revela os Bastidores da Constituição e a Verdade sobre o STF | Além do CNPJ (EP #153)

Ler Transcrição Completa

Nós estamos fora desse polo que é o grande receio de, de repente, sair do controle e haver um jogo de bomba atômica. Então nós temos primeiro essa vantagem: estamos distantes dos polos de conflito, que são do hemisfério norte e não do nosso hemisfério. Em segundo lugar, nós temos riquezas que muitos países não têm. Então, vale a pena ter coragem de investir. É o que nós temos que fazer com que um governo entenda.

Buenas, buenas, buenas. Estamos aqui para mais um podcast do Além do CNPJ, hoje em um ambiente super especial com a Bertozzi, né? Um podcast histórico. Cara, esse podcast é o que eu estava conversando aqui nos bastidores. São 150 episódios. Brunão, já faço isso de olho fechado, bicho. Mas neste eu tô especialmente nervoso. Parece que a gente tá com uma plateia de 1 milhão de pessoas aqui olhando tudo isso acontecer. E para mim é uma honra poder participar desse momento. Só de estar aqui, em volta desses livros todos, de tantas medalhas e tudo mais, é surreal. É surpreendente o poder de estar na frente dessa sumidade que está aqui na nossa frente. Além de tudo, por mais que a gente esteja nervoso nos bastidores, a gentileza e a simplicidade com que fomos recebidos nos deixaram super à vontade. E isso faz com que a gente tenha respostas muito maiores sobre o porquê do tamanho dessa pessoa, porque não é à toa que, com essa gentileza e essa humildade, ele chegou onde chegou. Vamos contar um pouquinho dessa história.

Nós estamos aqui com o Dr. Ives Gandra. Doutor, muitíssimo obrigado por topar bater esse papo com a gente. É de verdade um privilégio. No dia em que eu vim aqui junto com o Davi te convidar para esse podcast, o senhor topou essa entrevista e eu tirei uma foto com o senhor. Alguns amigos meus, advogados, mandaram uma mensagem falando: “Agora você zerou o jogo, você não precisa de mais nada, o game tá zerado”. E eu falei: “Isso foi só a foto. Quando a gente gravar o podcast, aí de fato a gente zerou o game”. Então, doutor, muitíssimo obrigado, de verdade.

Dando um pouco de contexto: o Dr. Ives Gandra da Silva Martins foi bacharel em 1958 pela Faculdade de Direito da USP, doutor com distinção em 1982 em direito pelo Mackenzie — inclusive foi o primeiro doutoramento do Mackenzie. Vocês vão perceber que tudo o que a gente vai contar aqui vai se costurando com a história do Brasil. Ele é especialista em direito tributário e ciência das finanças, foi professor titular de direito econômico e constitucional da Mackenzie, e hoje é professor emérito de diversas instituições, incluindo a Escola de Comando e Estado-Maior do Exército. É membro da Academia Paulista de Letras, integra hoje 42 academias (algumas das quais presidiu) e é detentor de sete títulos de Doutor Honoris Causa, com livros e artigos publicados em 21 países. Falando em livros, ele é autor de aproximadamente 100 livros individuais, fora os que fez em colaboração. Elaborou pareceres decisivos sobre os planos Collor I e II, bem como sobre os impeachments dos ex-presidentes Collor e Dilma. Comentou também com Celso Bastos a Constituição Brasileira em 15 volumes, o que dá em torno de 10.000 páginas. Dr. Ives Gandra, de novo, é uma sumidade que tá aqui na nossa frente. Doutor, 90 ou 91 agora?

Com 91 anos de idade.

E cara, muitíssimo obrigado, de novo, pelo prazer de estar aqui na frente do senhor. Obrigado mesmo, viu?

Essa graça da forma que vocês apresentaram pra gente é muita bondade, eu apenas fui advogado e professor universitário na vida.

Foi mais do que isso. A gente estava conversando aqui nos bastidores e o doutor falou assim para mim: “Eu gostaria de ter sido poeta, né?”.

Aliás, você sabe o que é interessante? Quando nós éramos estudantes da Faculdade de Direito, eu tinha um amigo que foi meu amigo até a morte. Eu só lamentei não poder ir a Ribeirão Preto quando ele disse que estava doente, eu tinha me programado, mas ele morreu antes. Esse amigo era o Saulo Ramos. O Saulo foi inclusive Ministro da Justiça, era um advogado excepcional e um poeta. José Sarney inclusive trabalhou no escritório dele, porque ele herdou o escritório de Vicente Rao. Em 1954, 55, 56, nós saíamos para o interior, junto com Paulo Bomfim e todos, para declamar poesias nossas e de outras pessoas. Um dia o Saulo chegou para mim e disse: “Ives, quando nós nos formarmos, a advocacia vai ser o bico que vai nos sustentar”. E foi, na verdade, o que aconteceu comigo.

Como protagonismo era a poesia, né?

Mas o bico sustentou!

Exatamente, doutor. E entrando já no campo das perguntas, a gente foi bem detalhista sobre o que gostaríamos de extrair do senhor nesta entrevista. O senhor completou agora 91 anos em fevereiro, certo? Certo. Nessa idade, com tudo que o senhor construiu — e os corredores do escritório do Dr. Ives mostram uma infinidade, centenas e centenas de diplomas e certificados —, com todos esses 100 livros escritos, é surreal a sua história, a construção e a contribuição para o mundo. Mas nessa idade, com tudo isso já construído, o que o senhor ainda sente vontade de entender?

Veja o seguinte, nós estamos vivendo um momento complicado no Brasil e no mundo. Mas há um dado que me dá sempre tranquilidade, mesmo com os muitos efeitos físicos que a idade traz, inclusive um divertículo que me incomoda agora, mas não tem problema nenhum. Eu tenho a impressão de que, no momento que você põe Deus na sua vida, todo o resto — as turbulências, os momentos de paz, de alegria — corre bem. A melhor coisa que me aconteceu, em primeiro lugar, foi a educação dos meus pais. Depois, quando conheci a minha mulher. Quando eu a conheci, estava afastado da religião. Após cinco anos de namoro e três de casados, com o nascimento da minha filha Ângela, eu achei que ela teria que ser igual à minha mulher. Daí eu disse a ela que, se ela quisesse me explicar os fundamentos da fé, eu ouviria. Daí eu conheci essa realidade magnífica de se aproximar de Deus e perceber que a vida não tem sentido sem Deus. Nós estamos aqui de passagem. Não somos os donos supremos do nosso destino. Sem Ele, a vida não faz sentido, Ele é quem dá um sentido maior. Quando Cristo veio, ele ensinou duas coisas fundamentais: amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo. E assim fiz a relação. Fui compreendendo melhor o direito natural, melhor o sentido da vida, e procurei, com todas as minhas muitas limitações, auxiliar e servir. Aí a vida passou a ter sentido. Nos momentos difíceis, principalmente naqueles mais fáceis, tive sempre do meu lado a minha mulher. Eu uso a minha aliança até hoje porque entendo que ainda estou casado, mesmo separado há algum tempo pela morte dela. Deus não vai permitir a mim, que sempre preguei que devemos estar unidos na vida e não nos separarmos, que fique separado lá na eternidade. Não por mérito meu, mas eu tenho certeza de que ela está no céu, e eu vou encontrá-la, porque Deus não vai nos deixar separados numa realidade diferente. Para mostrar que continuo sendo casado (separado apenas temporariamente), a aliança dela eu levo no meu escapulário. Por que eu digo tudo isso? Porque acho que é isso que deu sentido à vida, me deu tranquilidade nos momentos mais difíceis e me permitiu, inclusive, não atacar pessoas, mas apenas defender ideias. E não responder a ataques, porque nos ataques, se eu dou uma ideia e a pessoa não gostou e atacou, é porque ela tem o direito de atacar. Eu tranquilamente não respondo a nenhum ataque.

Você dá poder para a pessoa que está te atacando. É claro, não vale a pena. Todo mundo tem o direito de pensar o que quiser. Vou tomar um pouco de água.

Fique à vontade. Inclusive, doutor, é tudo gravado. Se precisar de um espacinho, a gente corta.

Não, mas está bem, já volta, porque tomando água melhora. Pode seguir.

Então eu queria entrar um pouquinho no assunto da poesia em contraste com o direito, trazendo a figura da sua esposa, Dona Ruth, para a conversa. O senhor escreveu mais de 10.000 páginas jurídicas, e tem livros de poesia escritos com a inspiração de uma única musa, a sua esposa. Qual a importância de dizer que a poesia alcança o que o direito não alcança?

Veja o seguinte: na época em que estudei direito, todos os meus professores eram humanistas. Hoje é que nós limitamos muito o ensino. Eu presidi a Academia Paulista de Letras, e no meu tempo, 25% dos acadêmicos eram formados em direito. Paulo Bomfim, Mário Chamie, Domingos Carvalho da Silva, Péricles Eugênio, todos eram formados em direito. Se pegarmos a literatura brasileira do século XIX, os três maiores poetas românticos do Brasil na época — Álvares de Azevedo, Castro Alves e Fagundes Varela — eram formados na Faculdade de São Francisco (USP). Olavo Bilac também. O Movimento de 22 com Menotti Del Picchia, o Movimento de 30, e a Geração de 45, da qual faço parte literariamente, foi iniciada por Geraldo Vidigal. Sempre houve uma vinculação. Por quê? Porque o advogado, fundamentalmente, precisa de uma arma que é a palavra. A literatura auxilia você a desenvolver a palavra. Por isso a história da Faculdade de Direito é muito vinculada à literatura do Brasil, assim como acontece em Portugal e até na Romênia. Eu tenho um Doutoramento Honoris Causa na Universidade de Craiova, na Romênia, e tenho poemas publicados lá. Há uma coleção romena chamada “Academos” que publicou um livro de poesia de juristas brasileiros traduzido para o romeno. Eu coordenei o livro junto com Miguel Reale, Geraldo Vidigal, Saulo Ramos e Oscar Corrêa (que foi vice-presidente do STF) — os cinco, 10 poemas cada um. Então eu vejo uma vinculação muito grande entre a literatura e o direito, até pela abrangência do direito.

E doutor, o Opus Dei prega a santificação pelo trabalho cotidiano. A gente estava até comentando nos bastidores. De que forma isso moldou a maneira como o senhor exerceu o direito, especialmente nas horas em que o parecer certo era o mais impopular? Porque é complexo quando a gente precisa emitir uma opinião impopular, que vai trazer ataques, e ainda se manter firme nessa retidão.

Eu conheci São Josemaria Escrivá em 74, mas comecei a frequentar a Obra em 62. Só entrei para o Opus Dei em 71. Minha mulher entrou antes, em 68. Qual é a grande lição? Dizem que o Opus Dei é secreto. Não tem nada de secreto. O Opus Dei tem dois pilares apenas: a filiação divina e a missão. São Josemaria Escrivá descobriu: “Sou filho de Deus”. A única oração que Cristo nos ensinou foi o Pai Nosso. Se você diz “Pai”, é porque é filho de Deus. Isso nos dá uma importância muito grande a todos nós. Por isso também é que eu não ataco ninguém. Meus adversários e críticos também são filhos de Deus, são nossos irmãos. Eu rezo por eles. A segunda lição é que, se nós estamos aqui, estamos com uma missão de Deus. Ele tem um plano para nós, e cada um tem a sua missão. Uma vez perguntaram a São Josemaria Escrivá quem era mais importante: um presidente ou um jardineiro? A resposta foi: aquele que fizer melhor a sua função. Se o jardineiro for muito bom, ele é, perante Deus, muito melhor do que um presidente que não seja bom. O trabalho ordinário dá a razão de ser da vida. O trabalho se divide em seis dimensões: Primeira, a interior: se não tivermos conversa permanente com Deus, oração diária, não compreenderemos o plano. Segunda, a familiar: a família é a forma de continuar o plano de Deus. Terceira, a profissional: onde nós santificamos o trabalho servindo aos outros. Quarta, a apostólica: devemos levar os outros a compreenderem mais pelo exemplo do que pela palavra. O exemplo é o melhor pregador. Quinta, a vida social. E a sexta, a cidadã: nós temos que ser patriotas. Temos que ter coragem de ser muitas vezes “politicamente incorretos” para defender o que é certo. Nos primeiros séculos do Cristianismo, as pessoas foram martirizadas por 300 anos, até Diocleciano, por não renegarem sua fé, pois sabiam que estavam com uma missão. Quando o imperador Constantino aceitou o cristianismo em 313 d.C., ele o fez porque mais de 50% da população romana já era cristã; ele não podia governar perseguindo a maioria.

Essa dimensão dá à vida uma certa tranquilidade. Eu nunca quis ter cargo político nenhum. Fui sondado três vezes para ser Ministro, uma vez para Desembargador e uma para Senador (com o candidato vencedor me pedindo para compor chapa). Eu disse não para todos, porque minha vocação é apenas ser advogado. Só sei advogar bem porque gosto de defender. Seria um mau magistrado. Eu acho que na democracia o direito de defesa é o que há de mais sagrado. Em segundo lugar, porque eu gosto de lecionar. Fui advogado e professor universitário, e não fui mais do que isso. Estou com 91 anos, tenho 68 anos de advocacia e 62 de professor universitário. Me sinto muito tranquilo e realizado. Não por ter feito dinheiro, mas porque Deus viu que eu lutei para acertar. Devo ter errado muitas vezes, mas temos as confissões para nos corrigir. O importante é sentir que cumpriu a vocação, independentemente dos holofotes.

Agora pegando um pouquinho da cidadania, em vários momentos da história houve pareceres redigidos onde a assinatura do senhor tinha um peso especial. Como é viver sabendo que o senhor já participou de muitas histórias passadas do Brasil e pode construir histórias futuras? É um peso significativo. Eu fico pensando: a minha opinião não pode ser qualquer uma, porque isso vai determinar muita coisa.

Eu não estou convencido de que meu peso seja tanto assim, mas acho que o fato de chegar mais velho com coerência de princípios na vida auxiliou muito. Isso foi levando a contatos com presidentes da República, senadores, membros de governos. A minha primeira sustentação oral no STF foi em 1962. Hoje, cinco dos ministros atuais não tinham nem nascido e eu já sustentava no Supremo! Fui o primeiro a conseguir a extensão das imunidades tributárias para todas as igrejas no que diz respeito a obras sociais. Escrevendo sobre direito, muitas vezes um juiz, um ministro ou um desembargador faz a citação, e isso influencia decisões.

Durante a Assembleia Constituinte, o relator Bernardo Cabral era muito meu amigo. Tivemos contatos quase quinzenais e muitos dispositivos da Constituição terminaram com o meu auxílio, principalmente no sistema tributário e na ordem econômica. Fiz audiência pública com o Delfim Netto presidindo, e algumas coisas que propus foram aceitas, e ele ficou muito contente. O Roberto Campos prefaciar o meu livro foi outro momento de grande amizade. Nós fizemos audiências juntos, e eles viam textos liberais entrando na Constituição, como o princípio da livre concorrência no artigo 170.

Eu fiz uma audiência no sistema tributário e, com uma única palavra, salvei metade do Código Tributário Nacional. A história é a seguinte: eu debati os bastidores com o Francisco Dornelles, que na época era senador e presidia a comissão. Quando o texto do sistema tributário foi aprovado, o Dornelles me mandou para eu dar uma última lida. O Código Tributário de 1966 foi recepcionado pela Constituição. Mas o texto original dizia que a “lei complementar disporá” sobre três hipóteses apenas. Eu disse ao Dornelles: “Você eliminou metade do Código! Se a lei complementar só dispor sobre essas três hipóteses, qualquer outra disposição poderá ser feita por lei ordinária, e perderemos um padrão a ser seguido”. Aí sugeri alterar o texto na Comissão de Redação para: “Lei complementar disporá especialmente sobre isso”. Esse simples “especialmente” significava que não seria apenas sobre aquelas três hipóteses. A palavra travou o texto e nós sobrevivemos com todo o código recepcionado. Anos depois, eu e Dornelles contamos essa história em um programa de televisão do Ferreira Neto. Foi assim que uma contribuição salvou o Código Tributário.

Salvou metade do Código Tributário, o que subsidia empresas estarem vivas até hoje. E doutor, o senhor passou por Ditadura Militar, Redemocratização, Constituição de 88, Plano Real, dois impeachments. E sempre de forma atuante, mas como advogado e professor universitário, com uma visão de conselheiro. Como era isso?

Sempre estive muito vinculado a associações de classe. Até hoje eu presido o Conselho Superior de Direito da Fecomercio, há 36 anos, e participo de conselhos na FIESP. Como professor universitário, eu era consultado nessas crises institucionais. Mas eu sigo uma lição do grande tributarista Rubens Gomes de Souza: eu nunca cobro quando presto serviço para o poder a que estou sujeito. Não cobro da União, do Estado ou do Município de São Paulo, para manter minha liberdade de criticar. Se eu tiver argumentos para criticar, eu não o faço se a pessoa foi meu cliente, para não ter conflito de interesses. Eu dei pareceres para o impeachment de Collor e de Dilma sem cobrar nada, apenas para deixar clara a posição técnica.

E doutor, diante de tantas coisas acontecendo a nível de Brasil e a nível mundial, muitas vezes a gente se questiona: “Tinha que ser logo na minha vez?”. O senhor, que viveu todas essas transições, o que o preocupa genuinamente no Brasil de hoje? É uma tendência acharmos que o momento atual é sempre o pior?

Eu tenho um livro chamado “Uma Breve Teoria do Poder”. Nele, eu não analiso o poder pelas grandes teorias sociológicas ideais, mas crio a “Teoria da Sobrevivência”. Quando o homem vai para o poder, ele quer ficar no poder a qualquer custo. Para ficar no poder, ele se permite tudo. Na campanha política, a primeira coisa que um candidato vê é o que ele pode atacar de podre no adversário. É uma disputa de lixo no mundo inteiro. Quando se tem o trono, a necessidade não conhece princípios. Há uma peça de teatro francesa baseada na história de Antígona e Creonte, onde há dois versos que representam o poder total: “Todos os crimes são belos, desde que o trono seja o seu preço”. A política, que vem do grego “pólis”, virou a busca pela manutenção do poder a qualquer custo. É isso que vemos nos escândalos atuais: todos que têm o receio de ter o nome envolvido fazem de tudo para sufocar e abafar investigações.

Trazendo isso para a atualidade, na sua visão a Constituição hoje protege genuinamente o cidadão e o Brasil, ou ela acaba limitando o desenvolvimento?

Quando a Constituição foi promulgada, ela tinha dois pilares: a independência e harmonia dos poderes, e os direitos e garantias individuais. O Poder Judiciário seria apenas o guardião da Constituição. Isso funcionou bem durante os primeiros anos, na época do Ministro Moreira Alves. Mas o que aconteceu? Em um único mês, três grandes ministros saíram do Supremo. A partir daí, o Supremo começou a ter um novo entendimento. A Constituição é formada por princípios, normas e regras. Os princípios muitas vezes têm múltiplas interpretações. O entendimento clássico era: quem vai decidir qual vertente de interpretação prevalece é o Legislativo (os representantes do povo) através da criação de leis. Mas o Supremo mudou isso e disse: “Como nós somos os intérpretes da Constituição, se houver múltiplas interpretações, não é a lei que vai definir, somos nós que vamos decidir”. E começaram a reescrever a Constituição.

Eu não discuto o mérito pessoal deles, gosto de muitos como juristas, mas divirjo da posição que adotaram. No momento em que o Supremo passou a agir como um partido político, fazendo as vezes do Legislativo, passamos a ter insegurança jurídica máxima. Os ministros, indicados por um homem só, passaram a valer mais do que o Legislativo, eleito por 150 milhões de pessoas. Eles decidiram sobre o marco temporal, casamento homoafetivo, anencefalia e regras da internet que já estavam em vigor. Eu tive um debate público sobre isso com o Ministro Luís Roberto Barroso. Foi de alto nível, cada um defendeu sua posição, mas o fato é que deixamos de ter três poderes harmônicos.

Quando eles passaram a ser um poder político, a população começou a tratá-los como um poder político. Quando o Supremo não falava de democracia, todos sabiam que eles a defendiam. Agora que eles dizem o tempo todo que são os defensores da democracia, eles criam tanta insegurança jurídica que o povo não aceita, e eles são obrigados a andar com seguranças, não podem voar em aviões de carreira nem ir a restaurantes. Na época do Moreira Alves, os ministros andavam na rua livremente e nunca interferiam no Legislativo. Infelizmente, hoje a Constituição é a mais atacada no Brasil por causa desse ativismo político.

Entrando um pouco mais na vida empresarial: o empresário brasileiro hoje, que gera riqueza, parece cada vez mais preocupado em se proteger do sistema (burocracia, reformas tributárias, leis trabalhistas) do que focado em crescer. O que o senhor vislumbra para os empresários com as mudanças atuais? É um ato de coragem ou de teimosia empreender no Brasil?

É um ato de coragem, mas nós temos que fazer. O empresário brasileiro é muito forte. Temos um desperdício monumental por parte do poder público, que desorganiza a economia e aumenta a tributação, chegando a altos níveis de endividamento do PIB. O assistencialismo sem contrapartida desestimula o trabalho; há setores que querem manter o Bolsa Família das pessoas apenas para que elas aceitem os empregos. A nova Reforma Tributária foi aprovada em menos de uma semana, triplicou o número de artigos na Constituição sobre o consumo, e vai manter dois sistemas simultâneos vigentes (o atual e o novo) até 2033. É o desespero tributário. O atual governo foca em colocar os pobres contra os ricos, taxando os empresários de vilões, quando são eles que geram o emprego.

Porém, eu sou otimista de que as próximas eleições podem eleger um grupo conservador capaz de retomar os trilhos e fazer um ano de austeridade absoluta em 2027. O mundo vai enfrentar problemas enormes em nível financeiro e bélico, especialmente com os conflitos no Oriente Médio e na Europa. A vantagem do Brasil é que estamos distantes desses polos de conflito do hemisfério norte. Temos riquezas naturais que os outros não têm. Vale a pena ter coragem de investir no Brasil. O que precisamos é eleger governantes que entendam isso e façam pactos de não agressão entre si, para não dividir o eleitorado.

Doutor, queria agradecer pela generosidade de nos receber. O senhor teria mais um minuto?

Veja o seguinte, eu prometi ler para vocês no início uma carta que São Josemaria Escrivá mandou para mim. Quando ele veio ao Brasil em 1974, eu tinha fundado o Centro de Extensão Universitária, um centro de estudos a pedido da Obra. Como ele estava comemorando 50 anos de sacerdócio, eu mandei o meu primeiro livro publicado (“Noções de Direito Tributário”) como um presente. Ele me mandou este cartão agradecendo. Eu vou traduzir a mensagem: “Querido Ives, muitas graças por tua felicitação e pela publicação que tivestes a amabilidade de me enviar. Rogo-te que sigas muito unido à minha ação de graças pelos 50 anos, e que rezes por mim, por ser um sacerdote bom e fiel. Te encomendo e te bendiz com todos os seus, afetosamente, José Maria”.

Uma carta de um santo de altar! É a humildade em pessoa. Incrível, doutor. Para finalizar, eu queria fazer uma pergunta final de mensagem. A gente sempre vive achando que a nossa vida vai ser eterna. Imagina que o senhor tivesse que condensar todo o aprendizado da sua vida em um conselho final para a humanidade. Qual seria o seu conselho, Dr. Ives?

Com 91 anos, toda noite eu vou deitar e coloco minha vida nas mãos de Deus. Gostaria de ter uma morte não dolorosa, mas Ele é quem vai decidir. A vida só tem sentido se nós estivermos à disposição do próximo, da família, dos amigos e daqueles que trabalham conosco. Eu vou ler para vocês um decálogo divertido, que eu chamo de “Decálogo do Não”.

O “Decálogo do Não”:

  • Não reclamar;

  • Não falar mal dos outros;

  • Não falar bem de si mesmo;

  • Não perder a calma;

  • Não se apegar às coisas;

  • Não mentir;

  • Não perder tempo com coisas inúteis;

  • Não desistir perante as dificuldades;

  • Não se importar com críticas, senão para melhorar;

  • Não fazer nada de que se possa envergonhar.

Incrível, doutor! É tipo os 10 mandamentos. Muitíssimo obrigado. Estou lisonjeado de verdade de estar aqui na frente do senhor tendo esse papo. O senhor tem uma vida de muita importância para o nosso país. Agradeço também ao Davi, que fez essa ponte, e à Dra. Ângela. Muito obrigado pela cordialidade com que nos recebeu no seu escritório.

Eu é que agradeço. Criar mais amigos é sempre importante. Fico à disposição.

E a você que ficou aqui até agora, muito obrigado por acompanhar esse papo que é um marco na história do nosso podcast. Compartilhe este episódio com o máximo de pessoas possíveis e vamos fazer essa mensagem chegar longe. Um abraço!

A História do Brasil Pelos Olhos de Quem a Escreveu

Existem pessoas que leem sobre a história e existem aquelas que ajudam a escrevê-la. No histórico episódio #153 do Além do CNPJ, recebemos uma das maiores sumidades jurídicas do país: Dr. Ives Gandra da Silva Martins. Aos 91 anos, com mais de 100 livros publicados, 68 anos de advocacia e uma trajetória que se confunde com os principais marcos do Brasil moderno (como a Constituinte de 1988 e os processos de impeachment de Collor e Dilma), Dr. Ives nos dá uma verdadeira aula Magna. Em um papo profundo que mistura Direito, Política, Poesia e Espiritualidade, ele revela os bastidores do Supremo Tribunal Federal, os perigos do poder absoluto e o que realmente importa na reta final da vida.

1. O Peso da Palavra e a Poesia no Direito

Formado em Direito pela USP em 1958, Dr. Ives relembra uma época em que os advogados eram, acima de tudo, grandes humanistas. Ele compartilha que sua paixão original era a poesia, mas a advocacia acabou sendo “o bico que o sustentou” pela vida inteira. Presidindo a Academia Paulista de Letras, ele notou que a literatura e o Direito caminham juntos, pois a maior arma de um jurista é a palavra. Essa base humanista foi o que o permitiu debater ideias sem jamais atacar pessoas, tratando até os seus maiores adversários políticos com o respeito de quem enxerga em todos um irmão.

“A advocacia vai ser o bico que vai nos sustentar… mas o bico sustentou! […] O advogado fundamentalmente precisa de uma arma que é a palavra. A literatura auxilia você a desenvolver a palavra.”

2. A Constituição de 1988 e os Bastidores do Poder

Poucas pessoas sabem o quanto a influência de Dr. Ives Gandra moldou a legislação que rege as nossas empresas hoje. Durante a Assembleia Constituinte, ele fez audiências públicas com figuras como Roberto Campos e Delfim Netto, ajudando a incluir o princípio da “livre concorrência” na ordem econômica do país. Além disso, através de um intenso debate de bastidores com o então Senador Francisco Dornelles, ele conseguiu alterar uma única palavra no texto constitucional que acabou salvando metade do Código Tributário Nacional, garantindo segurança jurídica para milhares de negócios nas décadas seguintes.

“Por exemplo, com uma única palavra eu salvei metade do Código Tributário Nacional. […] A palavra travou e nós deixamos de ter inúmeras cláusulas para ter um padrão a ser seguido.”

3. A Insegurança Jurídica e o Novo Papel do STF

Um dos pontos mais fortes da entrevista foi a análise do Dr. Ives sobre o Supremo Tribunal Federal (STF). Ele explica que a Constituição foi desenhada para ter três poderes harmônicos e independentes, cabendo ao Legislativo interpretar os princípios constitucionais gerais através de leis. No entanto, segundo ele, o STF mudou esse entendimento, passando a reescrever a Constituição com base em suas próprias interpretações. Ao se transformar em um “poder político”, o STF gerou uma enorme insegurança jurídica e perdeu a confiança de grande parte da população, algo impensável na época de grandes ministros como Moreira Alves.

“No momento que o Supremo passou a ser um partido político, nós passamos a ter insegurança jurídica máxima. Por quê? O Supremo passou a reescrever a Constituição e o Legislativo passou a ser um poder acólito.”

4. A Filosofia de Vida e o “Decálogo do Não”

Aos 91 anos, com uma vida de realizações colossais e a tranquilidade de quem pautou seus atos pela fé, Dr. Ives compartilha a essência de sua espiritualidade baseada nos ensinamentos de São Josemaria Escrivá (fundador do Opus Dei). Ele entende que o trabalho bem-feito é a melhor forma de oração e que o poder pelo poder é um vício destrutivo. Como lição de vida para os empreendedores e para o mundo, ele deixou o seu “Decálogo do Não”: dez princípios de retidão para uma vida sem arrependimentos, que vão desde não reclamar até não fazer nada do qual se possa envergonhar.

“Não reclamar, não falar mal dos outros, não falar bem de si mesmo, não perder a calma, não se apegar às coisas, não mentir, não perder tempo com coisas inúteis, não desistir perante as dificuldades…”

Conclusão: A entrevista com o Dr. Ives Gandra Martins é mais do que um podcast de negócios; é um documento histórico. A clareza com que ele enxerga os problemas do Brasil atual e a sua serenidade para lidar com a finitude da vida nos mostram que a verdadeira genialidade não está apenas em acumular títulos ou riqueza, mas em servir ao próximo através do trabalho ordinário, mantendo a honra e a humildade intactas até o fim.

Quer escutar os detalhes desses bastidores diretamente de uma das mentes mais brilhantes do Brasil? Assista ao episódio completo agora mesmo!

Posts Similares

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *