Como Sobreviver a 102 Anos de Indústria, Crises e a Abertura da China com Guido Luporini | Além do CNPJ (EP #123)
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E aí, pouco a pouco, nós fomos desenvolvendo novas fábricas, várias pessoas foram descobrindo a China. O produto que era Xing-ling, hoje em dia, é produto de qualidade, e as fábricas começaram a robotizar. Eu acompanhei bastante isso. A última vez que eu fui lá foi em 2019, e é impressionante o que eles tinham e o que eles fizeram. Havia na época, me parece, seis ou sete fundições e foi o Delfim Netto quem deu um apoio muito grande para que certas empresas se aglomerassem. Infelizmente, cada um queria não perder a boquinha e acabaram praticamente quebrando todas elas. “Se todo mundo ao seu lado já perdeu a cabeça e você mantém a sua, você é um homem de sucesso.” Aí o Millôr Fernandes disse: “Quando todo mundo perdeu a cabeça e você não perdeu a sua, é porque você não tá entendendo [ __ ] nenhuma do negócio.”
Buenas, buenas, buenas. Seja muito bem-vindo ao podcast do Além do CNPJ. Primeiro de tudo, muito obrigado por estar aqui pra gente trocar essa ideia de empreendedorismo, vida real. Eu tô animado para essa conversa, vai ser sensacional. Esse podcast deveria durar 3 horas, mas a gente vai tentar fazer no prazo que a gente combinou, porque eu tenho certeza que vai ser um podcast recheado de coisas importantes, não só da trajetória empreendedora, mas de lições de vida. Eu tô aqui com um homem de 89 anos.
Daqui a um mês faço 89.
Daqui a um mês faz 89 anos! Empreendedor a vida inteira, com muita história. Deu vontade de gravar os bastidores daqui, mas infelizmente a gente sabe que no empreendedorismo, muita coisa que se fala não pode ir pra internet. Tanta coisa boa saiu aqui que a gente falou: “Ó, isso não fala no ar, né?”. A gente sabe como é a nossa vida. Mas já tô animadíssimo por esse papo. Há um tempo atrás, lá no Além do CNPJ, eu falei que queria entrevistar pessoas mais idosas e que tivessem toda uma trajetória no empreendedorismo. Começou a chegar várias pessoas pra gente, e o primeiro dessa série de entrevistas é o seu Guido Luporini. Seu Guido, muitíssimo obrigado por me dar essa moral, por vir aqui hoje trocar essa ideia, por falar de empreendedorismo e trazer a tua história pra gente. Muito obrigado, viu?
Vamos lá.
Seu Guido, antes da gente começar toda essa história (e eu quero saber da Luporini, quero saber de tudo), eu quero saber do Guidinho. Quando o senhor nasceu, aonde foi? Conta um pouco da tua trajetória. A Luporini, pelo que eu sei, tem mais de 100 anos de vida.
Sim.
E o senhor tem 88, quase 89. Então a Luporini é mais velha que o senhor. Como foi crescer numa família já empreendedora e acompanhar isso? Provavelmente o senhor teve muita visita na empresa, viu o teu pai fazendo essas coisas. Como foi a tua trajetória? Dá um overview da tua infância até a vida adulta.
Bom, começar dos meus 3 anos acho que não tem muito interesse, não. Mas, a partir dos 10 anos, eu comecei a acompanhar meu pai nos desenvolvimentos que ele tinha. Nós tínhamos naquele tempo uma distribuidora e importadora no Rio de Janeiro bem-sucedida. Nós importávamos rolamentos da RIV italiana (que posteriormente foi comprada pela SKF). Meu pai também já tinha uma fundição, a Fundição Luporini. Nos tempos logo depois da guerra, ou durante a guerra, muitas vezes os navios chegavam aqui e precisavam de peças de reposição, pistão, etc. Ele começou a fabricar isso, e fabricou baterias também durante um certo tempo. Eu me lembro bem que, com 12 ou 13 anos, eu já o acompanhava, tanto na fábrica quanto na distribuidora, e quando ele estava construindo um prédio na rua do Senado, lá no Rio de Janeiro. Sou carioca e botafoguense. Infelizmente, nem todo mundo consegue ser palmeirense ou flamenguista, mas eu tive minhas alegrias. Depois de 26 anos, o Botafogo acabou me dando uma alegriazinha nesses últimos anos, parecia cavalo paraguaio: saía correndo na frente e depois ficava no meio do caminho.
Mas, de qualquer maneira, comecei a trabalhar com 18 anos. Fiz a faculdade de ciências econômicas, porque na realidade eu tentei vir a São Paulo fazer administração, mas me pediram experiência, eu não tinha nenhuma, e acabei fazendo economia no Rio de Janeiro. Eu estava comentando nos bastidores, aliás, que passamos uma dificuldade bastante grande no passado. Nós distribuíamos muito material pela distribuidora. Chegamos a ter 17 filiais no Brasil todo, começando em Recife e indo até o Rio Grande do Sul. Mas passamos um aperto bastante grande porque não conseguimos nos adequar às necessidades da época.
Eu me lembro que trabalhava com a Walita, e posteriormente com a Wapsa. O fabricante estava lançando uma lista de preços com um aumento de 80 a 90%. Quando entrou a revolução, eles voltaram atrás e conseguiram se adequar, entrando nos custos da época. Alguns camaradas conseguiram se adequar e outros não. E nós tivemos uma dificuldade bastante grande.
Isso por causa da inflação, né? Na hora que a revolução entra, os preços seguraram.
Exatamente. Éramos muito dependentes de banco e, na época, quem aumentasse o preço não tinha as benesses dos bancos oficiais, que eram os mais importantes. Tivemos uma falha nossa, provavelmente, e não conseguimos superar esses problemas na velocidade certa. Outros cresceram bastante, tanto é que fábricas das quais nós éramos distribuidores, tipo a Cofap, a Metal Leve, foram para frente com bastante sucesso. A Metal Leve, por exemplo, acabou sendo vendida para a Mahle. Quem não é do ramo talvez não tenha muito conhecimento, mas grandes companhias foram crescendo bastante. A Metal Leve trabalhava sob licença e know-how da Mahle, desenvolveu um trabalho próprio, mas havia necessidade de mais conhecimento técnico que não conseguiram acompanhar, ou então valeu a pena para a família vender a empresa. Nós fomos nos desenvolvendo, nos arrastando um bocadinho. E tivemos, infelizmente, uma concordata em 1979. O capital de giro era pequeno, tivemos uns problemas de muita chuva em determinadas regiões, ficamos muito dependentes, os clientes atrasaram e outros fatores vieram. Aí decidi fechar a empresa.
E o senhor que estava à frente na época da empresa?
Eu já estava à frente da distribuidora. Meus irmãos estavam tocando a fundição, que também não estava indo bem, e acabaram fechando por lá também com os problemas deles. Eu aqui pedi a concordata, decidi fechar a empresa temporariamente e fui trabalhar na Fiat Lux. Aliás, foi uma das experiências mais gostosas da minha vida, porque os caras tinham dinheiro, era fácil vender, o produto era praticamente um monopólio. Se não era monopólio, eles detinham aproximadamente 90% do mercado.
Fósforo Fiat Lux.
Então era fácil de vender. Os caras não precisavam vender, o cliente que comprava. Na hora que eu cheguei lá, eu me lembro que eles vendiam de um modo geral só à vista, e postei inclusive caminhões parados na porta. Chegava sexta-feira, não conseguia entregar, o sujeito dormia com o dinheiro no caminhão porque ele tava com o dinheiro vivo ou cheque visado. Às vezes dormia na porta da fábrica para poder carregar e ir adiante.
Isso nos anos 80. Isso foi quando entrou a concordata em 79, e o senhor foi pra lá em 80. Fósforo naquela época bombava porque todo mundo precisava de fósforo, o fogão era aceso a fósforo.
Exatamente. Aí realmente eu tinha um produto na mão fácil, todo mundo queria comprar.
O senhor era vendedor?
Não, eu fui ser gerente de vendas. Eu era gerente de vendas cobrindo Rio, Minas, Espírito Santo e Goiás. Deixei a família em São Paulo. Eu recebia o salário no dia 28 ou 29 e pagava todas as minhas despesas da Luporini, que eu tava segurando as pontas.
Quem ficou tocando a Luporini nessa época?
Minha esposa, com os filhos lá. Dois funcionários e os filhos, que tinham na época 14, 12 e 8 anos. Eles ficaram ajudando ela e eu fui fazer dinheiro para conseguir saldar os problemas. Depois de um ano, eu comecei a ver que a empresa tava conseguindo pagar as contas. Tínhamos devolvido mercadoria para fornecedores, entregávamos duplicatas em pagamento, ou seja, tudo aquilo que a gente precisava priorizar para pagamentos a determinados credores, fizemos. No final de um ano, eu vi que tínhamos reduzido praticamente 70% das atividades, mas estávamos sobrevivendo. Aí eu voltei e comecei a trabalhar de novo na Luporini.
Nada como o tempo, né? E aí, além de algumas outras jogadas que a gente fez, acabamos desenvolvendo o trabalho e começamos a crescer de novo. Fomos nos desenvolvendo e, em 1990, eu decidi ir para a China. A primeira vez que eu fui para a China foi em uma cidade litorânea, aliás, colada com uma ilha em frente a Taiwan. Chama-se Xiamen.
Já ouvi falar de Xiamen.
A “Cidade das Flores”. Uma cidade belíssima, gostosa, porto grande, com benefícios fiscais. Foi quando fiz minha primeira experiência lá. Quando cheguei no aeroporto, esperamos 20 minutos e não apareceu táxi, não existia táxi. Saímos de lá de riquixá, aquelas bicicletinhas. Me lembro que naquela época, por volta de 91, eu andei uns 20 minutos sem ver um carro na rua. Não existia tráfego. Chegamos no hotel, fiquei num hotel chinês que o quarto parecia um apartamento. E o pessoal ligando do saguão, as meninas telefonando para ver se eu precisava dos serviços dela. Eu não precisava, estava preocupado em trabalhar, em entender os fornecedores, porque a China ainda era uma mística na época.
A China era fechada há pouco tempo, 35 anos atrás. O senhor descobriu a China nessa época!
Exatamente. Conheci, visitamos algumas fábricas. Tive muita sorte porque o chinezinho que tratou comigo era meio doido, me deu um prazo de 90 dias para pagar. Posteriormente eu descobri que o que ele comprava por um, ele vendia por dois. Mas tudo bem, a margem dele era boa, e a minha aqui também. Ele mandou os documentos direto para mim, não mandou via banco como deveria, mas por sorte encontrou do lado de cá alguém que era correto e nós pagamos. Fizemos uma parceria boa durante um certo tempo, até que pouco a pouco a China começou a ser descoberta pelo mundo. Os preços começaram a ficar meio apertados. Fiz uma segunda visita em 94, e posteriormente em 96, 98. Aí eu comecei a verificar que o chinesinho tava me passando a perna um pouco ou me dificultando os negócios em face da concorrência. Mas é verdade, ele tinha um pouco de razão, porque se eu tiver que vender hoje pro Senegal, eu vou querer uma margem maior do que se eu for vender pra Europa ou pros Estados Unidos. Questão de segurança, saber se o cara paga ou não paga.
Exato, até a própria segurança da moeda e do mercado.
Exatamente. Mas foi uma época que desbravamos lá. Em 2000 foi a última vez que eu fui sozinho à China, a partir daí eu comecei a ir com meu filho. Por acaso, foi interessante porque um camarada me deu um problema grave, um prejuízo de mais de 30.000 dólares. Ele me entregou uma mercadoria que se revelou de má qualidade. Tive que pagar várias indenizações de motores, pois as correias de distribuição estouraram e os clientes tinham toda a razão. A culpa era minha que fornecia o material. Eu questionei o sujeito, ele reconheceu o problema, mas se ele me vendeu por 50.000, deve ter ganho 1.000 dólares; ele não ia me pagar 30.000 dólares. Isso em 2000!
E 30.000 dólares no ano 2000 não é a mesma coisa de agora.
Mas por outro lado ele me falou: “Se o senhor vier na China, eu vou lhe compensar”. E na realidade foi uma beleza, porque nas outras vezes eu chegava na China e era recepcionado por três pessoas: uma intérprete, um motorista (porque eles não dirigiam) e o gerente do banco que não falava inglês. Era uma dificuldade gigante de comunicação, além do meu inglês ser uma desgraça. A intérprete só falava chinês e inglês, nada de português. Quando eu fui com esse camarada, rodamos uns 25 dias de carro e ele não me deixou pagar um único tostão. E as fábricas trabalhavam sábado e domingo.
Uma vez eu encontrei um sujeito num domingo e disse: “Mas a fábrica tá trabalhando a pleno hoje?”. Ele disse: “Os caras precisam e eu também”. Eu perguntei: “Mas hoje é domingo. Você trabalha?”. Ele: “Trabalho 365 dias por ano”. Eu indaguei: “Você não descansa nunca? E a sua esposa?”. Ele já sabia onde eu queria chegar. Foi uma lição interessante. Eu só tenho elogios ao pessoal de lá. É um povo trabalhador, esforçado, dedicado. Estavam saindo do nada, da pobreza extrema, com salários que na época giravam em torno de 80 a 100 dólares por mês nas províncias do interior. Nas regiões como Zhejiang, que seria o equivalente a São Paulo, era mais pujante. Fui também a Xiamen, no sul.
Então nós fomos visitando as fábricas, desenvolvendo parceiros e nos tornamos amigos de alguns deles, sempre exigindo correção muito grande. Muitas vezes questionavam o fato de o chinês vender material de segunda e terceira qualidade. Havia isso, mas nós nos esforçávamos para trabalhar com primeira linha. Depois, voltei com meu filho várias vezes e fizemos uma parceria com um sujeito em Ningbo, uma cidade que era muito poluída. Mas os camaradas foram se cuidando. Hoje em dia lá, motocicleta é tudo elétrica, os carros também. A China está tomando muito cuidado com a poluição e se profissionalizando brutalmente. O produto que era Xing-ling hoje é de altíssima qualidade, com fábricas totalmente robotizadas. A última vez que estive lá foi numa feira de rolamentos em 2019, e é impressionante o que eles fizeram.
E o senhor acompanhou isso acontecendo, né?
Exatamente. Realmente eu já vaticinava, por volta do ano 2000, que lá para 2008 ou 2010 eles estariam começando a incomodar os Estados Unidos, e a Europa já teria ficado para trás. E hoje os Estados Unidos têm que se cuidar, porque o pessoal é forte. Li nos jornais que eles estão formando cerca de 600.000 engenheiros por ano. A vontade de crescer, a dedicação, é de tirar o chapéu.
E se você parar para analisar o próprio modelo político deles… Por um lado é uma ditadura, mas por outro é um projeto de poder a longo prazo. No Brasil, a cada 4 anos muda tudo, então um fica desfazendo o negócio do outro. Lá eles pensam a longo prazo, e a educação é muito valorizada.
A educação é bastante valorizada. Vemos exemplos de engenharia incríveis, muitas vezes no TikTok, coisas que impressionam e belas estruturas. Infelizmente, não aproveitei tanto as belezas da China, porque nas 12 ou 13 vezes que estive lá, passei a maior parte do tempo trabalhando. Hoje em dia eu até teria vontade de voltar lá, mas primeiro temos que consolidar as fábricas parceiras que já temos. E a viagem é longe para caramba. Já fui por Chicago, São Francisco, pelo polo Norte, por Joanesburgo na África, pela França, por Dubai, por Hamburgo… Já fiz todas as rotas. A minha vantagem é que sou baixinho, então não ocupo muito espaço na poltrona. Quem tem 100 kg ou 1,90 m sofre na classe econômica. Eu sou meio pão-duro, não vou na executiva de jeito nenhum. Meu filho tenta me dar indiretas, mas eu vou de econômica mesmo.
Vai de econômica, é uma lição! E seu Guido, como foi a transição da empresa da primeira geração para a segunda? E agora para a terceira? Porque vemos muitos jovens que se formam em administração e chegam na empresa do pai querendo mudar tudo, como se o pai tivesse dado sorte, gerando um choque geracional. Na época do senhor, como foi essa sucessão?
Meu pai, quando eu nasci, já tinha 50 anos. Ele faleceu com 68, então eu tinha 18 anos. Quem tava tocando o negócio nessa época eram meus irmãos mais velhos. Nós somos cinco filhos, eu sou o penúltimo. Meu irmão mais velho ficou tocando a fábrica. E exatamente um pouco antes da revolução, ele chegou e disse: “Olha, nós deveríamos tomar cuidado com as arruaças sindicais”. Tinha um funcionário nosso que era muito ativo nos movimentos e isso estava atrapalhando. As reivindicações eram coisas que não podíamos atender na ocasião. Meu irmão achou melhor tirar o que pudesse e deixar a empresa quebrar. Mas nós não fizemos isso, continuamos e, com as dificuldades, a fábrica acabou fechando posteriormente.
Havia umas seis ou sete fundições na época, e o Delfim Netto tentou dar apoio para as empresas se aglomerarem. Infelizmente, cada um não queria perder a boquinha e acabaram praticamente quebrando todas. Fechamos negócio com outra empresa que tinha 40% do nosso tamanho, mas o sujeito tentou nos passar a perna, houve conflito de interesse e, no fim, todo mundo se ferrou. As fundições do Rio de Janeiro fecharam todas. Quando vejo o sucesso de uma Fundição Tupy, é caso de tirar o chapéu. Então a sucessão passou pro meu irmão mais velho enquanto a fundição estava lá, mas as dificuldades de capital de giro, filiais distantes e o mercado complicado nos pegaram em cheio. Nós como administradores também não estávamos tão bem preparados para a crise.
O senhor traduz a realidade do empreendedor de sucesso: quando as coisas dão errado por influências externas, o senhor não coloca a culpa só no externo. Se alguém deu certo nessas mesmas condições, é porque tinha um jeito e a gente não conseguiu. Como o senhor se preparou psicologicamente para ter essa sabedoria e não jogar a toalha no momento de dificuldade financeira, com bancos cobrando e funcionários dependendo?
Tive um apoio muito grande da minha mulher. Em duas ocasiões que eu joguei a toalha, ela pegou, segurou as coisas na frente e desenvolveu. A dificuldade de ir ao banco era revoltante. Você pagava a correção monetária num dia e o gerente já te ligava limitando seu crédito, explorando ao máximo. Botar a culpa no banco não resolve, o banco está fazendo o papel dele. Os burocratas acham que o empresário é sempre o vilão porque atrasa impostos, mas quando eu pedi concordata, priorizei pagar o fornecedor e o salário para sobreviver, e deixei o imposto para trás. Quando tive condições, fui lá e paguei.
O certo é isso. Se o senhor quebra de vez, não paga ninguém e ainda prejudica os fornecedores e a economia.
Uma vez um camarada me devia. Eu o cobrei e ele disse que tinha entrado um dinheiro para ele, mas que não ia me pagar naquele momento porque ia usar o dinheiro para fazer um novo negócio. Assim ele ganharia mais e teria condições de me pagar de vez. Achei que ele estava certo, ele tinha que fazer isso para sobreviver e gerar riqueza, desde que lembrasse de mim quando o negócio desse certo! Cada empresário passa por um momento diferente. Outra vez, almocei com clientes que eram excelentes e eles me disseram que estavam quebrados e iam fechar. Eram rapazes corretos, mas os negócios são assim: às vezes a gente ganha, às vezes a gente perde.
O senhor parece ter sido muito justo na sua trajetória. O senhor se emociona ao falar da sua esposa. Qual foi o momento mais difícil que o senhor lembra, aquele que afetou até o ego, de olhar e pensar que as coisas estavam desmoronando?
O momento mais difícil foi quando começamos a atrasar a entrega das mercadorias porque não tínhamos como repor. Isso trava a operação e dá uma sensação terrível de impotência. Você recebe o pedido e não consegue cumprir. Lembro de um gerente nosso, com 35 anos de casa, que já não fazia quase nada. Para mandar ele embora, a indenização trabalhista era gigantesca, daria mais de 2 milhões de reais nos valores de hoje. De onde eu ia tirar esse dinheiro se não conseguia nem pagar os custos básicos? O sujeito queria ser demitido, mas não abria mão de nada. Tivemos que fazer cortes muito difíceis. O desespero foi total quando vi que eu não tinha como falar com os credores para dar uma satisfação, foi aí que abri a concordata. Joguei a toalha mesmo. E minha esposa que segurou as pontas.
O tempo ajeita as coisas. Se o problema não é resolvível imediatamente, o tempo resolve. O senhor abriu concordata, foi vender fósforo e depois de um ano as coisas normalizaram. Quando a gente tá no desespero, perde a capacidade de pensar.
Rudyard Kipling escreveu um poema famoso que diz: “Se você consegue manter a sua cabeça enquanto todos em volta estão perdendo as deles… você será um homem, meu filho!”. Aí o Millôr Fernandes fez a piada: “Quando todo mundo perdeu a cabeça e você não perdeu a sua, é porque você não tá entendendo [ __ ] nenhuma do que tá acontecendo”.
E como tá sendo largar o osso da empresa para os filhos e netos? Dá ciúme?
Tranquilo. Eu dou palpites. Às vezes eles escutam, às vezes não. Nós pegamos algumas pessoas de mercado, além do meu filho (que tem 59 anos) e da minha nora, que estão conduzindo muito bem e recuperando muitos impostos, porque a tributação no Brasil é uma loucura. É difícil lidar com a burocracia, o governo cria barreiras. Na época do Serra, com a Substituição Tributária (ST), puxaram o capital de giro de todo mundo. Nós vendíamos para fora do estado e ficávamos com créditos que o governo não devolvia. E tem aquela estupidez de guerra fiscal: se você abrir filial no Espírito Santo e mandar pra lá antes de vender pro Rio Grande do Sul, fica mais barato. Por isso tem tanta empresa indo pro Paraguai hoje em dia.
Como o senhor faz para manter essa lucidez e energia? Ganhou campeonato de tênis ano passado!
Comecei fazendo ginástica e balé na juventude, depois montei a cavalo, fiz salto, remava na Lagoa Rodrigo de Freitas. Depois comecei a jogar tênis, que jogo até hoje. A verdade é que, durante uns seis ou sete anos, meu exercício diário era percorrer os quatro cartórios de São Paulo a pé para resolver burocracias. Isso me deu uma resistência grande! Hoje vou pro litoral passar uns dias, jogo muito papel fora e faço minha parte limpa no escritório. Acompanho os e-mails, dou meus pitacos. Meu filho costuma dizer que eu me meto demais e que não dou só palpite, que eu ainda quero mandar. Mas é lógico, em discussão de achismos, fica o mais sábio falando.
Os filhos estão todos encaminhados. Tenho quatro filhos: a mais velha é fiscal do estado, a caçula trabalha na AstraZeneca nos Estados Unidos, e os dois do meio estão comigo na empresa.
O senhor já viveu ditadura, hiperinflações monstruosas, confiscos, mudanças de moeda. O jovem de hoje reclama que as coisas estão muito difíceis no Brasil. O senhor acha que é sempre a mesma sensação, ou antes era realmente pior?
As dificuldades sempre existiram. Na época da hiperinflação, a gente vendia atrelado ao dólar, e o preço mudava 30% no dia seguinte. Eu dava o preço e só garantia por dois dias, senão tomava prejuízo. No governo Collor, quando teve o confisco, eu não sabia como pagar as contas. Consegui empréstimo com o dono da padaria para pagar funcionários e fomos nos virando com os créditos que tínhamos. Foi um dia de cada vez. Com o Fernando Henrique Cardoso a situação estruturou melhor.
Vou pedir licença rapidamente para agradecer aos nossos patrocinadores e logo faço a pergunta final. Todo esse audiovisual de qualidade que traz essas histórias de vida para a internet só é possível graças a eles: SMB Store, com seu sistema de gestão para PMEs; Agência RPL de marketing digital; Polux para planejamento tributário e gestão de crises; CMC Displays para materiais de PDV; Inspira Capital com seu BPO financeiro de excelência; Cross Host em produção audiovisual; Deisses Burguese Advogados para defesas tributárias; e a Max Service Contabilidade, que cuida da empresa de ponta a ponta.
Seu Guido, chegamos na reta final. Imagina que o senhor pegue seu carro agora, saia daqui, bata o carro e morra. Bato na madeira! Mas faço isso para dar peso à pergunta: se essa fosse a sua última mensagem para o mundo, no alto dos seus 89 anos de experiência, que conselho o senhor deixaria para a humanidade e para as novas gerações?
Eu não tenho muita coisa longa para falar, não. O que eu diria é o seguinte: viva cada dia como se fosse o último. Uma hora você acerta, né? Viva intensamente. E que a morte seja súbita, rápida e sem dar trabalho nem encher o saco de ninguém. É o ideal.
Qual é o segredo para chegar aos 90 anos com essa lucidez e disposição para o trabalho?
Tem certas músicas e estilos de vida de hoje que eu não sei como aguentam, quero que se danem. Eu vivo bem. Tive Covid, inclusive minha esposa faleceu de Covid. Passei apertado no hospital, fiquei com sequelas e sobrevivi. Depois tive dengue, e não sei qual dos dois foi pior! Hoje tomo minhas vacinas, faço esporte, jogo meu tênis. Outro dia me perguntaram por que eu não arrumava uma companheira viúva também. Falei: “Vou pegar uma velha de 70 anos cheia de problemas para quê? Já bastam os meus”. Tenho minha rotina cheia: na segunda jogo tênis, na quarta tem tênis com jantar, no fim de semana clube. Cancelei meu personal trainer das 6 da manhã porque não quero ninguém me enchendo o saco para acordar cedo. E moro sozinho, se eu for morar com filho ou nora, vou acabar arrumando briga. Sozinho eu fico em paz.
Seu Guido, muito obrigado. A trajetória do senhor inspira. É importante que os jovens ouçam esse empreendedorismo raiz, sem romantização. E se o senhor conhecer outros empresários da sua geração com histórias como a sua, as portas do Além do CNPJ estão abertas para eles!
Nós temos a Associação Nacional de Distribuidores de Autopeças (ANDAP). Sou tesoureiro lá há uns 15 anos. Sempre falo para eles que precisamos resgatar a história dos nossos distribuidores mais antigos antes que eles vão embora, porque o legado tá se perdendo. Fica aí o contato de grandes amigos do ramo, eu vou indicar e vocês trazem.
Obrigado, seu Guido! E a você que assistiu, muito obrigado. Quem quiser conhecer a Luporini, é só seguir no @luporinioficial no Instagram. Seu Guido não usa redes sociais, reclama das senhas da Netflix e dos jornais, mas a sabedoria dele vale ouro. Valeu, pessoal!
A Sabedoria de 9 Décadas no Empreendedorismo Real
O que você faria se, após décadas construindo um império familiar, fosse obrigado a pedir concordata e arrumar um emprego como gerente de vendas para salvar o próprio negócio? No episódio #123 do Além do CNPJ, temos a honra de receber uma verdadeira lenda viva da indústria nacional: Guido Luporini. Prestes a completar 90 anos de idade, seu Guido é a segunda geração à frente da Luporini, uma empresa com impressionantes 102 anos de mercado. Em um papo recheado de sabedoria e zero romantismo, ele nos conta como sobreviveu à ditadura, inflações astronômicas, mudanças de moeda e como foi um dos pioneiros a desbravar a China nos anos 90.
1. Engolindo o Ego para Salvar a Empresa
Na década de 70, a Luporini chegou a ter 17 filiais espalhadas pelo Brasil. No entanto, as dificuldades de capital de giro e o momento econômico do país forçaram a empresa a pedir concordata em 1979. Para não deixar o negócio da família afundar de vez, o seu Guido precisou dar um passo para trás: deixou a esposa e os filhos tocando a operação enxuta em São Paulo e foi trabalhar como gerente de vendas na Fiat Lux, vendendo fósforos. Foi com o salário desse emprego que ele conseguiu pagar as contas da própria empresa durante um ano, até que a tempestade passasse e ele pudesse voltar a empreender.
“Quando eu passei dificuldade de novo para sobreviver, eu paguei o fornecedor, continuava pagando em dia, o imposto eu deixei para trás e posteriormente, quando tive condições, fui lá e paguei. Às vezes a gente ganha, às vezes a gente perde.”
2. Desbravando a China Antes de Virar Potência
Muito antes da China ser o polo tecnológico e industrial que é hoje, seu Guido já estava lá fazendo negócios. Ele relembra sua primeira viagem em 1991 para a cidade de Xiamen, uma época em que quase não existiam carros nas ruas e os transportes eram feitos de riquixá. Ele conta as dificuldades de comunicação, os golpes que evitou e como testemunhou, ano após ano, o crescimento absurdo e a robotização das fábricas chinesas, prevendo que logo ultrapassariam as indústrias americanas e europeias pela força de trabalho incansável.
“Você trabalha? Eu trabalho 365 dias por ano. […] É impressionante o que eles tinham e o que eles fizeram. A fome, a vontade de crescer, se dedicar e trabalhar esforçados realmente é uma coisa de tirar o chapéu.”
3. A Frieza Diante do Caos
Quando perguntado sobre como lidava emocionalmente com a pressão de fornecedores, bancos e a possibilidade de falência, seu Guido traz uma lição de frieza emocional. O desespero não paga boletos. Ele compartilha que o apoio da esposa foi fundamental para não jogar a toalha de vez. A sabedoria do tempo o ensinou que, por maior que pareça a crise hoje, continuar trabalhando um dia de cada vez é a única forma de atravessar o túnel.
“Rudyard Kipling dizia o seguinte: ‘Se todo mundo ao seu lado já perdeu a cabeça e você mantém a sua, você é um homem de sucesso’. Aí o Millôr Fernandes disse: ‘Quando todo mundo perdeu a cabeça e você não perdeu a sua, é porque você não tá entendendo nenhuma do negócio’.”
4. Longevidade, Sucessão e Vontade de Viver
Aos 89 anos, enquanto muitos da sua idade preferem o descanso absoluto, seu Guido ainda joga tênis toda semana, dirige e opina ativamente nos negócios (hoje tocados por seu filho e nora). Ele prova que a mente sã e a saúde vêm de não parar no tempo e de não acumular problemas desnecessários. O segredo da longevidade? Viver o agora de forma intensa, cercado de amigos e sem dar dor de cabeça aos outros.
“Viva cada dia como se fosse o último. Uma hora você acerta, né? E viver intensamente, e morte súbita rapidamente, sem encher o saco de ninguém.”
Conclusão: A trajetória de Guido Luporini é o atestado definitivo de que o empreendedorismo no Brasil não é para amadores. Não existem “pulos do gato” ou enriquecimento mágico; existe trabalho duro, engolir o orgulho quando necessário e ter a resiliência de recomeçar do zero. Escutar quem já passou por revoluções, hiperinflação e pandemias é a melhor vacina contra a ansiedade dos negócios modernos.
Quer aprender de verdade com quem construiu história na indústria nacional? Assista ao episódio completo agora mesmo!
