O Escândalo dos Dados Ocultos: LGPD, Inteligência Artificial e a Verdadeira Governança com Lucas Paglia | Além do CNPJ (EP #164)

O Ativo Mais Perigoso da Sua Empresa

Muitos empreendedores gerenciam seus negócios focados exclusivamente em fluxo de caixa, vendas e contratações, tratando a segurança da informação e a conformidade de dados como meras burocracias para grandes corporações. No entanto, o mercado real prova o contrário: um vazamento de dados ou o uso indevido de informações pessoais pode destruir a reputação de um CNPJ e gerar passivos jurídicos devastadores.

No episódio mais recente do Além do CNPJ, capitaneado por Bruno Bertozzi na ausência temporária de Felipe Cassola, recebemos Lucas Paglia, especialista em Direito Digital, Presidente da Rede de Governança Brasil e fundador da Priva Info.

Em um papo franco, técnico e sem rodeios, Lucas abre a caixa-preta da privacidade digital e revela como grandes indústrias e ferramentas de Inteligência Artificial manipulam comportamentos através dos nossos dados de rotina.

1. O Caso do Teste de Gravidez: O Risco Real do Cruzamento de Dados

A exposição de informações no cotidiano atinge níveis assustadores que beiram os cenários distópicos da ficção científica. Lucas Paglia relata um caso real e gravíssimo ocorrido nos bastidores corporativos no Brasil, onde o monitoramento invisível de hábitos de consumo resultou em uma demissão ilegal de forma velada.

“Durante a pandemia, atendi o caso de uma funcionária de uma empresa muito grande que comprou um teste de gravidez em uma farmácia — aquela famosa farmácia onde você digita o seu CPF para ganhar um desconto. O RH cruzou os dados de consumo, descobriu que ela estava tentando engravidar e a demitiu. Isso mostra a gravidade da falta de controle sobre os nossos dados sensíveis.”

2. Desmistificando a Governança para o Pequeno Empreendedor

Existe um mito pejorativo no mercado de que compliance e governança exigem investimentos multimilionários no estilo das agências de segurança internacional. Lucas desmistifica essa narrativa, explicando que a governança deve ser adaptada à realidade de cada porte de empresa. Exigir segurança de nível militar de uma pequena vendinha local não faz sentido técnico ou financeiro.

  • Governança Corporativa de Grande Porte: Envolve auditorias complexas, comitês de risco, background checks e conformidade internacional (GDPR).

  • Governança de PMEs (O “Modelo Tilibra”): Consiste no básico bem feito. É o livro-caixa ou o caderno de anotações organizado, onde o microempreendedor mapeia exatamente quanto ganha, quanto gasta e quais são os seus custos reais para manter a saúde do caixa.

3. Inteligência Artificial: Você é o Produto?

A popularização das ferramentas generativas de Inteligência Artificial trouxe um novo desafio para o sigilo corporativo. Muitos empresários e funcionários alimentam os modelos de linguagem com dados estratégicos, planilhas de faturamento e relatórios internos sem ler as entrelinhas das políticas de privacidade das big techs.

Categoria do Modelo de IA Uso dos Dados Inseridos Impacto na Privacidade Corporativa
Modelos Gratuitos (Free) Os dados são coletados e utilizados de forma explícita para treinar e aprimorar o algoritmo da IA. Alto Risco: Suas informações estratégicas podem vazar nas respostas de concorrentes.
Modelos Pagos (Premium/Enterprise) As políticas de privacidade garantem que as informações inseridas fiquem isoladas e não sejam usadas para treinamento. Seguro: Recomendado para o ambiente corporativo e manuseio de dados de clientes.

4. A Solução da Priva Info e o Conceito de Esteganografia

Para resolver o paradoxo de permitir o uso inteligente dos dados sem expor a identidade dos titulares, a Priva Info desenvolveu um software inovador baseado em Esteganografia — uma técnica milenar originada na Grécia Antiga que consiste em camuflar uma mensagem oculta dentro de outra mensagem visível.

O sistema atua de forma automatizada e offline nos servidores das empresas. Ele varre os bancos de dados e documentos (como receitas médicas, prontuários ou processos jurídicos), identifica as informações sensíveis (CPF, RG, nomes, diagnósticos) e as tarja de forma definitiva através de criptografia.

Dessa forma, profissionais com diferentes níveis de acesso na hierarquia corporativa visualizam o mesmo documento PDF, mas as informações sigilosas aparecem tarjadas para quem não possui a credencial de segurança, blindando a empresa contra vazamentos.

5. O Preço da Perda de Foco: Viver no Presente

No fechamento do episódio, Lucas traz uma reflexão filosófica profunda sobre o impacto da tecnologia na saúde mental. O excesso de informações, a cultura dos algoritmos moldados para reter nossa atenção e o vício em dopamina barata estão adoecendo a sociedade por ansiedade.

O erro do executivo moderno é passar o dia chateado com os erros do passado ou ansioso projetando cenários de longo prazo (como investimentos para daqui a 30 anos), esquecendo-se de vivenciar e usufruir o momento presente ao lado da família. O sucesso real reside em dominar as suas métricas de paz e saber desfrutar das conquistas cotidianas sem o peso do crachá corporativo.

Quer entender como aplicar o compliance de dados de forma simples e proteger o seu CNPJ contra multas e vazamentos? Assista ao episódio completo agora mesmo!

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Mas eu vou te dizer o pior. Pandemia, eu já era de área muito grande no Brasil. Eu já tive caso onde a mulher comprou um teste de gravidez na farmácia, a famosa farmácia que você dá o seu CPF, e foi mandada embora porque ela estava tentando engravidar. E a lei trabalhista não só diz que quando está grávida… Qual que é a defesa de uma mulher que tá tentando engravidar se ela tem os dados dela expostos dessa forma? Então é muito grave. Para mim é uma coisa simples, porque não é que a governança… Eu, eu poderia fazer um corte aqui, que a governança não se aplica para eles. Pronto, mas não… Isso não significa que a governança não é importante para ele. Do lado que eu trabalho, de segurança da informação, eu vou exigir de um cara que tem uma vendinha a segurança da NASA? Faz sentido nenhum. Isso é… Isso é o que eu ia falar. Sabe aquele caderninho da Tilibra que você usa assim e ele faz ali um livro-caixa do jeito dele? Isso é governança pro micro e pequeno empreendedor, porque no fim do dia ele tem que saber quanto que ele ganha e quanto que ele custa para ele mesmo. O próprio chat faz uma coisa que eu acho boa e ruim ao mesmo tempo. O chat, o premium, que é o não pago, o de graça, ele tá explicitamente na transparência dele — que aí nós podemos entrar nesse detalhe, o quão transparente é uma política de 140 páginas, ou seja, nada transparente, mas OK, outro detalhe —, ele coloca explicitamente na política que ele vai usar os seus dados para treinar a habilidade deles na de graça. Na paga, isso diz que ele não será usado. Então, nitidamente você é o produto que todo mundo fala.

Buenas, buenas, buenas. Seja muito bem-vinda a mais um episódio do podcast do Além do CNPJ. Primeiro de tudo, muito obrigado por estar aqui pra gente trocar essa ideia de empreendedorismo vida real. Aqui do meu lado, Bruno Bertozzi.

Mais um, o monstro.

Estamos juntos, mais um, hein? Vamos para cima. Bora, bora que esse hoje tá bom.

Hoje o podcast vai ser muito, muito legal. Os papos de bastidores aqui que a gente estava trocando ideia, né? Sempre os bastidores ficam mais interessantes do que às vezes… Às vezes mais interessantes do que o ao vivo, né? Porque, querendo ou não, nos bastidores a gente pode conversar coisas que muitas vezes no ao vivo não dá pra gente trazer. Mas que a gente estava trocando ideia aqui e o universo que a pessoa que tá na nossa frente aqui, o convidado de hoje, vai trazer para a gente é algo surpreendente. Eu mesmo já tô com algumas lições de casa e eu quero aproveitar aqui o nosso podcast para pegar uma consultoria grátis. É, eu acho que esse é o momento aí. Então é grátis. Porque quando a gente fala de dados, né, sensibilidade de dados, a gente percebe que hoje, quanto mais a internet e a inteligência artificial avançam, mais nós estamos expostos. Do ponto de vista de usuário final, como eu lido com isso, eu acho que não dá nada. Eu até prefiro entregar logo meus dados porque a internet se molda aos meus interesses, sabe? Tipo, mostrar o que eu quero e tudo mais, anos e tudo mais vai, vai me entregando o que eu mais preciso. Só que existe uma faca de dois gumes aí. Até onde a gente tem que não se preocupar com isso? E mais, como empreendedores, o que que a gente precisa fazer para garantir que as coisas não saiam do nosso controle? É isso.

Mas acho que o mais legal também de hoje é que a gente tem uma versatilidade de assuntos muito boa, gigante. O cara que tá aqui na frente é monstro. Além de tentar esconder nossa cara aí com a tarjinha, que ele vai explicar, ele vai explicar, mas tem um monte de coisas aí dentro nos contextos gerais que isso é muito legal pro empreendedor, enfim, todos os tipos de empreendedores. Vai ter, vai ter uma amplitude muito legal.

É trazer insights pro papo de hoje. Estamos aqui com Lucas Paglia, meu caro, muito obrigado pelo convite, por estar aqui pra gente trocar essa ideia.

Prazer, obrigado, pessoal. Obrigado, Felipe. Obrigado, Bruno. Um prazer estar aqui. Acompanho, já vejo amigos inclusive estando aqui. Então, de fato é um prazer estar aqui, e cuidado com seus dados.

É isso que eu, é isso que eu quero entender melhor hoje. Mas, Lucão, cara, antes de a gente entrar na tua vida hoje, o que que você faz e tudo mais, me dá um overview do Luquinha, de onde ele veio, onde você nasceu, referências familiares, pai e mãe se estiveram presentes, o que que você queria ser quando crescesse? Como foi o overview disso pra gente trazer contexto para a vida de hoje? Dá um geral pra gente aí, pô.

Não podia falar diferente que, hoje em clima de copa, todo mundo queria ser jogador de futebol. Acho que essa daí é uma coisa que a gente já sonhou, o joelho não deixou. O joelho não deixou, né? Aquela piada interna. Mas brincadeiras do futebol, que eu até joguei, jogo hoje de brincadeira no futebol da OAB, de advogados, né? A gente ainda faz um campeonato. Pior que lá, se tiver problema, já sai com… Já sai com habeas corpus. Pro árbitro é o pior, porque todo mundo argumenta o tempo inteiro, né? O árbitro odeia apitar jogo nosso porque todo mundo tem motivo para estar certo, né? Então o advogado é complicado. Mas de fato, eu tenho uma criação assim: eu venho de família de médicos, meus pais presentes, casados ainda, uma coisa meio rara hoje, de certa forma. Mas aos trancos e barrancos ali, me ensinaram nessa relevância de estar perto, essa relevância familiar, que é uma coisa muito presente na minha vida. Eu também sou casado hoje e isso é uma coisa que é importante na minha vida pessoal, ter essa, essa troca com a minha esposa, ter essa troca no dia a dia, isso é fundamental para mim de apoio, de crescimento que eu tive em casa. Então isso é uma coisa que é importante. Mas todo mundo do lado médico. Então meu pai, minha mãe, minha irmã, meu cunhado casado com a minha irmã, todo mundo é médico e eu fui o primeiro advogado. Então assim, todo mundo: “o que que você vai fazer?”. Todos médicos, e adiantou, já tive que fazer isso. Mas o lado era: cara, todo mundo imaginava que eu ia para um lado de medicina, né? Dá até facilidade de alguns tópicos na escola, abertura às vezes de outros, cara. Almoço e jantar em casa, a gente só falava disso, né? Os caras quase comemoravam o relacionamento da família também, é só isso, né? Então você, pô, e até por isso vou fazer uma intersecção depois do por que que eu trabalho com esse lado de dados que a gente chama de sensível da saúde, porque eu via um pouco disso em casa, caramba, né? Mas então, todo mundo imaginava que eu ia para um lado meio médico, né? Meu pai também imaginava isso, mas, cara, eu sempre gostei de empreender, tá? Então o, o, o Luquinhas, o Lucas mais novo, né, ele olhava a medicina com uma dificuldade, muitas vezes, de empreender. Não que médico não faça, mas demora muito, né? Então hoje eu tenho 35 anos e talvez eu estivesse começando a minha carreira como médico agora, depois de seis, sete anos entre cursinho, faculdade, residência, quatro anos, você vai começar ali com seus 32, 33 a falar: “Ufa, agora eu começo a trabalhar”, né? Que é o que eu vejo na minha irmã. E isso não era uma coisa que me trazia interesse. A profissão acho linda, maravilhosa, mas esse lado de ficar ainda dependendo muito, sem poder empreender, sem poder, como eu brinquei com vocês nos bastidores pro crescimento mais dobrado, e não o crescimento normal que a medicina traz. E é interessante, eu fui para um outro lado, fui pro lado do Direito.

Legal.

Mas tive uma primeira oportunidade de empreender com 16 para 17 anos ali. Eu fazia… eu estudei num colégio que é o Dante Alighieri, então a gente tinha ali… eu sempre fui envolvido nessas coisas, fui presidente da comissão de terceiro ano, aquelas coisas que todo mundo entra numa expectativa e se frustra completamente. Mas foi importante para mim. E ali eu vi uma oportunidade. Eu estava numa reunião com uma diretora de eventos de uma empresa que até hoje existe, estava naquela época daquele boom dos nargiles, dos arguiles, né, que estava começando. Não dizendo que isso é bom para a saúde, não é esse o tópico, mas cada um faz o que quer. E estava naquele boom de começar, tinha uma oportunidade de mercado, independente se é bom ou ruim, mas tinha uma oportunidade de mercado, sempre tem, no lado bom, no lado ruim. E aí eu, numa reunião mais ou menos assim nesse formato, ela fala: “Cara, tá me dando uma dor de cabeça hoje em dia porque o pessoal levava na mochila os nargiles, cada um levava o seu”. E então assim, o pessoal tinha um controle até de substâncias, um controle de quebrar indenização, porque quebrava o pessoal bêbado na festa. Ela falou: “Seria muito bom se tivesse uma empresa que fizesse a locação”. E na hora me deu… me deu um estalo e eu tinha um amigo meu que era árabe, então ele já tinha os contatos, né? Sempre fui um cara de ter esses contatos. E eu falei para ela assim… não é que eu vou fazer, eu falei: “Eu já tenho essa empresa, eu tenho com o meu amigo”. Aí ela: “não acredito, Lucas”. Falei: “não, já somos experientes no mercado, várias festas já que a gente já fez, líder de mercado. A gente é líder de educação até para essa instituição. Pô, exatamente, pô. Já fizemos a nova, você vai ser o quarto cliente, né?”. E na hora eu falei, já tenho, eu tenho 20 lá na casa que a gente tem um depósito, o pessoal monta na hora da festa. Porque eu já tinha uma visão de evento por causa da questão de ser o diretor lá, o presidente dessa visão de eventos e comissão de formatura. O Dante tinha 350 alunos no meu ano, então assim, era uma coisa que eram eventos legais, grandes, a gente fazia balada para arrecadar para a festa, aquelas coisas que hoje não tem muito mais, mas na época era bem comum. E ali começa essa minha vontade e tesão mesmo de empreender, de sair um pouco dessa rotina do… talvez o, o… nada contra, mas o bater cartão direto para mim sempre foi uma coisa que eu sempre respeitei muito, mas me travava na minha cabeça. Eu acho que tem muita gente que é muito boa nisso e tem muita gente que, para mim, talvez fosse frustrante. Talvez eu pudesse sofrer mais no começo, como hoje a gente sabe que é difícil empreender no Brasil, em qualquer lugar do mundo, mas eu sempre achei que aquilo fosse uma coisa que me daria mais prazer, apesar das dificuldades. E ali começa uma vida de que a advocacia seria uma ajuda e não o meio, não o final; seria o meio pelo qual… Porque advogado hoje é um cara que ele é dono de empresa, ele é conselheiro, ele é diretor, ele tem esse background que é importante nas empresas. Acho que de todas as, as profissões, ela deu uma misturada boa, né? Porque o próprio médico agora entrando mais no empreendedorismo, essas… por mais que a faculdade não traga isso para ele, mas já tá, já tá no radar.

Tá no radar.

É, já tá todo mundo nesse mesmo… Só você olhar presidentes do Brasil, governadores do Brasil, donos de empresa, a grande maioria deles tinha uma carreira na advocacia, né? Então isso sempre me pensou o seguinte: cara, se eu for um advogado ruim, mediano, pelo menos eu posso fazer outra coisa. Agora, o médico que é mediano é difícil porque você mexe com vida, você trava. Então na dúvida assim, cara, eu não queria só fazer aquilo. Então a advocacia foi numa conversa com o meu pai. Como eu falei, eu sempre tive muita amizade. Tem gente que diz o quanto isso pode ser benéfico ou maléfico, né? Amizade com o pai tem os seus limites bons e ruins. Para mim deu certo. Para mim, meu pai sempre foi um baita de um amigo, um conselheiro, minha mãe também, mas meu pai, pela proximidade, sempre foi um cara que me ajudou, me apoiou. Então ele falou: “Cara, eu acho que a advocacia tem mais a ver com a tua cara mesmo”. Eu comecei fazendo Administração por causa dessa ideia de empreender, olhei e falei: “Talvez é todo mundo que não sabia mais ou menos, vou para Administração, né?”. Quando eu falava deles: “cara, você não sabia o que fazer, né?”. Falei: “Não, não sabia”. E aí depois eu migrei pro Direito pensando justamente nisso. Eu acho que vai me dar mais eh background, mais história para para percorrer na minha vida profissional do que Administração. Isso. E aí foi começando onde eu descobri a carreira muito legal da advocacia, mas de um outro lado, uma carreira que me frustrou de um lado, porque é uma carreira que é antiga. Hoje ela tá evoluindo, mas é uma carreira que você pegar assim, cara, Código Penal, década de 40, 50; Constituição, 88; Código Civil de 2002, são coisas antigas. E você para buscar novidade… Agora que a gente tá falando de IA, agora que a gente tá falando… Mas cara, a figura de ter um homem e uma mulher que decide a vida de uma batida de carro é uma coisa que, para mim, era meio… não, não me deixava muito clara essa visão de modernidade. Uhum. E outra, eu sempre gostei de viajar, de conhecer outras culturas, eu falava outras línguas e o Direito te impossibilitava isso de certa forma, porque advogado aqui não é advogado em outro lugar, certo? Então eu sempre procurei no Direito profissões dentro do Direito que pudessem trazer um, um mix maior de cultura, que pudessem me sair, me tirar daqui, vamos colocar assim — não que eu não quisesse ficar —, mas que eu pudesse interagir com outras coisas. E aí que vem esse lado mais governança que a gente vai tocar: proteção de dados, compliance, que é uma coisa um pouco mais universal, e aí você não precisa necessariamente ter a OAB, ter o bar dos Estados Unidos. É uma coisa mais de empreendedorismo, mais geral de empresa. E isso foi me chamando a atenção desde o começo.

Então, mas essa governança apareceu para você por justamente você com essa dor, indo atrás de opções que te dessem, vai, uma globalização maior do seu conhecimento. A governança talvez seja um dos assuntos, ou por acaso você estava vivendo alguma coisa que a governança bateu forte como uma dor, como um problema, ou algum caso que você pegou e você viveu de fato a falta da governança como um insight de: “putz, eu vou começar a trabalhar com isso”? Eu queria trazer um pouco antes ainda, porque eu acho que, eu acho que… e eu gosto de falar sobre governança também e acho que governança é uma palavra que ninguém entende.

É perfeito, então eu queria ouvir de você, um especialista, um cara que tá no meio do negócio o tempo inteiro: o que é governança? Traduz isso para o lado simples pra gente poder trazer isso à realidade.

Vai do conceito do livro: é direcionar, avaliar e monitorar. Nas minhas palavras: direcionar é trazer um plano de ação, avaliar é ver se o seu plano de ação funciona — porque muita gente fica com vergonha, evita falar que não funcionou um plano de ação, eu adoro quando ele não funciona, porque ele é verdadeiro, ele não funciona toda vez —, então você avalia um plano de ação para depois trazer o monitoramento, que é o famoso KPI, os indicadores para dizer se aquilo funcionou ou não. Sim. Então é uma, é uma mandala, é um ciclo, né? Então você acaba tendo que voltar para reavaliar o teu PDCA perfeitamente, é isso. Então a governança, no fim do dia, é você começar a avaliar o que você fez, então é quase como a própria leitura de você mesmo. E na empresa ninguém faz isso. Isso é muito doido, né? Porque o cara começa a falar de governança, o cara fala assim: “Não, mas cargo que é hierarquia”. Falou: “Não, não, espera aí, você não tá entendendo, isso é muito legal, cara, calma”.

E aí eu tive a oportunidade, né, e vou te contar um caso que me fez migrar para essa área e para isso, mas eu tive a oportunidade de conhecer uma pessoa no meio do caminho que é um ministro lá do Tribunal de Contas da União, que é um grande pai aí da governança no Brasil. Hoje em dia, eu sou presidente da Rede de Governança Brasil, né, que esse ministro ele é embaixador, e ele era um cara que defendia o seguinte quando eu fui numa palestra dele há uns sete, oito anos atrás: ele falava assim — eu era bem mais novo, obviamente —, o problema do Brasil não é o partido político, o problema do Brasil é a gente pensar de quatro em quatro anos. Quando eu vou para Dubai, eles estão pensando em 2100. É isso, isso é animal. E isso não… “ah, mas lá é uma tirania”. Ninguém vai discutir política aqui, muito menos eu, mas o ponto é: eles estão pensando porque é uma mesma família que vai continuar no poder, então como perpetuar isso. Ah, é certo, é errado, não é minha opinião, mas a gente não pode pensar de quatro em quatro anos. Isso atrapalha o empreendedor, o CPU quase 10 anos atrás. Isso, e é o que mais bate hoje em dia. É, você vê que todo país democrata, né, que tem uma instituição democrática ali, com que é o voto, enfim, ele sofre com isso. Se é um ciclo de três, de de seis, de quatro, mas é isso, você, você encerrou um ciclo do dia para a noite, pode mudar a mentalidade do que você pode entender do que quatro anos muda, e eu não sei qual é a parte certa disso. Exato. Não, não é discussão de coisas que são construídas e aí, quando algo novo entra, algumas são destruídas, reconstruídas, cara, é loucura. E aí ninguém sabe para onde vai e, de novo, do zero batendo de um lado, de lá, de cá. Eu acho que isso tem que parar de ser uma discussão, mas não dá para você pensar numa… vamos pensar na tua própria empresa: a cada dois, quatro anos entra uma pessoa que fala que o outro que fez era tudo errado e mexe tudo do zero de novo. Não tem como essa empresa prosperar.

Total, é olhar, é olhar isso do ponto de vista científico da coisa.

É isso, é analisar assim: tá funcionando, não tá? “Ah, mas para funcionar teríamos que ter uma ditadura”. Não, espera aí, ninguém disse isso. É, ninguém disse isso. A gente só tá falando que, beleza, só identificamos uma das causas, e como que a gente consegue resolver essa causa dentro das possibilidades existentes? Acabou. Exato, e ninguém quer ter essa conversa, ninguém quer ter essa conversa, fica se levantando bandeira. Não, mas… E ó, vou trazer pro lado do, do empreendedor: cara, ninguém quer ter essa conversa nem entre os sócios. Nem entre os sócios, é esse que é o ponto. Então, entre os sócios, você não quer ter essa política de sócios: qual é o que a gente vai fazer? Até onde você vai? Até onde eu vou? Em que caminho que a gente vai seguir? Que tá todo mundo acaba, e acaba o país, qual ele seja, é isso.

Então, quando eu vi um cara que era um ministro que já tava lá falando nisso, eu falei: “Pô, isso aí é legal para mim, eu vou começar a explorar um pouco mais”. Só que eu fui jogado, Felipe, para esse mundo de governança e muito mais pro compliance por causa da Lava-Jato. Caramba, eu fui cria da Lava-Jato. Eu estava numa empresa em 2013 trabalhando e aí eu estava numa área de contratos. Como eu nunca tive esse lado de fazer ação do cível, trabalhista, isso nunca me deu alegria no Direito, então fui para um lado que era o preventivo. E aí o contrato ele nasce também nessa ideia da governança, que é você prever. Teve gente que previu o acidente das Torres Gêmeas, teve gente que previu a pandemia, tem no contrato isso, inclusive essa história é verídica. Tem cara que conseguiu prever numa cláusula que ia ter um ataque no dia tal, então tem um monte de teoria da conspiração, obviamente, mas tem contrato que previa pandemias existentes no mundo e aí teve uma indenização super relevante. Então o cara do contrato é o cara que pensa em governança, entendeu?

O visionário.

Tem as teorias, é o visionário, o visionário. Tem as teorias, tá, Bruno? Não vou te negar, mas eu não sei das teorias. O ponto é que isso também entra na governança de você construir prevenção, né? E aí eu estava nessa empresa quando ela foi condenada numa operação fora do Brasil. Como parte desse acordo que a gente faz com o Ministério Público americano, que se chama DOJ — que é Department of Justice, Departamento de Justiça Americano —, a gente teve que, na América Latina, fazer uma adequação para compliance na época, para todos os países. Então aquilo foi uma, uma primeira visão que eu tive do que a governança pode fazer. Então, a ausência de controles internos, a ausência desses parâmetros, indicadores, chame como quiser, faz com que você não tenha análise e aí você volta para aquela, para aquele ciclo que eu comentei: sem o KPI, sem o indicador, você não tá avaliando, você não tá monitorando. Então isso passou a ser uma máxima na minha vida e, principalmente, no meu lado profissional, que foi depois cascateando para esses lados de proteção de dados, para esse lado que foi criando a minha vida como advogado mesmo e o que eu fui criando depois. Então, assim, foram experiências da minha vida onde eu via, eh empiricamente no dia a dia, que essa ausência trazia responsabilidade pro gestor.

Sim.

Trazia responsabilidade pro presidente de um país, por exemplo. Então, como você faz o remédio para isso? Se organizar. Então, eu mesmo na vida, mais novo… Acho que todo mundo, mas tem gente que é mais e menos, eu era desorganizado, era natural isso. Quando você começa a falar: “pô, meu pai e minha mãe estavam certos, caramba”, e organizar minimamente uma rotina até a tua vida melhora, como isso não é a verdade numa empresa, num país? Então, como fazer isso acontecer? Então isso foi abrindo na minha cabeça esse conteúdo de fugir do lado do Direito cível, trabalhista — que, de novo, não tenho aptidão para isso —, mas esse lado onde o advogado consegue trazer segurança e estabilidade, que eu acho que é o que falta muitas vezes para as empresas, né? Se a gente fala em segurança e estabilidade, você tá falando no mínimo em crescimento.

Sim.

Então, no fim, é isso. Então, o que eu… o que eu defendo é que a estabilidade gera crescimento e as pessoas pensam que a estabilidade gera o marasmo, né, o estagnar. Não é estagnar, até pelas frases de internet, né, de que estabilidade é ruim, zona de conforto, aí automaticamente se colocou numa caixinha de pejorativo. E que não, na verdade a estabilidade é o que todo empreendedor deveria ter, de certa forma. Eh do ponto de vista, depende da… depende da estabilidade, né? Uma estabilidade linear, ela não é boa, né? Então acho que tem… Eu acho que o mais importante da gente frisar não é a estabilidade, eu acho que só a palavra, mas é a funcionalidade e o guardrail assim, tipo, sei lá, é proteção, é até onde pode ir o controle de risco. É: beleza, cara, eu tô caindo, mas eu posso ir até aqui, daqui eu tenho que dar uma, uma endireitada.

É, mas o que você falou: a governança é ter dados, saber analisar esses dados e tomar decisões.

Analisar os dados depois e tomar a decisão, né? Então, pô, como que eu trago isso para a discussão do dia a dia? Eu acho que isso é uma discussão muito rica e que a galera não, não consegue, não consegue entender.

E a governança vem do D zero.

Exato, é, cara. Eu comecei a fundar a empresa, pô, legal. Quais os dados que eu vou analisar? Que que eu vou fazer? Qual que é o meu produto? Que que eu vou vender? Como que eu vou fazer?

Eu quero, eu quero traduzir essa governança de que vocês estão falando para a realidade do micro e pequeno empreendedor.

Perfeito.

Por exemplo, o Bertozzi tá falando aqui sobre a, a governança no D zero para todo tipo de empreendedor que começa um negócio, OK? Que, inclusive, a gente tem essa… O Bertozzi tem trabalhado muito ultimamente nisso, mas eu, eu vou ignorar tudo o que eu sei e vou fazer uma pergunta aberta pra gente trazer esse conhecimento aqui pro podcast: a governança se aplica ao pequeno e médio? E se aplica quando o cara tá muitas vezes vendendo o almoço para pagar o jantar, vendendo o jantar para pagar o almoço e, muitas vezes, também sem conhecimento algum? O cara não, não sabe fazer nenhum planejamento tributário, mal e mal uma DRE, mal e mal um CRM, e aí vai falar de governança para ele. Por isso que a palavra é forte, entendeu? Vai falar de governança para ele, né? Como que a gente traduz a governança, já que quando eu penso em governança é uma palavra… uma palavra em maiúsculo caindo assim, bem em cima do empresário. Como que a gente fala de governança para esse empresário da vida real, pequenininho, começando a sua trajetória, brasileiro? Dá um overview pra gente, Lucas.

Para mim é uma coisa simples, porque não é que a governança… Eu, eu poderia fazer um corte aqui, de que a governança não se aplica para eles, pronto. Mas não, isso não significa que a governança não é importante para ele. Então assim, do lado em que eu trabalho, de segurança da informação, eu vou exigir de um cara que tem uma vendinha a segurança da NASA? Não faz sentido nenhum. Ele tem que adaptar, ele tem que ter…

Isso é, isso é o que eu ia falar. Alguma coisa ele tem que ter.

Sabe aquele caderninho da Tilibra que você usa assim e ele faz ali um livro-caixa do jeito dele? Isso é governança pro micro e pequeno empreendedor, porque no fim do dia ele tem que saber quanto que ele ganha e quanto que ele custa para ele mesmo. Então, se você não tiver, não souber moldar… Ainda mais no Brasil, que é mais do que batido esse tema de que quantos Brasis existem dentro do Brasil, né, um país continental, etc. E é uma realidade, eu participei até de um… Eu fiz um treinamento pro Sebrae uns anos atrás para pequeno e médio empreendedor, e assim, uma coisa que pouca gente sabe: 98% de todos os CNPJs brasileiros são de pequenas e médias empresas.

Sim, sim, sim.

A gente fica lembrando da Suzano, de não sei que lá. Esse cara é o que ele emprega 100.000, OK? Mas não é a massa que faz o PIB do Brasil.

Cem empresinhas dão 100.000, entendeu?

Não é o… Ali é um diferencial legal de exportação, de conhecimento, visibilidade pro mercado externo, tudo isso é verdade. Para estrangeiro investir no Brasil, óbvio, ele não vai investir na lojinha, ele vai investir na CSN, OK? Mas o cara que movimenta o PIB do Brasil é o pequeno e médio. Isso é uma discussão que o Sebrae entende muito bem. Só que a gente não pode falar de estrutura dessa empresa gigantesca pro pequeno e médio.

Boa, é isso. Não dá, você ofusca ele com excesso de informações e necessidades de gestão, quando o cara, de novo, tá precisando pagar, faturar.

É, é. E eu gosto de falar… Você pegou um ponto bom, e eu gosto, porque você falou que o cara vende para poder comer, né, para comprar literalmente o almoço para comprar a janta. Mas será que ele tá vendendo o almoço e tendo dinheiro para comprar a janta? Ou ele tá vendendo o almoço e perdendo o poder de comprar a janta, e aí ele vai vender o almoço de novo amanhã e a janta vai ficar menor ainda no ralo? Porque ele não sabe se ele vendeu por um, pô, vendeu por um, mas quanto você pagou? O que que você usou? Como você fez? É, minimamente, analisar o simples para poder ver se você compra a janta, porque senão nem a janta está comprando.

E, e é por isso que o dado brasileiro é um dado de que, a cada três empresas, duas fecham, e em 5 anos, 67% das empresas fecham. Em 5 anos, 67%, dados do Sebrae. Isso é, isso é um índice de governança, cara, no fim das contas. Não é direcionamento, é direção e tomada de decisão. E o indicador dele não é um indicador porque o dólar… Não é nada disso. A inflação… É o seguinte, meu amigo: se você antecipar o teu cartão de crédito, a taxa é 12%, isso te dá uma liquidez de tanto que, no final, não vai ter o dinheiro para a sua janta que você tá vendendo, porque ele tá antecipando o crédito no final, dá dinheiro. Então isso, minimamente, é o caderninho que eu brinquei que ele tá anotando o fluxo de entrada do jeito dele. Então tem gente que põe vermelho a saída e azul a entrada, cara, continua fazendo assim. É isso, porque isso é governança para ele. E nós não queremos reinventar a roda. A governança que eu defendo na Rede de Governança Brasil, ela vem para a empresa pública, para a autarquia, e ela vem para um lado onde assim, é o dinheiro público que a gente, muitas vezes, é obrigatório, porque é nosso dinheiro ali que você discute se tá sendo bem aplicado ou não. Então eu quero um pouco mais de transparência, eu quero um pouco mais de direcionamento, quero ver o ciclo de: você avaliou o teu plano de ação, ele tá funcionando? Poxa, por exemplo, assim, eu sou um fã do Sebrae, não há dúvida disso, mas se duas de cada três fecham, será que o Sebrae tá fazendo… tá fazendo um papel direito?

É isso aí.

Então assim, não tô questionando o Sebrae, pelo amor de Deus, mas o ponto é: será que um indicador dele não significa que tem que reavaliar o plano de ação dele?

Total, por mais que as que estão fechando não passaram pelo Sebrae, e aí ele tem um problema comercial de funil.

Exato, de trazer essas, essas empresas antes do, do dia do fechamento e da falência para treinamentos. E, e será que o Sebrae tá… tá, eh alocado para o nicho, nicho certo? Também é verdade. Será que ele poderia estar alocado num nicho mais, mais decisivo às vezes, né, assim, menor, anterior ao que ele tá, tá colocando? Ele pega aquele empreendedorzinho pequeno, médio… Pequeno para médio já ele já tá, porque você pega a boleira que abriu um mezinho.

É, é isso.

Você pega, cara, essa é a realidade dos empreendedores, cara. Essa boleira que contrata uma funcionária para fazer a massa enquanto entra no farol.

É, é verdade, cara, o microempreendedor, o cara que abre o micro ali para poder vender.

O pedreiro, é a manicure… Essa, eu tenho um exemplo que assim, não participei, mas amigos meus participaram e é curioso: por exemplo, os meus amigos fizeram Poli, muitos deles, né? E, e tinha uma, uma, uma empresa de fazer cópias, uma papelaria assim, xerox, dentro da faculdade lá deles, né? E veio a pandemia, tá, bacana. E aí veio a pandemia de uma senhorazinha e um senhorzinho que eram casados, que eles cuidavam do xerox ali há anos e anos e anos. Veio a pandemia e a faculdade não tem alunos. Esse cara não tem como faturar. O que que eles criaram, tentaram ajudar ele: de fazer entrega de comida em casa, que ficou uma coisa bem comum na época da pandemia, que você não podia sair de casa, eles montavam uns kits. Hoje, os caras não voltaram para a papelaria, eles não têm mais o xerox, eles só vivem disso. Por quê? Porque eram 10, 12 pessoas da Poli fissuradas em números, Excel, planilhas, estrutura de margem, de tal, que hoje em dia o negócio dele funciona. Então, o ponto que eu tô querendo trazer não é a ideia de você precisa ensinar o cara o que que é passivo e ativo, talvez não. Não é, talvez, você dizer: “na grande maioria dos casos não é talvez dizer R$ 20 a marmita se você for declarar o imposto”, que a gente sabe que muita gente não faz, vamos na realidade, mas vamos dizer que, sim, sobra 18, teu custo é sete, sobrou… Não. Então tem que ser 22 a marmita, porque não adianta você abrir para falar: “o meu preço é competitivo” se você não tá pagando a tua conta. Tô vendendo, mas será que eu tô pagando a conta?

Mas do ponto de vista de a gente falar sobre governança pros pequenos e médios, será que a gente não teria que mudar a palavra? Então, é porque ficou muito pesada a governança em si. E aí, quando você sobe cada vez mais, tá entendendo o que eu tô querendo… Querendo ou não, quando você chega e fala pro cara: “ó, vamos falar de governança aqui”, o cara já pulou para trás. Será que, cara, vamos falar da sua marca, vamos, vamos trazer os conceitos específicos e nichados sobre o tema que precisa ser falado? Eu gosto muito do que a gente fala, né, dentro do meu novo negócio, que é: cara, cabeça de dono. Por que não adianta você pegar a cabeça do, do empresário e transformar ela e colocar ela aqui embaixo? É a cabeça de dono. O dono é aquele que faz tudo.

Isso.

É aquele que pega a marmita, cozinha, separa, embala, fecha, pega o carro, vai lá, faz, vai entregar, volta. E aí, como que na cabeça de dono ele consegue organizar minimamente para que ele, numa esteira, ele consiga crescer para a cabeça de empresário?

Verdade, é natural, é natural, é natural. A própria vida do cara e essa microprofissionalização que vai acontecendo dia após dia vai levando ele para uma necessidade maior.

Porque eu falo assim, imagina, pegar a cabeça de dono: o que que você é bom em fazer? “Ah, sou bom de ir para a rua vender, pô”. Bacana, se você tivesse mais tempo vendendo, será que você venderia mais? Quanto que te sobra? “Ah, me sobra 2.000”. Poxa, então eu pago uma, uma cozinheira por 1.000, vai te sobrar mais 1.000 porque você tá na rua vendendo. Então você começa a inverter a lógica do crescimento. Para isso, você não tem caixa ainda, mas vamos então estruturar para você ter caixa e conseguir dar esse passo. Isso é governança para a pequenina. Talvez o nome seja outro e a gente tá aqui talvez para criar, mas o nome disso, no geral, é governança.

Não é isso. É, na verdade, a própria palavra governança tá certa, eu só tô falando de a gente democratizar o acesso a uma palavra um pouco melhor. Cabeça de dono é uma boa palavra, cara, você tem que ter cabeça de dono. O que que é a cabeça de dono? E aí você cria uma matriz lá da cabeça de dono que seria pro cara, legal. E aí você falando de governança, você entrando, inclusive, ajudando o país a trazer governança pros entes públicos, eu acho que isso é fundamental.

O que é um desafio gigantesco.

Mas vamos falar que quer, desculpa. Aí você pega os dados e buf.

É, eu ainda quero, eu quero provar pro Felipe que talvez ele tenha crédito em algum lugar do banco e ele não saiba, vamos lá.

Opa.

Então vamos, galera, olha, olha, olha o pré-crédito em seu nome, é isso que eu tô te dizendo.

É, vou te contar a história importante disso, então, e é isso que que eu, sinceramente, me preocupo com muito pouco.

É por isso que eu estou falido (risos). Pegaram o crédito por mim.

Não é verdade? E é verdade, aconteceu com ele. É, aconteceu com ele, comigo. Então vamos lá. Depois a gente vai falar, vou contar essa história para você, é isso. E, e uma das coisas que a gente… que é legal a gente falar também, eh…

[roncando]

…pra o quanto eu acho que é legal a gente falar, primeiro do, do ponto de vista do usuário, depois do ponto de vista da empresa. Mas assim, como que a governança eh e todo esse tema que você tem trabalhado começou a se desencadear mais para essa área de proteção de dados, LGPD e tudo mais? O quanto você se envolveu em projetos, como você estava envolvido no mercado público, quando você se envolveu de fato na lei da LGPD? Se isso, de fato, teve algum envolvimento, aconteceu, ou como que você desdobrou isso trazendo, talvez, soluções pro mercado. Eh até que hoje você se tornou também um especialista dessa parte de proteção, com inclusive uma empresa de que a gente estava conversando aqui, que é um nome super difícil. Eu quero que você me explique daqui a pouco, eh como que foi essa, essa transição da governança para a proteção de dados para você, nessa tua carreira aí?

Boa, obrigado, Felipe, por tocar nisso, porque esse é um dos motivos de orgulho da, da vida também, né? Mas foi basicamente… eu sempre acho assim, né? A gente tem que estar aberto para novas coisas, né? Eu acho que o, o empreendedor, o empresário que também é muito cabeça fechada — claro que têm nichos que isso dão, dão essa liberdade —, mas poxa, eu acho que a gente tem que entender que o mundo vai se transformando. Então, quando eu, né, eu participei dessa história da Lava-Jato e aí um professor na época da GV, ele montou a primeira pós de compliance no Brasil.

Caramba, que legal!

Que não existia, foi na GV. Então, a gente falava de compliance. Eu tive a oportunidade de ser o cara do compliance em algumas empresas, que é outra palavra difícil, né, cara?

Desesperador, cara. Assim, o meu medo era: nunca mais vou para um happy hour dos caras, entendeu? Assim, tipo, nunca mais o cara de vendas vai olhar na minha cara, porque o cara te odeia.

Aliás, esse podcast acho que a gente podia colocar: desmistificando palavras difíceis, bacana. Nós vamos falar uma daqui a pouco que é dificílima (risos). Essa aí eu não vou nem me arriscar. Já nem eu sabia, né? O meu sócio lá que inventou essa palavra. Mas o, o… A ideia foi mais ou menos isso, né, Bruno? De que o compliance apareceu na minha vida sem querer, só que se eu tivesse me fechado a ele… Sim. Eu hoje em dia sou muito feliz no que eu faço, eu adoro o que eu faço, eu tenho muito prazer nisso. Só que no começo da minha vida profissional eu tinha dúvidas, sim. Então, se eu não tivesse me tornado aberto àquilo, se eu não tivesse participado das rodas de conversa de partes que falavam daquele tema, aquilo não teria me apetecido e eu não teria hoje as coisas de que eu… mergulhado nisso, é que eu… que eu criei a partir disso.

Só um parênteses: o que que é compliance?

Claro, cara. Compliance, na tradução literal, é conformidade, tá? Então assim, estar em conformidade é basicamente dizer que existe uma lei e eu estou em conformidade. Só que no Brasil a gente lembra de compliance — e no mundo também, mas mais no Brasil — por causa da anticorrupção. Uhum. Então existe no Brasil uma lei anticorrupção, que é a 12.846 de 2013, por conta da Lava-Jato, que diz exatamente isso. Não se pode… Já tinha no Código Penal, né? Corrupção ativa, passiva, isso já era no Código Penal, mas define o que é corrupção. Então, por exemplo, corrupção eh eu tenho um camarote no na Copa do Mundo e você é meu diretor da empresa pública, vai no meu jogo. Não é um dinheiro que tá rodando, mas é um favorecimento em troca de algo. Isso é, isso é corrupção. Então, o compliance ficou no Brasil famoso por vedar, por inibir ou tentar inibir esse lado de corrupção. Como: criando controles, criando transparência. O inimigo da corrupção é a transparência. Por isso que existe o Portal da Transparência, que se tenta dizer os gastos das pessoas — é que aí o brasileiro constrói artimanhas e maravilhas para, mesmo na transparência… mas a gente já sabe onde é que tá. Mas enfim, então a… o compliance diz o seguinte: “eu preciso colocar a lupa nesses lugares para que você me diga com transparência o que foi feito. Então eu posso gastar para comprar uma empresa que faz a… sim, mas esse foi o melhor preço? Essa foi a melhor condição? Por que que você vai comprar 30.000 canetas se você tem 5.000 funcionários?”. Então existe uma transparência que tem que ter uma explicação.

Legal.

E essa explicação vem de criação de controles internos e externos quando envolve o poder público. Por exemplo, a CGU é um órgão de controle externo, Controladoria-Geral da União, então ela avalia se aquele Portal da Transparência tá correto, por exemplo, e por aí vai. Então compliance é essa conformidade. Então hoje existe compliance trabalhista, compliance tributário, ou seja: eu estou seguindo as regras que deveriam existir ou deveriam estar sendo seguidas. Isso então ficou uma coisa mais comum pro brasileiro de ter esse compliance, mas ele veio do anticorrupção. Quando a gente migra desse compliance, foi quando de fato eu participo dessa pós da GV, o professor chama e fala: “Cara, você já tem a parte prática, falta o teórico ali do, do diploma”. Que a gente sabe que na minha profissão de advogado isso é muito importante. O cabelo branco que tá vindo, felizmente ou infelizmente, ajuda, e o diploma. Então ele falou assim: “Cara, pega um diploma, vem fazer, seja aluno com a gente da primeira turma de compliance, e vamos tocar nisso”. Com

[roncando]

…isso, eu monto um escritório lá em 2017 — mais uma parte de empreendedorismo, né? —, só de compliance, só de governança, só dessas questões. Então eu não era um escritório de advocacia, eu era uma LTDA que fazia consultoria para montar programas de compliance, programas de governança, programas de gestão de risco das empresas com as novas leis que estavam vindo. Boa. Existia uma lei tramitando muito importante, de que até participei de alguns debates dela por estar em Brasília. Um dos grandes criadores era um cara da minha faculdade, que era o Bruno Bioni, e ele sempre falou: “Cara, vai ter uma lei de dados no Brasil, vai ter uma lei de dados no Brasil, vai ter uma lei de dados no Brasil, fica esperto, fica esperto, fica esperto”. E eu pensando em internacionalização, outras línguas, sair do meu mundo só aqui, aquilo era perfeito. Eu comecei a me atentar, comecei a participar. Acontece um caso muito famoso no mundo que muda a minha vida também, de como eu estou vendo o futuro das questões, que é o caso que é famoso, tem um seriado no Netflix… tem um documentário, perdão, no Netflix, que chama Privacidade Hackeada. Uhum. Esse documentário conta a história da eleição dos Estados Unidos, de uma síntese muito absurda aqui, porque ele é bem legal e quem quiser conhecer vale super a pena. Ele explica quando que, em 2016, na primeira tentativa do Donald Trump contra a Hillary Clinton — e aqui, de novo, não defendo bandeira nenhuma —, mas o Donald Trump era um cara mais de direita, né, republicano, como eles chamam lá, e a Hillary Clinton de esquerda, democrata, né, o vermelho e o azul, como eles demonstram muito bem no mapa, brigavam para ser eleitos. E, assim como no Brasil, tinha uma polarização: quem vota em A odeia quem vota em B, quem vota em B odeia quem vota em A. Só que aí o Donald Trump — de novo, sem defender bandeira nenhuma —, tem uma sacada genial: onde estão os eleitores dos Estados Unidos hoje, em 2016? Facebook. Ele entra em contato, a equipe dele, com o Mark Zuckerberg, o famoso Facebook — que na época não chamava Meta, era só o Facebook mesmo —, e fala o seguinte: “Me fornece todos os dados dos, dos americanos que eu vou fazer uma mineração de dados por uma empresa chamada Cambridge Analytica, com analytics, com análise de dados puramente, e eu vou saber pela tua curtida se você é meu eleitor ou não”. Por quê? Se eu curtir um negócio dizendo “Deus” e não sei que lá, talvez eu tenha um viés mais de direita, ou “não aguento mais imigrantes na minha rua”. Não que eu odeie, mas às vezes alguém colocou lá e eu curti. Isso é um indício de que… por que que eu vou gastar dinheiro com quem já vota em mim se ele odeia o… Animal, animal. E por que que eu vou gastar dinheiro com quem vota no outro se ele já odeia o meu lado da decisão? Eu preciso ir no lado cinzento, no que tá na dúvida. Então ele fez uma campanha… que sempre ganha eleição.

Exato, ele fez uma campanha… é lógico, é a virada de chave, e é o inteligentíssimo, puxa o centro é que ganha. É animal.

E aí você tem uma eleição direcionada, é quase como eu brinco: vender marmita vegana para quem é vegano. Porque se eu chego num lugar e tem 1.000 pessoas e nenhum é vegano, eu vou vender como? Agora, se eu for a um lugar que tem 50 veganos, talvez eu venda os 50. Exato. Então ele consegue minerar o dado a um ponto de escolher estados com peso maior e dedicar campanhas exclusivas. Resultado da eleição: ele ganha, e de maneira louca, porque nos Estados Unidos é diferente do Brasil, não foi com o maior número de votos.

É porque ele tem o maior número de estados, né?

De estados. Ali, quando eu estudo isso e eu entendo que uma rede social que até então parecia inofensiva… que eu estudo que ele define a maior economia do mundo por conta de uma análise de uma rede social, eu falei: “esse negócio vai ser revolucionário no mundo”. O mundo, naquele momento de 2016, para e faz uma reunião na Europa e cria uma lei de proteção de dados e privacidade na Europa, que é a GDPR. O Brasil meio que copia essa lei, e eu vi lá fora acontecendo assim, cara: lá o bicho pegou, a lei mudou muita coisa, as empresas foram multadas, o próprio Mark Zuckerberg pagou multas bilionárias nos Estados Unidos e na Europa por conta disso, os caras da Cambridge Analytica foram presos.

[ __ ]! Caramba.

Então, assim, o mundo olhou e falou: “Cara, não pode”. Depois descobriram que o Brexit do Reino Unido foi pela Cambridge Analytica também. Então, hoje em dia, tem gente que critica a saída do Reino Unido da, da da Comunidade Europeia, mas não se sabe qual foi a manipulação. Então eu comecei

[roncando]

…a aprender que, sim, dados se manipulam, resultados se manipulam, e eu não sei de que forma meus dados estão sendo usados para isso, que é a brincadeira que eu fiz nos bastidores. E aí, quando o Felipe brinca de falar “eu gosto de ter o, o anúncio personalizado”, Felipe, eu não sou contra, mas desde que você saiba que isso acontece, desde que você tenha optado por isso, é isso. E aí, esse é o grande… esse é o grande ponto. Então, em algum lugar é uma transparência. O que que você sabe? Vem de novo, vem a transparência. Então, o grande… a grande discussão que eu trago pra lei, e acho que a sopa de letrinhas ela é difícil às vezes de entender, LGPD… O fato é: cara, eu não tô discutindo usar o dado, claro que o dado vai ser usado, claro que o dado precisa ser usado.

Me convenceu já, é isso.

Mas me explica como. Já deu pro… Tamo… É isso, é isso, pelo amor…

Deus não (risos).

…Deus não, mas é o que acontece no chat, por exemplo, quando você entra lá e, e ele te mostra tudo o que ele tem de contexto sobre você.

Vou te contar uma do chat.

Aí você conta mais… Ele poder… Não, tal, talvez ele saiba até mais do que aquilo e só te mostre uma parte. Mas se fosse 100% transparente e 100% confiável, é ali que ele se baseia, tudo o que ele sabe de contexto da minha vida.

O próprio chat faz uma coisa que eu acho boa e ruim ao mesmo tempo: o chat, o premium, que é o não pago, o de graça… Uhum. …ele tá explicitamente na transparência dele — que aí nós podemos entrar nesse detalhe, o quão transparente é uma política de 140 páginas, ou seja, nada transparente, mas OK, outro detalhe —, ele coloca explicitamente na política que ele vai usar os seus dados para treinar a habilidade deles na de graça. Na paga, isso diz que ele não será usado, então, nitidamente você é o produto, o que todo mundo fala, total. Então, começa a se mudar na ideia da proteção de dados e eu começo a analisar o seguinte: cara, a tecnologia veio, não vai mudar a possibilidade de eu começar a inferir. E nada eh, eh apocalíptico de ‘Eu, Robô’, não tô entrando nesse detalhe. Eu tô dizendo de que hoje em dia… inclusive eu tenho clientes, hoje em dia eu sou DPO — que a gente fala que é o encarregado de dados —, sou diretor de privacidade de 42 empresas em nove países hoje.

Caraca, que animal, né?

E eu trabalho… E são leis diferentes, né? O Brasil tem a sua, o Paraguai tem a sua, o Uruguai tem a sua, e a gente… Eu tento… Claro que elas são semelhantes porque a matriz delas é a GDPR, mas eu vivo esse mundo bastante no meu dia a dia e por isso que nasce a Priva Info, que eu vou contar para você, que é essa empresa depois. Mas eu começo a entender, Bruno e Felipe, que o mundo vai mudar, e não é que foi visionário. Acho que muita gente desse mundo também olhava e falava: mas o que vai mudar é que o dado passa a não ser aquele ativo que a gente fala, mas um decisor. Então o que se fala hoje na palavra é que a democratização na internet acabou, porque se eu abrir o meu Instagram, o seu e o seu agora, nós não vamos ver o mesmo conteúdo, de abordagens diferentes. Só que sabendo que eu gosto dessa abordagem, não há mais troca de ideias, só há segregação, isso. Só há colunas e não tem mais a intertroca de: “eu quero ver o outro lado da conversa”, não existe mais.

São as…

[roncando]

…bolhas, né, que todo mundo cai, todo mundo cai.

Então, e aí, né, a gente começa a entrar… Tem até uma colega minha que fala do quanto isso, questão racial, questão de um monte de minorias, começa a ser hoje em dia discutida porque eu segrego ainda mais eles. Então, a internet ela, de um lado, traz conhecimento, mas se você não tem controle, você tira o conhecimento, você segrega ainda mais.

Você já não criou outro perfil para poder analisar outras coisas? Eu sigo pessoas diferentes, totalmente diferentes. Nessa em específico, interessante eh chama eh… [ __ ], não vou falar o nome porque senão a galera vai começar a seguir, mas tem um perfil que eu tenho que ele é fechado e eu só sigo páginas de esquerda e de pessoas de esquerda. E aí, cara, eu tenho um feed completamente diferente sobre os mesmos assuntos.

Que eu vou roubar a ideia de vocês. Achei animal.

E, cara, e melhora muito minhas opiniões através desse feed, porque eu vejo os mesmos assuntos…

Interessante, perfeito.

…sendo tratados por outros vieses.

É, caraca. É, eu gosto, eu tenho uns quatro perfis.

É mesmo?

E aí para cada perfil, eu tenho uma análise diferente e tenho meu perfil oficial.

O, ele tá lançando agora o Zuckerberg, um, o lá do Instagram, que você consegue não só produzir conteúdo para públicos diferentes, quanto também eh pedir feeds diferentes.

É isso, eu vi, isso é muito legal, é animal, é animal.

Eu, eu dou aula em seis faculdades sobre esse tema, né? E uma delas é uma coisa bem prática de como você se, se atentar à privacidade no seu dia a dia. E assim, o próprio iPhone, né — não é nem propaganda, mas é o mundo que eu vivo, né? —, ele tem, hoje em dia, inúmeras eh habilidades e features ali que você vai tirando esse rastreamento do seu dado, você vai tendo a possibilidade… E a gente chama de autodeterminação informativa — mais uma difícil —, mas é você escolher propriamente o que você quer ser recebido de informação.

Caramba, que legal.

Isso é um princípio da Lei de Proteção de Dados. Então, basicamente, é, é e ali a gente começa a ver que o mundo começa a escolher. E agora a gente tá entrando numa fase que é mais legal ainda — que eu não vou falar aqui hoje —, que é a soberania dos dados. Que tá na nuvem, mas essa nuvem ela é chinesa, ela é americana, e aí o dado brasileiro tá na nuvem chinesa.

Caraca.

Então, assim, começa a entrar que a soberania antes ela era territorial, ou seja, tem divisa, agora não tem mais divisa. O mundo quase que é uma coisa só hoje. É por isso que… é por isso que nenhum aplicativo americano entra na, na China, e a Huawei não pode fornecer 5G nos Estados Unidos.

É porque a Meta não conseguiu comprar o mano TikTok lá, né? O mano… Não conseguiu, tentaram vedar, vedaram, conseguiram vedar, vedaram e estavam tentando vedar, mas de fato não bloquearam, não foi… De não… não foi.

Caraca, bicho.

Então essa mudança começa a trazer para mim essa vontade de não só trabalhar com isso, mas, cara, isso sim é diferente do Direito, na minha visão.

Legal, cara. Legal e moderno.

Filosófico, pô, super legal. Então eu falei: “Cara, isso é mais minha cara”. Então lá em 17, 16, 17, eu começo a transformar realmente a minha carreira para esse lado de dados e governança também de dados, que envolve soberania e por aí vai. Graças a Deus dei sortes, competências. A gente realmente, hoje em dia, eu treinei mais de 5.000 alunos, fiz assim cartório, muito cartório no Brasil, um monte de empresas, fiz federação para… de futebol que eu, que que eu adeqüei. Então os três dados lá do Pelé, aquelas coisas assim, legal da gente trazer: a carteirinha dele no Santos… Isso é um dado pela LGPD e tudo mais. Então eu tive oportunidades legais de trabalhar, empresas públicas, Eletrobras, coisas bacanas, e meus clientes de hoje em dia, que estão ali no meu dia a dia do escritório. Só que num belo momento — e aí contando da empresa, né? Obrigado —, eh poxa, Bruno, imagina eu chegar numa reunião numa empresa assim que nem a de vocês, chega

[roncando]

…um dono de uma empresa e fala assim para mim: “Lucas, te contratei, fiz a adequação de LGPD, tô resolvido, né, Lucas? Assim, não vou ter dor de cabeça com essa agência aí, não vou ter multa, não vou ter nada porque você me fez a adequação”. E eu tinha que falar pro cara, olhando no olho dele e falando: “Não”. O cara: “pô, mas eu te paguei, eu fiz tudo isso. Por que que… por que não?”. Porque o princípio da lei é que isso é obrigatório, só que se o dado vazar, se alguém tiver acesso a um dado que não deveria, você continua sendo responsável. Então, a adequação não é um… um tirador, com milhões de aspas, de responsabilidade, ele é o plano zero, ele é um preventivo trabalhista, não quer dizer que você não vai ter processo.

Exato, perfeito, cara, perfeito.

E aí que cria a minha ideia de ter essa empresa chamada Priva Info.

[roncando]

Eu tinha uma ideia porque o dado, ele tem uma característica. Para ser um dado da LGPD… se eu falar “a fórmula mágica da Coca-Cola”, todo mundo vai querer saber, eu queria também.

Uhum.

Só que a lei não pega isso. A lei pega o dado do Bruno, o dado do Felipe, ou seja, o seu CPF, o seu hábito de consumo na rede.

[roncando]

A sua TV te escuta e sabe se você tá acompanhado ou não. A sua TV sabe se você tá triste ou não, porque você liga às 3 horas da manhã num filme triste.

Isso é um hábito, totalmente. Eu te dou vários exemplos.

Netflix. Netflix, ele te monitora o tempo inteiro. Esse exemplo… Para cada um é um vídeo, cada… mudando o caminho das pessoas se tem criança no carro para passar no McDonald’s. Eu te garanto, isso é o mesmo caminho para a sua casa, só que

[roncando]

…ele escuta porque você autorizou o microfone e ele tá chegando em casa. Teu objetivo é chegar em casa. Então, se você tem criança, perto da hora do almoço, ele vai desviar. Por isso que, se eu colocar os três o endereço aqui, cada um vai ter um caminho. Então isso é interessante.

[ __ ]!

Esse é o dado que a Priva Info defende, ou seja, o dado que identifica alguém. E por isso que a área médica dos meus pais entra nesse ecossistema, porque é a área mais sensível da lei.

Porque, mas pode falar também: eu fui, fiquei 16 anos na área médica também, e

[limpando a garganta]

…a gente criou uma aceleradora comercial de startups, então a gente avaliava startups para poder… O mais difícil é trazer inovação para a saúde, porque eu não consigo inovar porque eu tenho dados muito sensíveis e eu não consigo inovar com isso. Dois falaram assim: “Ah, vamos fazer aquele… gravar a minha… a

[limpando a garganta]

…a minha consulta para que o prontuário seja…”. Exatamente, o prontuário automaticamente seja eh preenchido. É, mas o nível de LGPD, a complexidade… O cara tem que saber que você tá gravando, que isso daqui que vai pôr essas informações, o restante vai ser colocado fora, vai ser não sei o quê. Então, pro cara desenvolver qualquer… vaza, pro cara que desenvolver qualquer coisa, fica complexo, vai. Tá vendo aí, ó? Mas é isso, para desenvolver qualquer coisa e inovar na área de de saúde é muito complexo.

Mas eu vou te dizer uma coisa: eu sei, eu sei que é chato, mas eu vou te dar um motivo do por que é chato. Claro que é bem claro para as… para as pessoas que, poxa, tem um dado ali de sensibilidade alta, mas eu vou te dizer o pior. Vou te contar dois exemplos que eu já vi e eu, como DPO de algumas empresas, tive que barrar. Pandemia: eu já era DPO de uma empresa muito grande no Brasil, o RH me liga e fala o seguinte: “Lucas, tivemos uma excelente ideia”. Nada contra o RH, mas geralmente o RH tem ideias que não são de privacidade, né? Tão boas para algum lado, mas privacidade não. E aí ele falou o seguinte: “Cara, a gente tá vendo aqui um recorte que morre mais homem e morre mais de tal idade com tal comorbidade. Então o seguinte: mulher até 30 anos e tal comorbidade, todo mundo de volta para a empresa, porque a gente analisou os dados e eu vou expor as pessoas”. Eu já tive caso onde a mulher comprou um teste de gravidez na farmácia, a famosa farmácia que você dá o seu CPF, e foi mandada embora porque ela estava tentando engravidar. E a lei trabalhista não só diz que quando está grávida… tentando engravidar, qual que é a defesa de uma mulher que tá tentando engravidar se ela tem os dados dela expostos dessa forma, cara? Por isso que tem esse controle.

[roncando]

É, é. Então é muito grave, é muito, é muito… É difícil de explicar para alguém no dia a dia isso, mas, e por mais que pareça uma teoria da conspiração, é Black Mirror, porque é realmente possível de acontecer, só depende do tamanho e do poder de quem compra essa informação. Eu vou falar agora uma coisa que é ainda pior. E antes de tocar na Priva Info, a gente tá entrando numa nova era dos dados, que são os neurodados, com os chips do Elon Musk, etc. A gente já tá falando de neurodireitos. Já estão escrevendo livros de neurodireitos, que é a nova categoria de dados sensíveis do mundo. Porque eu já começo a prever… aí começa a do reportagem que a gente tá discutindo, na… é exatamente a reportagem de que o crime, antes de ele acontecer, tá começando a ficar na realidade isso.

[ __ ], mano! Então a intenção.

Exato. E aí você tá barrando o pensamento do cara. Então, de novo, cadê a privacidade? “Ah, mas é um bem maior de segurança”. Eu, liberdade de expressão, começa a entrar em várias coisas, em várias discussões, Felipe. Liberdade de pensamento.

E aí tem gente até sendo presa por pensar.

[risadas]

E vai continuar, pelo jeito, entendeu? Mas na Priva Info, o que que a gente pensou? Eu tive uma ideia de falar: cara, eu preciso acabar com isso, eu preciso que o dado continue sendo usado. O dado não é inimigo, só que do jeito certo, da maneira correta, na transparência correta. Aí sim o dado se torna um ativo, cara, e não um passivo. Então a Priva Info nasce dessa minha ideia e concretizada por um sócio meu de TI ali, um cara brilhante que fez mestrado na Rússia e fala russo. E ele queria essa ideia de criptografia e esteganografia — que eu já vou explicar o que que é a esteganografia —, mas a Priva Info, Felipe, Bruno, ela tarja os dados que precisam ser tarjados. Então ela lê automaticamente todo o seu servidor, identifica sozinho o que que é dado, CPF, RG, nome, dado médico, seleciona eles e tarja.

Quando você me contou disso, a primeira coisa que eu pensei foi: implementação complexa.

Nada, porque…

Eu falei: “Nossa, legal se vai uma tecnologia…”.

[risadas]

…mas para eu implementar isso é um B.O.”. Vocês mataram já essa objeção.

Pelo servidor automatizado. Você seleciona se vai ser por uma senha, você seleciona se vai ser por grau de sigilo da pessoa que tem acesso. Então, o diretor vê tudo, o gerente vê metade, o analista vê só uma parte do…

[ __ ]!

E, além disso, a gente estava fazendo isso num Tribunal de Justiça do Brasil, que é um dos maiores, maiores players com quem a gente tem trabalhado, que o seu dado fica exposto num processo 20 anos. Você já pagou a dívida, você já pagou a bola, só tá tá lá dizendo que você era culpado em alguma coisa. Então tem um limite também nisso, né? E aí a gente tá fazendo no tribunal, o cara fala assim: “Gostei de você”, faz uns três anos isso, “gostei de você, mas você me expõe mais do que deveria porque você é uma ferramenta”. Nós resolvemos hoje em dia, ela roda, inclusive, offline, ela nem é online, ela é um ponto ex. Então ela automaticamente vai identificar onde tem dado pessoal, dado pessoal sensível, tarja, criptografa, e aí que entra a esteganografia. Por quê? O que que é? Só para finalizar, desculpa, eh se você faz um tarjamento até no Adobe, aquele dado ainda fica selecionado se ele não tá sendo em PDF. O que a gente faz é destruir o dado anterior. E a esteganografia é uma… é uma cultura da Grécia Antiga. Como é que eu passava uma mensagem sigilosa na Grécia Antiga? Já pararam para pensar nisso? O cara de um vilarejo pro outro, raspa o cabelo do soldado, escreve no cucuruto, espera o cabelo crescer e manda o soldado a pé. Isso é criptografia, só que chama esteganografia: é mascarar a mensagem dentro da mensagem. Então o nosso processo ele mascara o dado e depois ele mascara com a tarja, que aí é a criptografia. Então é como se faz. E aí o meu, meu sócio de TI, que fala muito disso: se a gente pegasse, imprimisse a folha, colocasse uma tarja eh física e fizesse uma cópia, porque aí você… a cópia nasce tarjada, não tem como selecionar o dado. E isso de forma automatizada, contínua e selecionada. Ou seja, se o Bruno ele tem tal crachá de acesso, ele vai ver tais acessos; se o Felipe tem um crachá maior, ele vai ter tais acessos; se o Lucas tem um crachá menor, tais acessos, ou uma senha de acesso. Com isso, o dado não vaza.

Então, o operador, o analista e o diretor estão abrindo o mesmo PDF.

Mesmo PDF.

Só que o analista que tá abrindo aquele PDF, aparece o quê? Nas informações sensíveis… por exemplo, vamos dizer que é um receituário, uma receita médica. Ele não precisa saber o nome do cara, nem o CID, mas ele tem que dizer o seguinte: se tá afastado do trabalho, por exemplo, não precisa saber nem o motivo do que… Aparece para ele, visualmente aparece a foto normal, só que tarjado.

Ah, aparece uma tarja.

É uma tarja preta, entendeu? Só que o diretor quer saber: “será que esse cara tá mentindo para mim?”, porque o diretor talvez tenha, naquela empresa, a prerrogativa para ver aquele dado completo.

E tudo via essa análise de via… E ela nasceu IA e agora ela se tornou uma máquina que se desenvolveu mais do que uma IA, porque ela não é conectada na internet. Mas em banco de dados, quando é cloud, normal, é um ponto ex, a gente consegue fazer via servidor do cara, do cloud normal, entendeu? Você coloca no servidor, e a gente tá instalando nas máquinas porque eu tenho o pré e o pós, sim. Ou seja, eu anonimizo o passado e o tempo real: cada novo documento que vem chegando, passa pela nossa leitura e já tá anonimizado.

E isso é um trabalho… Esse, esse, esse produto que você tá criando, que você criou, é um produto mais focado nas pessoas físicas ou nas empresas? Por exemplo, eu, pessoa física, consigo entrar lá nos planos da tua empresa, contratar um silver e…

[risadas]

…organizar o meu, sabe?

…ideia, e nem, e nem tocamos no lado dele do rosto, das coisas. Já tô querendo me proteger, viu, Felipe? A gente pensou nisso e não é uma coisa fora da realidade, mas eu acho que ainda nós não… nós, Priva Info, não; nós, sociedade, não estamos prontos para defender isso ainda, o meu dado. Nós ainda não entendemos que o dado é seu e meu, a gente ainda faz meio, ah, é o que eu… é o que você fez. É exatamente o que você fez. Quando a gente começar a entender que aquele dado é seu… Então, por exemplo, a gente estava brincando do, do empréstimo. Cara, tem um amigo meu que a vida dele se destruiu por conta de um uso de dados irregular: roubaram o CPF, aí roubam a tua identidade, que a gente chama, abriram conta no banco, não pagaram, de umas três, quatro. Hoje em dia o cara nem passaporte consegue tirar porque ele se diz todo impossibilitado de dinheiro, de questão criminal, porque tá no CPF dele. Você tem só um CPF, então a tese contrária no Brasil nunca é tão fácil provar, atestar isso, né? Mas a realidade é essa, então acaba a tua vida com uma identidade roubada. Já teve problema de chapa de carro roubada e clonada, cara, a tua vida fica difícil, e ali é um dado pessoal que a LGPD protege.

Já caiu a minha placa da moto e aí usaram, três multas.

Então, então você… o que que tá acontecendo? Tão se passando por você, só que a gente vê isso quando é alguma coisa mais física. E aí, como o dado tá tão abstrato, que você acaba perdendo esse controle. A lei quer trazer de volta, não é o não uso do dado, esquece, isso já não volta mais. O dado agora tem que ser o quê: ele tem que voltar a ser seu e você que tem que voltar a autorizar ele, entendeu? E aí, da brincadeira da catraca, pô, você vai a uma coisa no seu prédio, você entra todo dia e sai todo dia. Eu não tô discutindo que é uma tecnologia bacana, mas por que que quando eu vou ao dentista — às vezes é uma consulta que eu nem vou voltar, que eu não gostei do dentista, não gostei do, do procedimento, do preço que ele me colocou ali —, hoje, pelo menos aqui em São Paulo, tá tudo assim, logo… Só que ninguém te explica absolutamente nada, Felipe. Só tira uma foto e já era. E a tecnologia tá, a tecnologia tá tão boa que não precisa nem de um scanner, só uma fotinha vagabunda na webcam já é o suficiente para te liberar. Não estou dizendo que aquela foto de identificação que não é do… da do reconhecimento facial, aquela não, aquela pode, porque ele tem que saber quem é você. Agora, passar uma máquina que é uma… às vezes é uma nuvem da Rússia, é uma nuvem chinesa.

Ah, mas aí vocês resolvem. Da Rússia você resolve.

Então, então…

[risadas]

…você sabe, é um risco tão grande que, em termos de inteligência artificial hoje, deep fake, de que a gente fala de rostos,

Sim, sim, hoje tá muito fácil, cara.

…hoje em dia, de coração, é muito fácil pegar um rosto seu e fazer uma inteligência artificial.

Mas você pega, você pega na própria internet, você pega no próprio Instagram ali e já…

…marketing fez e não me, e não me pediram nada, só pegaram e mandaram um vídeo. Eu falei: “Como?”. “Ah, peguei alguns vídeos seus da internet, subi lá, os caras já… e, mano, tá muito bom”.

Então isso é uma coisa que assim, eu, hoje em dia, a minha esposa nem vai comigo nesses lugares mais porque eu armo barraco, chamo polícia, é confusão, coloco o rum… De jeito nenhum, cara, de jeito nenhum. Já não entrei em consulta, já entrei pela porta… eu fui no hospital ver um amigo meu, tinha, tinha nascido o filho dele com a esposa dele, e me fizeram entrar pela área dos funcionários porque lá não tinha reconhecimento facial, cara. Então assim, tem tudo isso que tá acontecendo hoje no mundo, só que o meu ponto é: Lucas, você é contra usar? Não. Cadê a transparência? Cadê me explicar o que tá acontecendo? Cadê dizer assim para mim: “Todo dia eu deleto o mundo”? Não tem problema, então se ele deletar no final do dia, é um controle interessante porque ele não usa Priva Info. A gente já tem na Priva Info uma inteligência de olho que não identifica mais. Caramba, só tá o olho, já, já não identifica mais. Então a gente tem criado, existem ferramentas para isso e ninguém vai me provar o contrário, porque o pretexto é trazer mais segurança. Não caio nessa, porque as fraudes… as fraudes aumentaram. As maiores fraudes são de bancos digitais que fazem reconhecimento facial.

Caraca! Caraca, velho!

Então, ninguém me… ninguém me convence que foi porque isso melhorou para mim. É isso, é fato, isso melhorou para a empresa. Antigamente você precisava arrancar a íris, né? Você pega aqueles filmes,

[risadas]

…você arrancava a íris, não sei o quê. Hoje, hoje você tira uma foto do cara, você já bate em qualquer lugar em que você entra, velho. Então, se me provarem que isso diminuiu a fraude… Não, não diminuiu, te garanto que não. Então assim, qual que é a lógica do famoso e velho crachá? Porque é custo e a gente é a vítima, é isso. Então, na realidade, às vezes essas portarias de fato, vou ser… doideira bem simples

[risadas]

…aqui, mas de fato essas portarias não têm nenhuma intenção por trás, os caras não sabem nem como funciona, só que eles não sabem o poder do que eles têm em mãos. E um vazamento desse acaba com tudo, acabou. Hoje, hoje a nossa agência lá, a polícia de proteção de dados — que é como se fosse uma Agência Nacional de Saúde, uma ANS, uma Anvisa —, chama ANPD: Agência Nacional de… Proteção de Dados, cada vez crescendo mais, começou um processo para multar a Claro — é público, eu posso falar isso —, porque ela tá compartilhando os seus dados, os meus dados pro Serasa e fazendo cobranças indevidas, meu, direto, aquela porcaria. LGPD de que acabou todo mundo com o contato… eu acabei de criar um celular, um telefone, todo mundo tem o contato. Aí começa a me ligar a Vivo, começa a me ligar, começa a me ligar o banco X que você tem conta aberta. “Mas não tenho conta”. Aí se qu… aí você começa, o golpe agora é a ligação que você não sabe quando ninguém te fala nada, o golpe agora é porque estão clonando a tua voz. Isso é comum já. Nossa, cara, bem comum. Então assim, a gente tá chegando num ponto onde se você não tiver controle dos seus dados ou mecanismos como a Priva Info — que a gente brinca —, para pelo menos tirar essa identificação de alguns momentos, cara, a gente passa a não ter mais controle de absolutamente nada. Então a LGPD não vem para dizer assim: “cara, vai acabar o uso de dados”, não, isso é, isso é irreversível, mas tem que ter um controle, tem que ter um pouco mais de transparência. Então, e aí volta naquela, naquele ciclo da governança de novo, de que essa governança faz parte de ter uma governança que a empresa compartilha com você e você para com… para consigo, né? Para se olhar para dentro e falar: “Eu tô analisando meus dados corretamente? Será que meu filho tá entrando na escola e estão tirando foto?”. Começa a ter uma discussão grandiosa nesse tópico, né? E é gigante a discussão. É, então, e é uma discussão que nunca vai acabar, porque o próprio avanço da tecnologia vai fazer… a gente não vai conseguir acompanhar. Então, pelo menos dentro da nossa capacidade, a gente tem que discutir isso porque senão… e correr atrás, né? Correndo atrás. Mas, mas para mim é muito louco, porque imagina que você hoje você já disponibilizou os dados, como que você volta esses dados para eu ter o, o poder e depois eu disponibilizo para você de novo?

Pô, eu tenho uma tese que quase me mataram uma vez. [ __ ] essa daí eu vou falar, mas assim, eu não tô defendendo ela, tá, pessoal? É que é uma tese que faz a gente refletir: dados de saúde, já que você falou de saúde.

Aham.

Eu sou da tese de que — olha que curioso —, vamos dizer que você fez um exame de sangue lá no Sírio, você perde a senha, cara, você pede pro hospital para ele te liberar os seus dados. Olha que loucura que é isso: você é que deveria liberar pro médico a senha para ele acessar os seus dados. Você já pegou o case da Estônia? Você entendeu?

[roncando]

Estônia. A Estônia é o país… Ah, sim, eu conheci a Estônia.

É, então, quase… o Skype era de lá, né? O Skype era de lá. Mas cara, cara, eles estão a 98% da saúde — é claro que é um país pequeno, é menos, melhor que São Paulo, tal —, mas 98% dos dados da saúde já estavam, já estavam digitalizados. E aí você pode ir a qualquer, qualquer eh UPA, vamos assim, né, que aí eles sabiam teoricamente… Você libera os dados e aí eles sabem todo o histórico. Então, tipo assim, quando você falou o usuário liberar os dados, é: “os dados são meus, eu é que tenho que liberar para você acessar”. Então, assim, o médico por três dias vai ver meus exames, é isso. Mas são meus. Então você imagina: eu estou aqui com vocês, amanhã viro presidente da República…

Cara de blockchain, assim, você faz cara de blockchain.

Exatamente, vinculado ao seu CPF, pô, totalmente. Entendeu? Então, quando eu falei isso e eu trabalho para operadoras de saúde, não é, não é muito bem aceito, óbvio, né? Mas, cara, pensa que esse é o formato real e verdadeiro do seu dado de saúde. É você liberar, não o contrário. Mas é louco porque, por outro lado também, quando a gente entra nessas, nessas discussões, a gente entra numa questão inclusive política, porque você pega a nível, a nível de país, né, eh você não tem privacidade nenhuma, ainda mais agora que o seu gov.br é usado para check-in em hotéis. Então, cara, quando você começa a analisar, cara, e até onde é o interesse do Estado avançar com esses temas de fato? É porque, no final das contas, eles querem, sim, saber onde você vai, o que que você faz, ele quer acabar com a sua, com a sua, com a sua liberdade. Hoje é uma governança que vai do indicador. Com isso ele consegue saber se o cara viajou, não viajou.

Exato.

Mas hoje, hoje se a gente pegar, tem uma empresa gigante hoje — eu não vou nem falar mais o nome —, mas tem uma empresa gigante que te manda um monte de ofertas: você entra na porta do shopping, você recebe um monte de ofertas, tá integrado agora com o iFood, então ele sabe qual o tipo de, eh onde você mora, onde você tem escritório, onde você pede comida, qual tipo de comida, como que você faz, se de final de semana você tem gente na sua casa ou não tem — porque você pede mais ou não —, tá integrado, tá integrado com o sistema de TV. Então essa empresa que é gigante, ela tá integrada hoje com todos os seus lugares. Então se você sai das catracas às vezes do seu prédio, tá entrando no shopping, ela tá sabendo que você entrou naquele shopping. Se você… quantas vezes você… que não é, talvez… é certeza, não é certeza? É certeza, tranquilo de afirmar. Então assim, você já sabe, ele já tem o controle de rastreabilidade de tudo onde você vai. É muito doido isso, cara, porque você sabe, dá para diminuir algumas pelo celular, que é isso que eu dou nessas aulas às vezes, entendeu? Você vai no… em privacidade e segurança do seu iPhone, e tem lá quantos aplicativos estão te rastreando, quantos estão usando seu microfone, quantos estão usando sua câmera, e você pode tudo gerenciar. Nos bastidores eu mostro para vocês, é muito legal, porque tem muitas… você fala assim: “Cara, mas tal pessoa tá vendo, tá?”. Você tá… se você autorizou, ele deveria usar o microfone. O iPhone ele mostra aquela, aquele, aquela bolinha laranja, mas existem possibilidades de ele tá me escutando, usando o meu microfone, sem a bolinha.

Já não abre essa porcaria.

Na hora que você vai, na hora que a gente tá falando de governança aqui, você vai ver, vai abrir, abre o Instagram aqui, você vai ver governança, não sei o que, vai aparecer a Rede de Governança Brasileira, sou presidente, por algum motivo. Loucura, é muito doido isso, cara. É loucura.

O ideal seria dar um jeito de conseguir realmente, porque assim, ó: eu quero mandar um áudio pro ChatGPT para um prompt por áudio, pô, eu preciso dar o [ __ ] do microfone, eu preciso autorizar, só que só ali, só enquanto eu aciono o botão, não no…

Mudanças estão acontecendo pra gente também não trazer só dor de cabeça, né? Além da Priva Info, a Priva Info tá aí, mas além disso, por exemplo, o Waze já tem uma mudança muito interessante: quando o Waze foi criado, só tinha dois botões de localização, ‘sim’ e ‘não’. Então, às vezes, acabava até casamento. Essa história é verídica, porque ele seguia você o tempo inteiro, né? Agora tem um botão ‘sim’, ‘não’ e ‘só em uso’. Esse ‘só em uso’ é LGPD, já entendi, porque ele vai cumprir o princípio da finalidade, ou seja, tem que ter uma finalidade para usar o teu dado, exato. Então, já tem o uso, você precisa se movimentar, você precisa ir pro lugar, e vai usar do lugar A para o B, o A é você, né? Então você tem que chegar lá, então tem se transformado, mas ainda lento, ainda devagar. Acho que a população já se interessa pouco, e aí tem a grande discussão que às vezes eu tomo umas, umas, umas borboletas: “o cara não tem comida na mesa, vai falar de proteção de dados?”. Óbvio, claro, claro. Mas o último dado aqui pra gente entender: eu trabalhei com um grande atacado, né, do Brasil, chamava… o Assaí, pode falar. E a gente tem dois sites no Assaí: assai.com.br e assai.com.br/relacionamentocominvestidores, o RI. Uhum. No normal, 90% aceita os cookies; no RI, os cookies… porque a informação de privacidade já é segregadora da sociedade. Ou seja, quem tem mais grana se preocupa mais com a sua privacidade, quem tem mais acesso à informação se preocupa mais com a sua, com a sua privacidade. Então, no fim do dia, a gente tá ainda mais segregando porque as pessoas não conhecem aquilo. Então, a preocupação de alguns grandes doutrinadores — que não é o meu caso, eu sou muito mais executor e esse lado de empreendedorismo para tentar diminuir —, mas é isso, a gente tá afastando cada vez mais a sociedade de nível de classe, de grana, e vai de cor, vai um monte de coisa, entendeu?

Mas acho que até de conteúdo, né? Porque você pega, a maioria das empresas são criadas para grandes, médios e grandes empresários, empreendedores. Vai pegar ali, o cara tá vendendo um high ticket e o negócio, então ele tá vendendo um conteúdo que todo mundo deveria ter acesso para uma pessoa que… só quem tem 100 paus, 150 paus pode pagar.

É isso aí, e aí você vê 1 milhão de gentes nesse, nesse negócio, e você vê dois, três ali embaixo tentando ensinar o micro, o pequeno a poder sobreviver. É. E aí o cara… o micro e pequeno não sabe sobreviver porque ele não sabe escrever às vezes o que ele… o que ele precisa, ele precisa. Não sabe fazer conta, não sabe conta de percentual.

É isso, Lucão, baita podcast, hein, meu caro? Que bom, fico feliz. Ainda viu? Bom, eu vou pedir licença rapidinho porque eu vou agradecer os patrocinadores e, no final, tenho uma pergunta para te fazer, beleza?

Galera, olha esse audiovisual de qualidade, olha esse conteúdo aqui de forma gratuita para a internet. Tudo isso são graças aos patrocinadores que acreditam no nosso projeto, investem para a gente trazer tudo isso aqui de forma gratuita aí para vocês. Então quero começar agradecendo o nosso patrocinador master, que oferece esse episódio para a internet, a SMB Store, que desde 2018 tem ajudado micro e pequenos empreendedores a controlarem seu estoque, vendas e financeiro, tudo isso com um sistema acessível e fácil de usar. Quero agradecer também à RZ3, transformando conhecimento em impacto real, porque negócios fortes movem o futuro. Eles são uma consultoria integrada que une estratégia, finanças, tributos e tecnologia para transformar complexidade em crescimento. Todo negócio precisa ou vai precisar ainda da RZ3, porque a complexidade não espera você estar pronto para lidar com ela. Agência Rplan, porque o mundo digital não para e o seu negócio não pode ficar para trás. Eles são uma agência de inovação digital que acompanha tudo o que tá mudando no mundo, desde TikTok Shopping até agentes de inteligência artificial, e traduz essas tendências em resultados práticos pro seu negócio.

[roncando]

Polux, sabia que existe… sabia que a maioria das empresas paga mais impostos do que deveria? A Polux é uma consultoria especializada em gestão tributária que encontra, de forma legal, onde o seu negócio tá deixando dinheiro na mesa com impostos. Semic Displays, quem vende forte no varejo já sabe que o ponto de venda decide a compra. Se sua marca ainda não aparece do jeito certo no PDV, a Semic Displays resolve isso. Eles são líderes do Brasil em soluções criativas para PDVs, desde balcões, bandejas, displays e muito mais, líderes inclusive no Mercado Livre. Tá precisando vender mais? Conte com a Semic. Cross Host, quer dar voz ao seu negócio e alcançar mais pessoas? A Cross Host é especialista e referência em produção audiovisual para podcasts e eventos, com estúdios em São Paulo e estrutura completa para quem quer construir autoridade de verdade. E Max Service, eles são uma contabilidade consultiva que fica do lado da gestão, não só do balanço e da burocracia. Enquanto a maioria dos contadores aparece na empresa uma vez por ano, eles estão na mesa de decisão junto com o empresário mês a mês, especialmente para quem opera no Lucro Real, que é onde o jogo fica muito mais complexo e mais caro quando mal gerido. E você que é empreendedor,

[roncando]

…possivelmente você tá com algumas dores hoje, isso faz parte da nossa vida empreendedora, sempre trazendo eh novidades pro mercado e a gente sempre precisando se reinventar. Eh algumas dessas dores com certeza são resolvidas por essas empresas e empreendedores que estão à frente delas. São empresas em que a gente confia, curadas pela gente, então pode ir de olho fechado, depois você volta aqui para me agradecer. Beleza, tamo junto.

Bora, ué, tô com medo da pergunta já.

Pergunta final, meu caro. Cara, você é um pensador, você é um cara que vai tirar de letra, vamos ver. Seguinte: imagina… você tá com quantos anos agora?

35, ó, no alto dos seus 35 anos, um monte de coisa acontecendo, agora começando essa empresa aí, 18 CNPJs…

18 CNPJs na bagagem.

…né? Tanta coisa acontecendo com tantos planos, e às vezes a gente esquece que a nossa vida é finita, né? Por mais que a gente seja jovem, a gente normalmente vive como se o fim estivesse muito longe para acontecer. Mas a gente não sabe os planos de Deus. Eh imagina que você tá, tá saindo desse podcast, indo para a tua casa e acontece um incidente, e ao fechar, ao piscar de olhos, você aparece na frente de Deus: “Já? Como assim? Espera aí, a empresa estava dando certo agora, tal”. Ele fala: “agora que ia explodir, cadê a governança?”. Da governança…

[risadas]

…é isso, eu não tinha esse controle de nada, não. E Ele traz uma tranquilidade para você falar: “Filho, missão cumprida, sabe? Você não deixou nada para trás, tá tudo bem”. Eh mas é isso, nunca ninguém morreu, nunca nenhum acidente aconteceu. São quase 200 episódios aí, nada, nada de imprevisto, blindado. Mas

[risadas]

…só para trazer peso para a pergunta, né, pro contexto do que eu gostaria de de tirar aqui, é se esses fossem os planos de Deus com 35 anos, o que que seria o conselho que condensaria a sua vida e que você gostaria de deixar aí para a internet?

Caramba, o conselho…

[roncando]

…olha, Felipe e Bruno, cara, eu, eu, eu vivi bastante assim, não quero ir embora, tá? Não tô, não tô fazendo contagem regressiva, não, não, não. Assim, eu, eu sou muito feliz, eu sou um cara de, de viver os momentos. Na verdade, assim, eu acho que a ansiedade desse mundo faz a gente não estar aqui.

Uhum.

Né? Eu acho que a gente sempre tá eh chateado com o passado, que a gente queria mudar alguma coisa, e ansioso por um futuro que a gente não sabe o que tá acontecendo, é isso. Eu vi recentemente, até por não ter pensado nessa pergunta, teve aquele ator de que eu agora esqueci, um cara que tinha ELA, todo bonitão, que faleceu novo. Eu esqueci o nome do cara agora… enfim, Dan, Dan, Dan alguma coisa assim, Dan Stak… Não, não, não, Dan Stak não morreu. Sei, eu tô, eu tô chutando. Gringo? É gringo, é gringo. E ele tinha aquela ELA, aquela esclerose múltipla, e ele faz um vídeo para as filhas. E é um vídeo emocionante, eu sou um baita de um chorão, cara, eu sou terrível nisso. Italiano, então para mim é terrível isso. Quando fala de família ainda mais, cara, me, me, me machuca muito.

Machuca.

Me pega muito, né? Então eu acho que o grande ponto, Felipe e Bruno, assim para mim, até eu falando para mim também e para todo mundo, eu acho que a gente tem que evitar — porque dizer que vai conseguir eu acho que é difícil —, mas eu acho que a gente tá perdendo esse momento presente. Eu acho que, sabe, eu tô saindo daqui agora já pensando num próximo compromisso e se essa vai ter uma repercussão, e pensando: “pô, devia ter falado mais de tal produto”, tô sabe assim, chateado com o passado e pensando no futuro. Mas foi um puta de um bate-papo legal para caramba, conheci gente nova, me apresentei para um monte de gente. Então por que não falar: “hoje foi um baita dia”, é isso. Então, eu acho que a gente… se eu pudesse dizer… ele fala isso, né, e me marcou muito isso: viva no presente, né? É claro que a gente tem que corrigir erros do passado, claro que a gente tem que pensar em governança — não estou dando um tiro no próprio pé —, mas eu acho que a gente tem que viver um pouco mais no presente. Eu estava esses dias fazendo uma reflexão, dizendo por que a ansiedade existe hoje? Eu acho que é uma, uma dificuldade comum a todos, um com mais, outros com menos, porque tudo virou a longo prazo e a gente esquece do dia de hoje. Então o CDB é 30 anos, o dólar é na próxima eleição… E o de hoje, sabe? E o de hoje. Então eu acho que, claro, eu posso falar isso pelas minhas condições, então, de novo, sem demagogias ao extremo. Mas eu acho que tentar nesse ponto… e aí que eu acho que a demagogia morre, porque talvez pessoas com menos eh favorecimentos que eu, talvez vivam mais o presente do que eu, porque elas acabam tendo muito, muito mais a visão do presente do que a gente. A gente sempre tá pensando no dia seguinte, no próximo compromisso, porque a gente tá em São Paulo e parece que é um erro, é um crime não estar pensando no futuro.

Total.

Então eu acho que tem que existir um pouco mais desse equilíbrio. De certa forma, eu tento fazer isso, às vezes eu consigo, às vezes eu não consigo, às vezes bate o dia difícil, às vezes bate a semana complicada, mas é uma coisa que eu tento passar para mim, para minha esposa, de que a gente tem que talvez ser um… e a palavra é meio grata, mas o “grato” se perdeu, talvez. Eu acho que é um pouco mais: “pô, é o que tem hoje, sabe?”, e fazer da macarronada com o que tem ali na mesa, entendeu? E aproveitar. Eu acho que a gente deixou de lado isso.

Baita reflexão. E essa, e essa que você trouxe sobre eh que pessoas talvez com menos instrução eh vivam mais presentes… Já cheguei numa conclusão dessas de que eh conforme você vai se ampliando em termos de horizontes de conhecimento, mais vai ficando dura a nossa, a nossa avaliação sobre a vida, porque você começa a entender que não existem soluções simples eh nenhuma, nenhum problema complexo se resolve com coisas simples e, e que tudo é muito complexo. O mundo é muito complexo, né? A entropia do próprio universo eh faz isso acontecer. Então, eh se você pega uma pessoa com baixa escolaridade, com baixa condição social e tudo mais, o cara é quase que obrigado a viver no presente.

Boa.

Por uma necessidade de fisiológica base de, de pirâmide de Maslow. Mas, além de tudo, falta de conhecimento para enxergar além. E, e se você pegar as pessoas que cada vez mais adoecem por ansiedade, são pessoas que estão com um, um baita recheio psicológico, intelectual, que faz com que a pessoa padece, às vezes. É louco isso.

É verdade.

É, é bem doido isso aí, porque aí imagina que o cara não tem perspectiva, o cara vive hoje falando: “Graças a Deus que eu sobrevivi de ontem para hoje”.

Agradece o alimento.

É isso. Mas é o que traz naqueles momentos que a gente se emociona — eu já falei que sou chorão —, naqueles vídeos bonitos de Instagram quando a gente vê que a pessoa tá vivendo aquele dia porque ela não sabe realmente se ela não vai estar lá, quando tem uma doença ou quando tem alguma coisa assim, e a gente acha aquilo lindo, só que a gente desliga e fica de novo, entendeu? Claro, não estou dizendo que é fácil, mas eu acho que isso é o que está faltando. A gente tem esposa… minha esposa, que às vezes eu queria só sentar numa barraquinha e ficar olhando pro mar ou pro mato, sei lá, ficar fazendo nada, que tipo você, quando você desce, senta assim e fala: “Cara, não quero mais nada me ouvindo, não quero mais nada, só queria olhar que fica”, porque a gente não se sente, né? Não, cara. Você se sente no presente? Não, de nunca. Praticamente você aqui tá falando, mas você tá planejando o próximo, planejando a próxima ideia. Uma coisa de que me lembro muito eh um tempo atrás que eu resolvi fazer umas aulas de surf, e aí eu ia lá pra Praia da Baleia para fazer aula com um cara lá de quem eu gostei, o professor, e a mente empreendedora é foda, né? Porque eu chegava lá, às vezes ele estava sentado olhando pro mar, eu falei: “Porra nenhuma! Enquanto isso, faz isso”. Aí eu falava assim, aí eu falava assim: “Cara, por que que você não coloca uma barraquinha maior aqui e tal?”. Ele: “Cara, mas tô bem, por que, né?”. E eu falava: “mas, cara, a placa aqui não tá com o número do seu celular”. “Ah, mas…”. E aí, de repente, cara, ele falou: “quando… e quando não tem aluno, fico aqui, [ __ ] fico pensando na vida, várias coisas”. Aí, aí uma hora eu olhei e falei assim… Muito doido isso, que inveja. É, é verdade. Porque ele tem a oportunidade de sair toda manhã, sentar numa prancha no meio do mar e ficar só esperando a melhor onda, cara. É, e não é a onda que ele planejou, é uma onda a que ele vai ter que se adaptar, vai se adaptar ao que entregou para ele, o que o mundo… A paciência é uma virtude que tá acabando, cara. Tá acabando, né? E a gente vê desde relacionamento, né? Pô, relacionamento é difícil para caramba, eu sou casado, a gente, pô, amo minha esposa, mas é difícil, pô. É difícil para caramba, pô. Então, e por isso acaba, porque a paciência acabou. É isso, sabe? Então esse cara tem uma dádiva que é poder estar no presente e a gente, às vezes, não pode. Então se eu pudesse voltar para trás — e, de novo, indo não de encontro ao que eu falei, mas se eu pudesse daqui para a frente tentar em algum momento do meu dia… E aí talvez por isso que as pessoas, quando têm filho, elas dizem que mudou a vida delas, porque é o presente, o filho do dia seguinte já não tá igual. É isso. Então, eu não tive filho ainda, a gente tá nos planos, mas talvez eu acho que é isso. Mas a gente não para para refletir, a gente para no começo, depois… E depois a vida vira no automático. É interessante.

Hoje a minha filha tá com dois e três, e eu vivo muito presente com ela, cara, por causa que…

Mas não mudou, o presente passou. Mas sabe qual que é o problema: quanto você já deixou de, de viver com ela, e coisa de que você não precisava?

Sim, desnecessário.

A sensação que eu tenho, porque aí você fala assim: “Não, mas espera aí, eu vou planejar aqui porque depois eu vou dar um negócio melhor aqui, vou fazer aqui”. Mas vou acabar com o meu argumento: eu vivo o presente com ela por excesso de futuro, porque eu já sinto saudades antecipadas do tempo passar. Olha que… Olha que loucura, eu tenho saudade…

Não é leve, ele… Ele é culposo, né? Ele é culposo. Eu, eu tô vivendo com ela o melhor momento, vivendo o presente, eu desligo meu celular e eu vou lá brincar com ela de pintar.

Que legal, parabéns.

Mas justamente porque eu gostaria de congelar esse momento e sabendo que ele vai passar, excesso de futuro, é muito doido. Eu vivo o presente e minha esposa vira e fala assim: “Nossa, tá coçando o útero, né? Porque, pô, não vai voltar isso daqui”. É isso. É, cara, só volta se você tiver outro. Exato. Nossa, verdade, né? É, rapaz. Baita papo, hein? Valeu, Felipão, obrigado, hein? Parabéns demais.

E, pô, você que ficou até aqui, até o final, muito obrigado por acompanhar. Se você acha que esse, esse conteúdo, esse episódio, essas informações que saíram aqui fazem sentido para você, para um sócio, para um amigo, encaminha esse episódio para eles e vamos compartilhar o máximo possível. Aqui embaixo tem vários botões, clique em todos para engajar. Valeu, até a próxima, sucesso!

Valeu!

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