De R$ 0 a R$ 120 Milhões em 5 Anos no Modo Bootstrap: As Lições de Vendas B2B e Escala de Emerson Lima (Salter) | Além do CNPJ (EP #084)
O Fim da Ilusão do “Crescimento Organizado”
No ecossistema corporativo tradicional, ensina-se exaustivamente que uma empresa precisa nascer perfeitamente estruturada, com processos impecáveis, antes de buscar volume de vendas. Na prática do mercado real, no entanto, essa busca por perfeição teórica muitas vezes esconde o medo da rejeição comercial. Como resume o empresário Emerson Lima: “Cresce primeiro, organiza depois”. Estruturas robustas exigem caixa, e caixa só existe quando a empresa aprende a vender com intensidade.
No episódio do podcast Além do CNPJ, o host Felipe Cassola recebeu Emerson Lima — fundador e CEO da Salter, consultoria especializada em transformação digital, inteligência artificial, engenharia de dados e infraestrutura em nuvem para grandes corporações.
Com uma trajetória que se iniciou na periferia de Santana de Parnaíba (SP), montando computadores de graça na Santa Ifigênia para adquirir experiência, Emerson detalha como escalou a Salter de R$ 300 mil no primeiro ano para uma projeção de R$ 120 milhões no quinto ano de operação — sem captar investimentos de risco (venture capital) e sem contrair dívidas bancárias (bootstrap puro).
1. A Escala Acelerada no Modelo Bootstrap
Diferente de startups que queimam caixa de terceiros para buscar crescimento a qualquer custo, a Salter utilizou uma máquina de vendas agressiva de cold call ativo aliada à recorrência de receita (LTV alto) de contratos plurianuais de tecnologia:
[Ano 1: R$ 300 Mil] ➔ [Ano 2: R$ 10 Milhões] ➔ [Ano 3: R$ 30 Milhões] ➔ [Ano 4: R$ 64 Milhões] ➔ [Ano 5: R$ 120 Milhões]
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Vendas Ativas via SDR: Em vez de esperar que o mercado batesse à porta, Emerson montou um time de prospecção ativa (outbound) para agendar reuniões com diretores de TI de grandes empresas.
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Reuniões com Especialistas: O próprio fundador assumia a reunião na condição de engenheiro de pré-vendas, eliminando barreiras técnicas e fechando contratos de alto valor.
2. A Ilusão das Vendas vs. Estrutura de Gestão
Durante a expansão, um dos pontos de virada da Salter foi reconhecer que negócios de prestação de serviços dependem essencialmente de capital humano qualificado. Emerson tomou a decisão contracíclica de contratar uma liderança sênior de Recursos Humanos logo no início da empresa:
| Dimensão da Empresa | Abordagem Comum de PMEs | Abordagem Estratégica da Salter |
| Setor de RH / Pessoas | Visto como custo secundário; delegado ao financeiro/DP. | Maior salário da empresa no 2º ano: Contratação de diretora executiva sênior. |
| Aquisição de Clientes | Dependência passiva de indicações e redes sociais. | Prospecção Ativa (Cold Call B2B): Estrutura de SDRs e cadência telefônica. |
| Financiamento da Escala | Captação de rodadas de venture capital ou dívida. | Modo Bootstrap: Caixa gerado pelas próprias margens e antecipações operacionais. |
| Visão do Negócio | O fundador trata a empresa como uma extensão pessoal. | Entidade Autônoma: A empresa tem vontade e necessidades próprias de longo prazo. |
3. Oportunidades Reais em Inteligência Artificial para Negócios
Com a maturidade do setor de TI, Emerson pontua que a corrida pela Inteligência Artificial não deve ser encarada sob a ótica de “substituição de colaboradores”, mas sim como um vetor de eficiência operacional. Empresas que ganham eficiência com IA vendem mais e, consequentemente, contratam mais mão de obra para sustentar o crescimento:
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IA para Previsão e Tomada de Decisão: Modelos preditivos para estoques, logística pesada (warehousing) e dimensionamento automatizado de insumos em indústrias e construtoras.
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Agilidade no Setor Jurídico e Saúde: Automação de triagens contratuais em massa e diagnósticos precoces por análise de imagens médicas (como a detecção de câncer de mama).
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Soluções para PMEs via SaaS: O acesso à IA pelas pequenas empresas ocorrerá em massa por meio da incorporação dessas tecnologias nos ERPs e softwares de gestão já utilizados no dia a dia.
4. Quebrando Ciclos: Como Lidar com a Família na Ascensão
Vindo de uma família humilde, Emerson trouxe uma reflexão profunda sobre o peso que recai sobre o primeiro indivíduo da linhagem que atinge a independência financeira:
“Quem tá quebrando o ciclo familiar precisa primeiro vencer a arrebentação e construir uma base sólida. Você não é pai de todo mundo. Se você tentar salvar todos de forma desordenada no início da sua ascensão, você se torna o jogador de futebol que termina a carreira endividado. Ajude com responsabilidade, cuide da sua estrutura e faça a filantropia de forma profissional e perene.”
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Até recentemente a gente teve um papo com com o empreendedor. O cara tinha uma ideia maravilhosa, pô, ele desenvolveu um app, conseguiu funding, voltando no negócio do sonho assim… O cara não ia pra rua, cara! Vai pra rua com esse negócio, vai vender isso aí, cara! “Ah, mas não sei se tá pronto, mas aqui precisa de não sei o quê…”. Cara, deixa o povo te falar o que você vai precisando! Porque normalmente, se você ficar dentro da sua sala procurando algo para melhorar, no final você vai melhorar a coisa errada. É uma percepção sua, acontece direto: você desenvolver um negócio que não serve para nada. Então a gente foi nessa pegada de empresa de vendas, teve esse estirão. Acho que agora o momento é um outro desafio, né? Quando você cresce muito rápido, você não cresce sem dor. Tem um empreendedor brasileiro que ele fala, eu gosto muito: “cresce primeiro, depois organiza”. Essa história de você crescer organizadinho, cara, esquece! Cresce, depois organiza, até porque você precisa ter um certo tamanho para conseguir encaixar algumas coisas, tudo tem custo. Então você vai encontrando essas formas.
Buenas, buenas, buenas! Seja bem-vindo a mais um episódio do podcast do Além do CNPJ. Primeiro de tudo, muito obrigado por estar aqui pra gente trocar essa ideia de empreendedorismo vida real. E, cara, o cara que tá aqui na minha frente é o brabo, tem uma história empreendedora sensacional! Conheci ele faz pouco tempo, conheci ele lá no Resenha do Gabe, no mastermind de uma turma que a gente faz parte, de empresários brabos também. O cara tem uma história de empreendedorismo que, quando ele começou a contar lá de forma despretensiosa, falei: esse cara precisa ir no meu podcast, ele precisa contar essa história lá! E já tô curioso, tava conversando com ele aqui, falei: “cara, eu sei um pouco do que você contou, mas eu quero me aprofundar, posso perguntar tudo?”. O cara me deu carta-branca! Então, curioso como sou, vou tentar entender para tirar um pouco desse conhecimento, dessa experiência, dessa maturidade empreendedora dele aqui pro podcast e explodir a mente da turma aí, beleza? Então muito obrigado por ter aceitado o convite, tô aqui com Emerson Lima, CEO da Salter. Meu caro, muito obrigado de verdade, prazer ter você aqui!
Felipe, eu já tô aqui lisonjeado pela apresentação! Que responsa, cara! Primeiro, parabéns pelo sucesso, parabéns pela página, por tudo que você tem feito pelo empreendedorismo brasileiro. Já era seu fã antes, sou muito mais ainda depois de conhecer esse cara alto-astral, simpático e gente boa, do bem, né? A gente no final tenta se cercar de pessoas do bem. Tô muito feliz de estar aqui, obrigado pela oportunidade, parabéns pelo que você tem construído!
Cara, eu sou uma pessoa que reparo muito nas entrelinhas das pessoas, na sutileza com que as pessoas agem, né? Aquele famoso ditadinho de que, se você quer conhecer alguém, repara como essa pessoa trata o garçom ou as pessoas que talvez não tenham nada para agregar para aquela pessoa, e como ela trata essa turma. E naquele encontro que a gente tava lá, eu sou um cara introspectivo, por mais que eu seja alto-astral para falar e tudo mais, sou introspectivo, então sou muito observador, como um tímido de natureza. Então sempre fico observando as coisas assim. E você chegou lá de forma despretensiosa, participou pra caramba do encontro, daquele exercício que a gente tava fazendo do board, e com umas ideias sensacionais! Coisas que você falava, eu falava: “cara, esse cara não leu num livro, não, ele tá vivendo isso aí!”. Você consegue perceber muito rápido quem tem teoria e quem aprendeu aquilo na prática. E principalmente, cara, tua bondade. Uma coisa que me chamou atenção foi tua bondade, o quanto você tava interessado em ajudar as pessoas, o quanto você tava interessado em ajudar as pessoas que estavam ali com dificuldade, pessoas que não tinham talvez nada a te agregar, mas que você tava ali só se doando mesmo. Eu falei: esse cara é do bem! Coisas que eu reparei e que às vezes a gente só tá vivendo e não tá percebendo que tem gente percebendo, mas eu percebi. Isso me chamou atenção.
É interessante essa visão sua, confesso que eu não tinha essa percepção. Acho que tem uma pegada também: eu sempre falo que eu não nasci empreendedor, eu me descobri. E quando a gente vê essa galera que tá começando a empreender ou que tá em fase em que a gente já passou… E é engraçado que, independente do segmento em que você tá empreendendo, os desafios são muito parecidos, né? Então é até muito comum que você vê essas escolas hoje de empreendedorismo que estão nascendo, felizmente, porque a gente nunca foi ensinado a ser empreendedor. Na escola, na faculdade, não tem nada. Aliás, empreender não é uma escolha, é falta de escolha, né? Se você começar a olhar assim, a nossa geração, sobretudo, a gente foi ensinado a ser funcionário público, fazer concurso. O teu amigo bem-sucedido era o cara que passava no concurso ou o cara que conseguia entrar numa multinacional muito cedo como estagiário, como trainee. Na minha época de faculdade, o sonho de todo mundo não era empreender, era ser trainee!
Trainee, uma coisa que em fase de colégio ainda a galera querendo engenharia em faculdades muito competitivas ou até medicina para depois ser trainee! E aí eu falo: cara, que maluquice! E eu muitas vezes: “o que que você quer?”. “Ah, quero uma coisa normal”, eu tava querendo entrar em comércio exterior, que foi a área que eu estudei, o pessoal falava: “cara, legal”, com um certo desdém, sabe? Uma viagem!
E aí quando você encontra uma galera que tá passando por dificuldades pelas quais você passou e que você teve que aprender na raça, algumas vezes… E eu acho que quando a gente acerta, a gente acerta mais por feeling do que necessariamente… Algumas coisas são meio óbvias, outras nem tanto, e nessas que não são tantas a gente acaba acertando por intuição. Só que nessa de acertar por intuição, a cada dez a gente acerta duas. Acontece muito, a gente erra muito mais do que acerta, só que a internet mostra as coisas certas.
Exatamente! E eu acho que para quem tá começando, quem tem empresa pequena, a grande dificuldade é você conseguir trocar com alguém que já passou, porque você tem uns caras que estão muito longe, você não consegue trocar.
Você teve isso quando era pequeno?
Nossa, muito, cara! De não ter com quem trocar. Os desafios vão mudando: hoje a gente é uma empresa média e a gente tem desafios hoje que eu preciso me aconselhar com gente que tem empresa gigante para poder ir para a próxima fase. Mas quando você era pequenininho, não tem com quem trocar. Eu não tinha com quem trocar quando era muito pequenininho! E tem uma outra coisa, Felipe, que você tava falando da sua trajetória, e a gente tem trajetórias parecidas: a gente não vem de famílias abastadas, a gente foi construindo o negócio, primeira geração que tá trazendo um legado. É diferente de quem, por exemplo, às vezes já tem um pai que empreende ou teve um avô, ou mesmo no círculo de amigos tem um tio, tem uma galera que empreende, tá passando por aquilo, a pessoa tem com quem trocar. Ou mesmo se não tem, às vezes tem um pai que foi executivo, um tio que foi executivo, o cara tem uma bagagem, uma vivência. Pra gente, além de não ter essa vivência, a gente não tem pares assim, a gente não tem pessoas próximas que tenham empreendido e tenham tido sucesso. Você não tem referência nenhuma próxima! Até por isso que acho que um produto como o do Gabe é interessante, porque você começa a aproximar gente que tá mais ou menos no mesmo perfil e essas pessoas começam a trocar, porque elas estão vivendo isso. Empreender em si é chavão, mas é verdade: é muito solitário. E quando a gente olha pra jornada, o início dela, quando você não tem com quem trocar, é mais solitário, é mais pesado.
Sabe com quem eu me aconselhava? Com influenciador! Me aconselhava no sentido de forma indireta: o cara não tava falando comigo, mas os conteúdos que eles postavam iam de encontro. Eu digo que eu tive uma síndrome que eu apelidei de “síndrome de Shark Tank”, porque eu tinha uma empresa tradicional de vidro que tava indo bem, só que eu olhava e falava: “pô, a Camila Farani nunca investiria no meu negócio porque é tradicional, não é escalável”. E eu ficava numa pira de que esse negócio não era bom. Por muito tempo acabei me perdendo nessa trajetória, querendo abrir startup, minando o dinheiro daquela empresa tradicional que era lucrativa nas empreitadas que eu tinha, até que quando eu cresci um pouco e comecei a conversar com empresários maiores, foi a maturidade desses maiores que me trouxe pro eixo e falou: “cara, você é louco? Olha o lucro que você tá dando, você tem que focar aqui, larga essas coisas e volta para lá!”.
Perdendo tempo! E essa questão de foco é muito fácil de se perder, né? Porque tem uma teoria que é assim: quanto mais você sabe sobre um assunto, mais inseguro você fica, já percebeu isso? Quando você é ignorante num negócio, vê um vídeo no YouTube de 5 minutos… Esses dias eu tava apaixonado pela segunda lei da termodinâmica, e aí eu tava querendo falar alguma coisa pro meu time sobre isso, fazer uma analogia empreendedora. Fui lá e assisti um vídeo de 5 minutos sobre a parada: “nossa, eu sei tudo disso aqui, saí dando aula!”. Fui pesquisar um conteúdo um pouco mais profundo sobre esse negócio: “nossa, pera aí que o negócio não é bem assim”. Então quanto mais a gente vai pesquisando sobre um assunto, menos a gente sabe sobre ele. E aí tem a ver com essa pegada de que, conforme a gente vai crescendo, vai se aconselhando com pessoas.
Eu tomo muito cuidado com isso no Além do CNPJ. Um cara chegou em mim e falou: “cara, me liberaram um crédito de X e eu tô precisando de caminhão, o banco me disponibilizou esse valor, você acha que eu devo comprar?”. Eu falei: “qual é a taxa?”. Ele mandou a taxa, falei: “cara, a taxa tá boa”. Cinco dias depois ele manda a foto de três caminhões: “comprei!”. Falei: calma, bicho! Eu respondi da taxa, só que para você comprar um caminhão você tem que analisar tantas coisas: dívida da empresa, se ela tá dando lucro, é tudo muito relativo, é subjetivo, não dá para responder de forma simplória. Eu falei: preciso tomar cuidado com algumas respostas, porque a galera leva muito ao pé da letra. A galera um pouco mais inocente no empreendedorismo analisa como sim ou não, mas é binário total. Tem que tomar cuidado.
É muito isso, cara. Acho que tem alguns desafios do dia a dia em que a gente se depara. Todo mundo espera de você uma solução, né? A responsa é sua, você é o guia, e às vezes nem você sabe a resposta.
Quantas vezes eu tomei decisões em que eu não tinha certeza! Só que a questão é que você meio que molda o universo: se eu não tenho certeza e é esse caminho que eu escolhi, cara, eu vou ter que fazer dar certo! Você se mata naquilo, dedica teu time. Quantas vezes, olhando para trás, tomei decisões até quase inconsequentes, de forma inconsciente, por imaturidade total! Até o fato de entrar na construção civil: olhando as análises que eu fiz, falei: “fui muito inocente, vou estourar!”. Analisei errado vários números, e quando entrei me deparei com um cenário completamente diferente, só que eu já tava lá, não tinha opção, tinha pulado com os dois pés. Já que não tinha opção, precisei aprender a nadar mesmo já tendo pulado, e aprendi a nadar. Se eu tivesse sido mais conservador, talvez estivesse pior do que tô hoje, não dá pra gente saber. Ser advogado do passado é sempre muito mais fácil.
Eu não gosto desse negócio de tentativa e erro, sabe? Eu acho que a gente consegue fazer hoje bastante coisa a partir de benchmark. A gente tem dados para tudo agora, tem os GPTs da vida que você consegue inclusive consolidar muita informação, e o grande desafio é fazer as perguntas certas. Para mim foi difícil também, porque você precisa ter conteúdo para saber onde tá doendo. Se você pega uma criança que tá com dor, você pergunta onde dói e ela nem vai saber onde tá doendo. Você precisa ter conteúdo para saber onde tá doendo, e esse saber onde tá doendo vem também com a experiência, ou vem com uma boa educação, de você saber algumas coisas básicas ali. Pra gente, a gente teve que aprender muita coisa na raça, teve que aprender inclusive onde é que era a dor, porque às vezes tá incomodando e você nem sabe onde tá doendo.
Você só respira e sente dor, não sabe de onde vem!
Essa simplificação é importante. Tem uma galera que faz muito bem no mercado: o cara faz um conteúdo que parece que tá sentado na sua sala falando com você, aquilo ali é dados, é estudo, não tirou da cabeça. Tem bastante referência, felizmente tá melhorando isso hoje, acho que já tem bastante referência literária, pessoas com quem você pode contar. A gente tem no Brasil grandes empreendedores que dão a cara, porque acho que um dos grandes desafios no Brasil é que tinha essa história do empresário malvadão. A partir do momento em que começa a aparecer um monte de empreendedor que dá a cara e fala como as coisas funcionam, isso tem quebrado um pouco essa visão.
O povão fora da bolha ainda acha o empresário malvadão, porque alguns posts meus que furam a bolha, cara, você toma hate desnecessário de pessoas que não te seguem. Mas acho que tá quebrando, de fato.
Acho que tá quebrando, e cada vez mais que a gente mostra a cara. Acho que essa nossa geração vem com um pouco mais de responsabilidade social também, né? A gente teve uma fase de empreendedorismo no Brasil meio obscura, em que a única coisa que importava era você se salvar. Quando eu falo com o meu pai e ele comenta como eram os líderes dele da época, cara, loucura mesmo! A maioria desses caras tava ali exatamente para enriquecer e dane-se o resto. Acho que vem uma nova geração que fala: eu quero morar no Itaim, mas não dá para murar o Itaim, então nós precisamos fazer com que quem mora no entorno também melhore gradativamente com a gente. Essa responsabilidade que vem tendo nessa geração atual é um turning point, uma virada em que a gente começa a construir algo interessante.
Mas entrando antes no seu dia a dia na empresa: da onde você veio? Referências, pai e mãe, onde você nasceu? Dá uma breve história da sua infância até a vida adulta.
Cara, eu sou um favelado! Meus pais… Eu sou filho de uma retirante nordestina que veio para São Paulo tentar a vida, engravidou na adolescência, veio para São Paulo e pouco tempo depois me trouxe. Ela conheceu um parceiro aqui com quem teve outros três filhos, então sou de uma família de quatro irmãos, sou o mais velho, e cresci numa favela aqui de São Paulo. A gente conhece a parte bonita de Santana de Parnaíba, com Alphaville, mas eu sou da parte que ninguém vê, que é a “Alfavela”. Cresci na periferia de Santana de Parnaíba. É muito engraçado, porque Alphaville tem um PIB de Suíça dentro de São Paulo, que é a parte de Alphaville, Santana de Parnaíba e Barueri, e tem uma região que é totalmente esquecida, que as pessoas até hoje não têm esgoto tratado. Se você atravessa a ponte em São Paulo, a expectativa de vida cai em 10 anos! A gente não tá falando de Faixa de Gaza, tá falando de atravessar a ponte em São Paulo.
Cresci nessa cidade, fiz escola pública a vida inteira. Eu trabalho desde que me lembro, desde que tenho memória eu trabalho: limpando quintal para alguém para ganhar um troco, carregando carrinho de sorvete, trabalhei na feira junto com os feirantes, trabalhei numa oficina mecânica na adolescência. Da oficina mecânica, fiz um curso de montagem e manutenção de computadores oferecido pela prefeitura. Eu não tinha computador em casa, vi aquela máquina brilhando e pensei: vou mexer no dos outros, é o jeito de eu mexer com esse troço! Naquela ideia do início dos anos 2000 de que computador era o futuro.
Trabalhei de graça, cara! Eu trabalhava durante a semana na oficina mecânica, estudava à noite, e no final de semana consegui um bico na Santa Ifigênia para montar computadores de graça!
Caramba! Tinha quantos anos nessa época?
16, 17 anos. Você já tinha uma vontade danada para poder ter contato, porque era um negócio caro pra caramba, ninguém deixava você mexer e você virava o ovo e a galinha da experiência: vou comprar essa experiência trabalhando de graça no final de semana!
Depois fui ser o menino da TI em alguns escritórios, trabalhei para algumas empresas de suporte em microinformática. Teve uma virada na minha vida: fui fazer uma manutenção de computador na casa de um cliente, ele percebeu que eu era meio talentoso e perguntou: “quanto você ganha fazendo isso aí?”. “Sei lá, ganhava uns R$ 400,00”. “Esse cara tá te roubando, vou te dar uma oportunidade!”. E ele me arrumou para participar de um processo seletivo num escritório de advocacia na Faria Lima, um dos maiores escritórios do Brasil.
Foi a primeira vez que saí de Santana e cheguei em São Paulo, na Faria Lima, em 2007. Quando me deparo com essa realidade, falo assim: eu ainda não sabia bem o que eu queria, mas eu sabia que não queria mais aquilo, sabe? Eu tinha que pegar um buzão todo dia e voltar para Santana de Parnaíba, eu falava: “eu não quero mais voltar para lá, não quero voltar mais pra quebrada!”. E eu adorava, minha mãe ainda mora lá, não quer sair da casa de jeito nenhum, quando vou na casa da minha mãe me sinto super bem, mas eu sabia muito bem que não era aquela vida que eu gostaria de ter. Depois eu traduzi isso de uma maneira muito simplista: eu tinha um ódio danado de ser pobre! Essa simplificação passa por várias coisas: acesso a produtos, saúde, moradia melhor, comer melhor…
A maior parte dos meus amigos de infância estão mortos ou presos. E aqueles que não estão mortos ou presos têm hoje um emprego numa siderúrgica ou num desses trabalhos básicos. Quando fui trabalhar nesse lugar na Faria Lima, eu me descobri, comecei a ter sonhos. O mais cruel que você faz com uma pessoa que vem de onde eu vim é que essa pessoa não tem sonhos, ela não tem perspectiva, não sabe o que faz depois daquilo. Fui fazer cursinho pré-vestibular, consegui uma bolsa no Mackenzie. No meu primeiro dia de cursinho, o professor colocou uma equação de segundo grau na lousa e disse: “vamos fazer uma revisão rápida do que vocês viram no ensino médio”. Eu olhei aquilo e falei: revisão de onde? Eu nunca vi isso na vida!
Consegui entrar numa multinacional de tecnologia, trabalhei alguns anos na IBM. Saí da IBM para ser PJ quando tava começando esse movimento. Montei uma empresa com sócios capitalistas em 2018: eu tinha a expertise técnica, eles entraram com o capital. No primeiro ano vendemos R$ 2 milhões em serviços de TI. Só que os caras não queriam um negócio grande, queriam uma fonte de renda, e um deles virou para mim e disse: “você nunca vai ser como eu”. Não tem nada melhor para você ir pra frente do que um pé na bunda com raiva, o ódio movimenta o ser humano!
Saí de lá e montei meu negócio no final de 2019. Comecei com a tese de LGPD, montei um pipeline de R$ 30 milhões em projetos de conformidade. Mandei criar o CNPJ da Salter, que nasceu em 5 de março de 2020. No dia 9 de março de 2020, a OMS declara a pandemia mundial de Covid-19! Na primeira sessão do Congresso, eles postergaram a vigência da LGPD e tiraram as multas. O meu pipeline de R$ 30 milhões virou pó da noite para o dia!
Falei: vou ter que inventar alguma coisa. As empresas começaram a mandar todo mundo para home office, faltou notebook, e a pandemia acelerou o roadmap de transformação digital do Brasil em 10 anos. Estruturei a Salter com três frentes: migração de infraestrutura de data centers obsoletos para a nuvem, esteiras de automação para desenvolvedores, e inteligência artificial com engenharia de dados. Olhei para a Accenture e falei: vou ser uma mini-Accenture. O que a Accenture cobra R$ 3.000,00 a hora, eu vou fazer cobrando R$ 400,00.
No primeiro ano faturamos R$ 300 mil. Como você captou clientes nesse meio?
Eu tinha sido especialista técnico, engenheiro, e depois fui para a área de pré-vendas, que desenha soluções pro cliente e ajuda o comercial a vender. Eu me apaixonei por vendas! Só que tinha uma parte de vendas que eu odeio: prospecção fria, ligar para cliente, bater na porta. Eu não sou bom nisso. Quando fundei a Salter, sabia exatamente o que eu não gostava de fazer: contratei três ou quatro SDRs e falei: “vocês vão ligar para esses clientes, falar isso e abrir a reunião para mim”. Eu entrava na reunião como pré-venda, engenheiro e vendedor! E fomos pro cold call raiz, ligando para as empresas.
No primeiro ano faturamos R$ 300 mil, mas deixei a esteira pronta para faturar R$ 4 milhões. No segundo ano faturamos R$ 10 milhões! No terceiro ano fizemos R$ 30 milhões. No quarto ano fizemos R$ 64 milhões. E agora, fechando o quinto ano, vamos bater R$ 120 milhões de faturamento! De zero a R$ 120 milhões em 5 anos, no modelo bootstrap, sem nenhum real de dívida bancária e sem nenhum centavo de investidor externo. Comecei o negócio com uma nota fiscal de R$ 20 mil do meu trabalho.
Hoje são 180 pessoas na Salter entre os escritórios de São Paulo e Pernambuco. A gente fez um programa próprio de formação de engenheiros de dados e especialistas em nuvem, porque são profissionais escassos no mercado. Eu não tive sócio no início, 100% da empresa é minha, e ao longo da jornada fui distribuindo stock options para as pessoas-chave que tocam o negócio comigo.
Qual foi a sua maior dor nesse processo de crescimento tão rápido?
Terapia, cara! Terapia para não surtar. Ganhei 20 kg nesse período. Acho que o meu maior desafio foi eu mesmo me colocar no tamanho da companhia que eu tava criando. Quando você quer criar algo grande, você precisa estar no nível do negócio. À medida que você vai contratando gente muito boa, você precisa estar no nível de discussão com elas, senão as pessoas não se sentem desafiadas. Hoje eu me enxergo como um funcionário da Salter: a empresa é uma terceira pessoa, ela tem necessidades e vontades próprias que não se confundem com as minhas vontades individuais.
Outro grande acerto que tivemos foi no segundo ano: contratei uma diretora executiva de RH sênior que tinha saído de uma grande multinacional. Em 2020, o salário dela era o maior salário da Salter, maior do que o meu! Porque eu sabia que se a gente ia prestar serviços e crescer rápido, o maior ativo e o maior gargalo seriam as pessoas. Ela estruturou planos, processos, benefícios e blindou a empresa de passivos trabalhistas.
E como você enxerga a revolução da Inteligência Artificial hoje no mercado corporativo?
O presidente mundial do Google disse que o surgimento da inteligência artificial não deve ser comparado à criação da internet, mas sim à invenção do fogo e da roda na história humana. Esse é o tamanho da transformação. Ninguém vai perder o emprego diretamente para a inteligência artificial; você vai perder o emprego ou o mercado para alguém que sabe usar inteligência artificial melhor do que você.
A automação não reduz contratações no longo prazo: quando uma empresa implementa IA, ganha eficiência, reduz custos, vende mais barato e com mais margem, abocanha mais mercado e, para dar conta desse crescimento, acaba contratando mais pessoas. Nós estamos desenvolvendo projetos complexos na Salter, desde automação logística pesada até modelos em saúde capazes de antecipar o diagnóstico de câncer de mama por leitura de imagens e dados históricos.
Para as pequenas e médias empresas, as soluções de IA chegarão embarcadas nos próprios softwares e ERPs que elas já utilizam pagando mensalidades acessíveis. Quem estiver no jogo testando desde cedo vai liderar seu segmento.
Duas perguntas finais: a primeira sobre a quebra de ciclo familiar. Como você lida com a pressão de familiares e amigos quando você se torna a pessoa bem-sucedida da família?
No início eu sofria muito com isso. Na periferia, se você faz um churrasco, a carne é para todo mundo, há um senso comunitário de sobrevivência mútua. Só que quando você começa a enriquecer, você ainda não atravessou a arrebentação por completo, você não tem um patrimônio consolidado. Se você tentar carregar todo mundo nas costas logo nos primeiros passos, você vira o caso clássico do jogador de futebol: ganha R$ 1 milhão por mês, compra mansão para a família toda, a carreira acaba em 15 anos e ele termina pobre e endividado aos 35 anos.
Você não é pai de todo mundo. Eu só aposentei a minha mãe e dei um carro para ela este ano, depois de cinco anos de empresa sólida e com a certeza de que isso não colocaria o meu fluxo em risco. Para o entorno, você precisa aprender a dizer não, mesmo sendo tachado de egoísta. Primeiro você constrói a sua base; depois que estiver seguro, faz a ajuda de forma profissional e estruturada, como fazem as grandes fundações filantrópicas.
E a pergunta final: se hoje fosse o seu último dia de vida e você pudesse deixar uma mensagem para o mundo, qual seria?
Tem um poema do Fernando Pessoa em que ele diz que não tem preferências para quando não puder mais ter preferências. Se eu não estiver mais aqui, eu diria para as pessoas: vivam com intensidade! Tenham boas lembranças, façam festa. Eu deixei sementes que me orgulham muito, como o nosso centro de formação de tecnologia no interior de Pernambuco, onde estamos formando talentos para transformar o sertão num polo tecnológico. Não tenho a pretensão de ser referência para ninguém nem obrigação de deixar um legado esculpido; cada pessoa precisa viver sua própria jornada e encontrar o seu próprio caminho.
Sensacional, Emerson! Baita história, parabéns pela trajetória da Salter e por tudo o que você construiu.
Obrigado, Felipe! Tamo junto!
