Por que Saí das Redes Sociais para Salvar a Empresa com Felipe Spina | Além do CNPJ (EP #154)

O Custo Invisível da Distração Digital

No mundo do empreendedorismo moderno, a pressão para “parecer” produtivo nas redes sociais muitas vezes destrói a produtividade real. Vivemos a corrida dos ratos, escutando podcasts no banho e rolando o feed do Instagram para ver o que os concorrentes estão fazendo, tudo sob a justificativa de “networking”. Mas até que ponto essa superexposição alimenta o nosso ego enquanto esvazia o nosso caixa e a nossa paz? No episódio #154 do Além do CNPJ, recebemos Felipe Spina, empresário que tomou uma decisão radical: abandonar as redes sociais para voltar a viver o momento presente e focar na expansão da sua indústria. Em um bate-papo profundo sobre cultura empresarial, saúde mental e essencialismo, Felipe nos mostra que o verdadeiro sucesso começa quando você para de tentar provar algo para os outros.

1. Da Distribuidora na Varanda à Indústria Própria

A história de Felipe carrega o peso de uma tradição familiar centenária no ramo de papel e embalagens. Após ver seu pai quebrar e recomeçar a distribuidora na varanda de casa, traumatizado com custos fixos e centralizador, Felipe decidiu que construiria seu próprio caminho. Ele abriu a FBS Distribuição em 2016 e, contrariando o medo do pai, investiu pesado em cultura e gestão de pessoas. Hoje, a empresa cresceu vertiginosamente e, num movimento de união, ele e o pai acabam de adquirir uma indústria de papel, passando de uma equipe de 35 para mais de 200 funcionários e verticalizando toda a operação.

“Meu pai pegou trauma de custo fixo quando quebrou… Mas eu sempre tive essa mentalidade de ver a FBS como uma empresa grande. Então, muito diferente do meu pai, eu comecei a investir muito em pessoas, em cultura.”

2. O Golpe que Salvou a Empresa (Antifragilidade na Prática)

A grande virada de chave na vida de Felipe aconteceu em 2018, quando ele sofreu um golpe. Um gerente comercial tentou roubar a carteira de clientes e assediou todos os funcionários para montar uma distribuidora concorrente. Longe de se vitimizar, Felipe assumiu a culpa: ele era um líder ausente, focado apenas em festas e em retirar seu pró-labore. O golpe o obrigou a demitir as “maçãs podres” e a buscar autoconhecimento através de mentorias de alto impacto. Foi aí que ele instaurou a cultura da autorresponsabilidade, onde errar é permitido, mas não o mesmo erro duas vezes.

“Eu falo que foi a melhor coisa que aconteceu na minha vida, porque se não tivesse acontecido aquilo, eu não teria chegado onde cheguei. A vida pune, é totalmente autorresponsabilidade. E eu merecia aquilo.”

3. O “Vórtex” e a Cultura da Gratidão

Como manter uma equipe engajada de segunda a sexta? A resposta de Felipe foi a criação do “Vórtex”, um ritual semanal inegociável na FBS. Toda segunda-feira de manhã, a equipe se reúne para uma roda de gratidão, oração e compartilhamento de aprendizados. Felipe também paga mentorias caríssimas e leva esse conhecimento (como as lições de autorresponsabilidade) para dentro da empresa. O impacto é tão profundo que até colaboradores de chão de fábrica conseguem ressignificar traumas familiares e perdoar parentes com quem não falavam há mais de uma década.

“Eu não falava com o meu irmão há 10 anos. Depois que eu aprendi sobre o perdão no Vórtex, assim que terminou o meu expediente, eu bati na porta do meu irmão, perdoei ele e dei um abraço. Todo mundo começou a chorar.”

4. O Essencialismo e o Fim das Redes Sociais

Com o crescimento absurdo dos negócios e a entrada na nova indústria, Felipe se viu ansioso, tentando abraçar o mundo, gerenciar fundos de criptomoedas, dar palestras e manter a pose no Instagram. Ao reler o livro “Essencialismo”, ele percebeu que a superexposição nas redes era apenas o seu ego querendo validação. Ele decidiu terceirizar os projetos paralelos, deletar os aplicativos de redes sociais do celular e focar no agora. A paz que ele encontrou longe das telas permitiu que ele se dedicasse de corpo e alma ao que realmente importa: sua família, sua empresa e a sua sanidade mental.

“O que hoje drena minha energia e meu foco? Telas e redes sociais, onde eu tô me distraindo o tempo inteiro. […] Eu comecei a refletir: eu tô acelerando pra quê? Pra provar o quê? Pra quem? Eu já tenho a paz, eu sou responsável pela paz.”

Conclusão: O episódio encerra com um convite a uma viagem no tempo: imagine que você está com 90 anos, no leito de morte, arrependido de ter acelerado tanto e não ter vivido o presente. De repente, você ganha a chance de voltar para a sua idade atual. O que você faria diferente? Felipe Spina nos lembra que não precisamos de aprovação alheia. Quando você se desassocia do seu ego e foca no “Poder do Agora”, você para de apenas existir e começa, de fato, a viver.

Quer entender como implementar essa cultura inabalável na sua empresa e retomar o controle da sua saúde mental? Assista ao episódio completo agora mesmo!

Ler Transcrição Completa

Só de eu sair do Instagram, do YouTube e tá presente, cara, meu nível de ansiedade caiu absurdamente. Eu sou maratonista, né? Então eu tenho esse dispositivo aqui que fica monitorando realmente minha frequência cardíaca o tempo inteiro. Eu literalmente tô muito mais presente. Eu tô com um senso de presença e gratidão de uma maneira que eu nunca estive antes. Não é fácil mudar esse hábito de telas e Instagram, do começo você fica até meio sem saber o que fazer. Fica com medo porque você instaurou a sua identidade numa rede social. Isso é uma coisa que eu tinha muito. Falei: “Cara, se eu deletar meu Instagram, ninguém mais vai saber quem é o Felipe”.

Buenas, buenas, buenas. Seja bem-vindo a mais um episódio do podcast Além do CNPJ. Primeiro de tudo, muito obrigado por estar aqui pra gente trocar essa ideia de empreendedorismo, vida real. Aqui do meu lado, o mais novo magro do pedaço. Já tem os episódios, tá cada dia mais magro. Não, você perdeu mais. Não, jura? É, não é porque agora eu tô perdendo músculo, então tô ficando mirradinho. Você acredita que eu tomei Mounjaro por um tempo para manter peso, só que eu me arrependo de ter tomado porque eu perdi muita massa magra. Perdi demais, cara. Então eu falo, passo a ganhar peso porque eu tô descontrolando na alimentação. Aí eu falo: “Mounjaro”. Mas depois penso: “Não, deixa quieto, vou ter que ir na raça mesmo”. Se bem que agora tá vindo o novo Mounjaro que não perde massa. É a evolução que não perde. Tomara que comece, porque eu dei uma secada monstra e perdi massa magra, fiquei meio mirradinho. Brunão, mais um, hein? Vamos para cima, sucesso.

E aqui na nossa frente a gente tem um cara que, enquanto trocávamos ideia nos bastidores, falamos: “Meu, para de falar, vamos gravar, vamos gravar”. Já aconteceu um podcast muito valioso aqui nos bastidores e a gente vai tentar trazer tudo que a gente conversou pro ar, porque é um conteúdo muito valioso, de um cara muito vida real, muito autêntico e sincero no que estava conversando. Eu acho que tem muito insight para dar para a gente que tá na lida empreendedora, sobre as coisas que ele tá fazendo hoje em dia. Já anotei umas quatro coisas que ele falou que a gente vai tentar trazer de volta. Vamos tentar trazer porque ele tem insights para o cara que tá começando, para o cara que tá no meio do caminho, para todo tipo de público. A trajetória dele envolve uma empresa rodando, pivotando modelo de negócio, colocando um novo segmento no seu ecossistema. Isso faz com que a gente possa trocar ideia sobre vários níveis de maturidade dos negócios, desde a nova empresa dele até a que já é muito bem consolidada. Sem mais delongas, quero apresentá-lo: Felipe Spina. Seja bem-vindo, meu brother!

Prazer, tamo junto. Obrigado por topar tá aqui com a gente trocando essa ideia. Cara, para mim é uma honra estar aqui. Obrigado. E, só deixando claro, não é o Felipe Spina da agência, é o Felipe Spina do papel. Ele é mais velho que você, Felipe, você tá estragado. O cara parece mais novo! Eu falo que ele é o meu xará ao quadrado.

Mas Felipão, a gente vai entrar em tudo o que estávamos conversando, porque eu acho que são conteúdos que saíram no bastidor aqui e que eu quero trazer pro ar. Mas antes da gente entrar nesse tema, dá um overview do Felipinho. De onde ele veio, onde você nasceu? Você teve pai e mãe presentes? O que você queria ser quando crescesse? Como foi essa trajetória na infância até chegar na vida adulta e o universo do empreendedorismo te pegar? Dá um overview pra gente.

Bom, eu sou daqui de São Paulo, nascido aqui. Eu cresci num lar de empreendedores, minha família toda de empresários. Cresci ouvindo a história dos meus bisavós, todos imigrantes italianos. E eles começaram muito cedo nessa parte de empreender. (Só avisa para mudar aquela luz piscando lá atrás. Tem uma luz piscando colorida lá atrás. Ela tem um controlinho. Achei que não tava interferindo, mas olhei para trás de vocês e tava ficando furta-cor).

Então, cara, dá um pouco do contexto do Felipinho. De onde veio, como foi a tua trajetória, as suas referências, você nasceu aonde? Sua família teve qual influência na sua vida pro crescimento? Dá um overview pra gente, cara.

Bom, sou 100% influenciado pela família porque eu nasci num lar de empresários. Desde pequeno tenho recordações de eu indo na distribuidora do meu pai. Cresci vendo toda a trajetória dele. A família Spina e a família Borleng são duas famílias italianas super tradicionais. Tem histórias dos meus tataravós, bisavós, uma família focada na parte logística e a outra na parte de papel. Do papel já! Provavelmente, quando você era criança, escrevia nos cadernos e via escrito “Spina” no final.

Na verdade, Spina foi a fábrica dos meus bisavós. Chamava IRIS (Irmãos Spina Reunidos). Eles chegaram a ter o maior parque gráfico da América Latina. Foram eles que inventaram o caderno de espiral e patentearam na época! É legal a história, mas ela acabou fechando em 1980 ou 85, muito por conta da transição. Em São Paulo poluía muito e o governo estava incentivando para que as indústrias fossem para o interior. Nessa jogada eles acabaram assinando um contrato muito curto, o que não era o ideal para uma indústria daquele tamanho (literalmente do tamanho de uma Klabin hoje) fazer toda a migração da operação com pressa. Eles tinham fundado a empresa em 1920 (meu tataravô) e já tinha mais de 70 anos de história indo para a terceira geração (do meu avô). Quatro irmãos italianos tocavam a empresa. Eles já tinham um patrimônio muito grande e acabaram falando: “Meu, não vai compensar a gente dar continuidade”. Meu avô quase infartou, ele era jovem, diretor financeiro ali. Eu cresci ouvindo a história do meu avô e do arrependimento dele de ter fechado as portas.

Isso é muito louco, porque eu nem sei a história do meu tataravô. E é muito legal você saber a história dos seus antepassados. Eu sei mais ou menos a história da minha bisavó. Você tem a árvore genealógica com história, de quem fez o quê, muito legal. E falando em árvore genealógica, a família Spina tem mais de 1000 pessoas. É uma família muito unida, a cada 5 anos a gente tem a tradição de fazer a “Spinaroli”, a gente se reúne num lugar gigantesco para fazer a contabilidade da árvore genealógica. Cada um vai com crachá para saber a linhagem e de qual bisavô você é descendente. Tem um comitê da família que organiza tudo isso a cada 5 anos. Meu tio Guga tem um quadro com toda essa árvore genealógica.

Voltando à minha história: nasci ouvindo essas histórias. Meu pai empreendendo, eu lembro de eu dirigindo empilhadeira no colo dele lá na distribuidora que ele tinha. Eu nasci em 91 e, em 98, ele acabou fechando as portas. Eu vi meu pai reconstruir toda a distribuidora dele do zero na varanda do nosso apartamento. Lembro da dificuldade. A gente tinha um padrão de vida muito bom e, do nada, tivemos que reduzir absurdamente. Na nossa família a gente é muito ligado à fé, nós somos evangélicos. Essa parte espiritual sempre foi um pilar muito forte de resiliência no nosso lar. Meu pai sempre teve a fé dele muito forte e nunca deixou a energia negativa, que o empreendedor normalmente tem nos momentos difíceis, passar para mim, para minha irmã e para minha mãe. Por isso que eu falo que a parte espiritual, a mental e a física são os três pilares que a gente tem que estar sempre olhando, pois são o combustível pra gente passar por todas as etapas.

Eu cresci nisso e meu pai sempre perguntava para mim: “Felipe, o que que você quer ser quando crescer?”. Eu sempre falava: “Homem de negócios”. Eu falava: “Ah, eu quero ser igual a você, pai. Quero ser um homem de negócios”. Nunca falava que queria ser jogador de futebol. Eu tive muito claro que queria empreender. Na faculdade, acabei fazendo Administração no Insper e lá tive minha primeira experiência profissional estagiando em marketing na P&G. Ficar seis meses na P&G foi uma escola para mim, para entender todo o onboarding de uma multinacional, a parte de investir em liderança e em pessoas. O Caio Cavalari (hoje VP de Gillette lá) fez meu onboarding.

Depois que saí da P&G, comecei a trabalhar com o meu pai. É engraçado, porque desde quando ele quebrou lá em 98, ele pegou trauma de custo fixo. Ele reconstruiu a operação toda enxuta. Era ele e mais quatro pessoas (ele, minha tia no financeiro, uma secretária e uma menina do faturamento). Ele fazia tudo com venda casada, sempre focado na parte de papel miolo. Em 2014, eu comecei a minha trajetória no mundo do papel. Detalhe: de todos os meus bisavós e ancestrais, só o meu avô (que era o diretor financeiro da fábrica) continuou no papel, os outros da família não seguiram. Meu pai e meu tio seguiram. Meu tio depois foi pro ramo dos vinhos, mas meu pai seguiu como representante depois que a distribuidora quebrou. A operação dele era “venda casada”. Ele tinha contatos em depósitos de aparas de papel (papel reciclado que os carroceiros pegam na rua e que é prensado) e ele vendia essas aparas para os grandes fabricantes. Em contrapartida, ele terceirizava a produção e revendia o “papel miolo” (aquele papel ondulado que vai no meio das caixas de papelão) no mercado.

Comecei trabalhando com o meu pai assim que saí da P&G como vendedor de papel miolo. Mas eu sempre fui um cara muito inquieto. Sempre sonhei em ter o meu próprio negócio, construir e impactar através do fruto do meu trabalho e idealização. Quando fui trabalhar com o meu pai, saí de uma multinacional com processos claros, plano de carreira e estrutura absurda, e entrei no escritório dele com cinco pessoas. Meu pai era centralizador, traumatizado com processos e custos fixos, fazia tudo sozinho. Eu dizia: “Pô, pai, você tem que investir em pessoas, trazer mais processos”. Imagina meu pai olhando para o pirralho que acabou de sair da fralda querendo dar lição de moral sobre como administrar o negócio dele. Batíamos muito de frente, mas era produtivo. Chegou um ponto em que pensei: “Qual a chance de eu conseguir mudar alguma coisa ali? Vou ter que fazer por conta própria”.

Sempre tive a mentalidade de que na primeira oportunidade abriria o meu negócio. Em 2016, após trabalhar dois anos com ele aprendendo sobre o mercado de papel, surgiu a oportunidade de abrir a minha distribuidora (que era exatamente a mesma coisa que meu pai tinha feito e quebrado). Meu pai avisou: “Toma cuidado com isso”. A minha distribuidora não era concorrente da dele, ela trabalhava com “papel cartão” (o papel que faz a caixa de remédio, do McDonald’s, display de supermercado). O papel cartão complementa o papel miolo. A operação era totalmente diferente da do meu pai.

Abri a FBS Distribuição em 1º de junho de 2016. Esse foi o meu primeiro negócio. E eu achava que estava pronto, só queria saber de vender. Não tinha experiência nenhuma profissional, nem noção de análise de crédito. A venda estava bombando, e eu vendia para todo mundo com a cabeça de “menino” mesmo. Literalmente foi um milagre eu não ter quebrado, porque tomei uma inadimplência absurda. No mercado de papel tem muito aventureiro, cara que dá golpe, abre vários CNPJs, bota laranja no nome, é um mercado muito informal. Mesmo com todas as dificuldades e as inadimplências, eu consegui crescer. Duramos seis meses num galpão de 400 m², fomos para um de 1.000 m², em 2019 fomos para um de 2.000 m² e atualmente estamos num galpão de 3.000 m².

Sempre fui uma pessoa que estudei muito. Sempre dei a cara para aprender sobre gestão e processos porque idealizava e pensava grande, então sabia que tinha que investir na base. A P&G foi excelente porque me deu a referência de como funciona uma empresa grande, e eu sempre vi a FBS como uma empresa grande. Muito diferente do meu pai, comecei a investir muito em pessoas e cultura. Mas a minha virada de chave mesmo só aconteceu em 2018. De 2016 a 2018, aconteceu uma das melhores coisas da minha vida: eu sofri um golpe.

Esse golpe foi do meu gerente comercial. O que aconteceu? Tinha um representante comercial do Sul que trabalhava pro meu pai. Ele me disse: “Felipe, fui desligado da fábrica, tenho a carteira de clientes de São Paulo, se você tiver oportunidade para eu vender o papel cartão, eu garanto as vendas”. Eu respondi: “Parabéns, você acabou de ser contratado”. Eu, juvenil e com inexperiência, deixei o comercial largado na mão dele e só focava no financeiro e em retirar o meu pró-labore para festas e viagens. Era zero profissionalismo. E aí, em 2018, esse gerente estava assediando todos os meus funcionários para irem com ele montar uma distribuidora concorrente, usando a minha carteira de clientes. O cara se sentia injustiçado porque ele estava se matando de trabalhar enquanto eu viajava.

Eu falo que a vida pune, e a culpa é totalmente de autorresponsabilidade. Eu merecia aquilo. E foi a melhor coisa que aconteceu na minha vida, porque se não tivesse acontecido, eu teria continuado naquela vida de festas e teria quebrado de qualquer forma. As coisas ruins que acontecem na vida do empresário são 100% responsabilidade dele. A vida corrige a rota, mesmo que a correção seja dolorida (como uma falência ou um golpe). Quando isso aconteceu, eu só tinha duas alternativas: ou virava um empresário de verdade e pagava o preço para me desenvolver, ou quebrava e voltava a trabalhar com o meu pai. E isso era uma questão de honra, eu não voltaria de jeito nenhum, pois ele ia jogar na minha cara que “custo fixo não dá certo”.

Após sofrer esse golpe, fui para um curso de gestão chamado Business High Performance, da Febracis, sobre liderança. Lá conheci o Método SIS (inteligência emocional do Paulo Vieira). Fiz o Método SIS e vi que ele estava lançando o Mastermind dele, o Black Belt. Entrei em 2019 como um dos primeiros membros. O Método SIS foi muito transformador para mim, porque acabei me conhecendo (algo que as pessoas evitam fazer por medo de encarar os próprios traumas e crenças). Saí do Método SIS com uma entrega tão grande que conheci um novo Felipe. Encontrei a autoconfiança e a certeza de que o sucesso que eu almejava só dependia de mim.

Foi tão transformador que deixei obrigatório para todos os meus líderes e funcionários fazerem o Método SIS. Lá você para de se vitimizar e entende a autorresponsabilidade. Você entende que os resultados que você tem são culpa sua, não do governo ou da esposa. Isso se tornou um dos valores inegociáveis da minha empresa. Comecei a ter muita cautela com os ambientes que eu frequentava e as pessoas com quem me relacionava. Minha família e velhos amigos começaram a me chamar de louco, porque eu perdi muitos amigos de festas e passei a dar os ingressos do Método SIS para os meus funcionários. Comecei a gerar uma cultura de autodesenvolvimento interno.

Curiosamente, na época do golpe eu demiti 50% da empresa (as “maçãs podres” saíram). Os outros 50% ficaram (que na época eram quatro pessoas) e eles viram a minha transformação. Eles viram o Felipe imaturo se tornar um Felipe maduro, sentado nas mesas certas e sendo apadrinhado pelo Paulo Vieira. Eu fechei um coaching individual com o Paulo que custava o preço de um apartamento. Quando o dinheiro dói no bolso, você entra de cabeça. Eu nem tinha o dinheiro do Black Belt, peguei de investimentos, porque sabia que precisava viver aquela imersão. O Black Belt foi uma escola, entrei num vórtex de positividade que era o que eu precisava. Sentar nas mesas certas me fez triplicar o tamanho da empresa em dois anos. Me tornei master coach, aplicava análise de perfil comportamental (DISC) em todas as contratações e trouxe uma cultura que valoriza a antifragilidade. Quanto mais pancada a gente toma, mais forte fica. Esse golpe me tornou mais forte e forçou a resiliência no meu negócio. Nós olhamos para os problemas como oportunidade de crescimento. Eu falo pra equipe: “Podem errar à vontade, só não cometam o mesmo erro duas vezes. Tem que aprender a lição”.

O ex-gerente abriu a empresa dele, mas não foi pra frente porque os funcionários que ele levou eram desqualificados. Hoje não tenho remorso dele. Se eu cruzar com ele, dou um abraço e agradeço, pois se eu continuasse do jeito antigo, meu negócio ia quebrar inevitavelmente. Precisava passar por isso para construir uma cultura muito forte. E a cultura que construímos na FBS é cheia de rituais.

Por exemplo, toda segunda-feira (hoje a cada 15 dias) nós temos o nosso momento “Vórtex”. Reúno toda a empresa e nós abrimos a semana com uma roda de gratidão e desenvolvimento. Antes a gente fazia isso fora do horário comercial, das 7h às 8h da manhã. E o mais legal: eu estimulava o autodesenvolvimento trazendo os membros do Black Belt, grandes nomes, para palestrar para o meu time às 7 da manhã! Nesse ritual a gente lapida a gratidão (pelo que comer, por enxergar, pela vida) e pratica o compartilhamento de ganhos: se eu fui a uma palestra na semana, eu tenho que compartilhar o ensinamento com o time. Todo mundo participa. A gente também tem metas pessoais: no começo do ano todos colocam metas pessoais, como aprender inglês ou perder peso, e eu acompanho. Não adianta ter sucesso só no profissional se o pessoal estiver ruim.

O Vórtex virou um ambiente que impulsiona a empresa. O ritual permanece porque tem cadência, repetição, como uma religião. Todos da turma leram o livro “Autorresponsabilidade”. No começo eu fazia a pessoa apresentar o resumo para a empresa inteira, depois mudei para apresentar apenas para mim, porque estava tomando muito tempo, mas a pressão era a mesma. Eles vêm o valor e se dedicam. O Claudio Zini, da Pormade, faz algo parecido: paga para o cara estudar, e mesmo que o funcionário faça só pelo dinheiro no começo, ele acaba adquirindo o conhecimento. O Vórtex lotava. Ninguém acredita quando eu digo que os funcionários iam voluntariamente às 7 da manhã de segunda-feira para fazer desenvolvimento pessoal. Eles queriam estar naquela energia. A cultura representa o dono. Eles viram o Felipe antes e depois, o exemplo na raça os puxou.

Quando você constrói uma cultura, tem que ser com base naquilo que é inegociável para você, não copiando os valores da parede de outra empresa. De 2018 em diante crescemos num ritmo enorme. Nossos funcionários ficaram mais satisfeitos, comecei a contratar as pessoas certas para os cargos certos baseados no DISC. As pessoas na internet tentam te modelar e te dobrar nas entrevistas de emprego se você não usar a ferramenta correta. Quando eu tinha apenas seis funcionários, criei um departamento de RH focado apenas neles, para aplicar PDIs e análise de perfis. Esses cinco líderes lideraram outros e o negócio escalou de forma autônoma.

No final de 2018 meu avô paterno (pai do meu pai) faleceu. Foi uma dor enorme, ele era o meu principal mentor, ele me ensinou tudo sobre papel (pois meu pai não tinha paciência para ensinar). Eu fiz um voto comigo mesmo: o meu outro avô materno ainda é vivo. Toda sexta-feira, religiosamente, eu almoço com ele e depois vamos tomar sauna. Então, meu expediente de sexta-feira acaba ao meio-dia. Por que eu consegui fazer isso? Porque implementei os processos que me permitiam ter tempo. Meu pai me questionou um dia, achando um absurdo eu estar na sauna na sexta-feira à tarde. Respondi: “A empresa está rodando, a liderança está tocando”. Ele viu o resultado e aprendeu comigo a não ser mais tão centralizador.

No final do ano passado (2023), meu pai realizou o sonho dele: comprou uma fábrica de papel. Era o sonho dele ser a indústria, e ele assinou o contrato. Em agosto, ele me chamou e pediu ajuda. Eu estava envolvido em muitos projetos: FBS, eventos de educação em Blockchain (“Talk Chain”), um fundo de criptomoedas, marca de roupa e planejando meu casamento. Eu disse que não tinha braço. Meu pai começou a tocar a fábrica sozinho. Mas no final do ano eu parei para refletir. Toda última semana do ano eu faço um planejamento estratégico e fico em silêncio. Vi que eu estava acelerando demais, abraçando o mundo, ansioso. Eu pensava: “Estou acelerando para quê? Para ter mais dinheiro para quê? Para ter paz? Mas a paz eu já posso ter agora, eu já tenho emprego, noiva, estabilidade”.

Reli o livro “Essencialismo” e decidi parar de tentar provar as coisas para os outros (ou para o meu próprio ego). Abandonei as redes sociais, terceirizei meus outros projetos de criptomoedas e decidi dar um passo para trás e me unir ao meu pai na indústria. Ele adorou! Levamos todo o escritório dele para o meu. O nosso time, que antes juntava umas 35 pessoas, agora com a indústria (que fabrica 4.000 toneladas de papel em Aparecida do Norte), passou para mais de 200. Estou verticalizando a minha operação, o que é excelente. Mas tive que voltar a estudar muito, aprender sobre estrutura tributária de indústria e gestão de centenas de pessoas.

A cultura numa indústria com operários de chão de fábrica é um desafio maior do que no escritório. No chão de fábrica a galera trabalha por sobrevivência, muitas vezes não sabe sonhar e tem baixa estabilidade intelectual e emocional. Mas o lado bom é que, trabalhando com um pessoal de nível intelectual mais baixo, a transformação que você causa na vida deles é muito maior. Você muda a trajetória de uma família inteira, quebrando ciclos de violência e ignorância. Na construção civil e na indústria, já fizemos até campanhas contra a violência doméstica, porque lá o cara bate na esposa e o ambiente muitas vezes valida isso, ao contrário do escritório, onde alguém denuncia na hora.

Nós levamos a cultura do Vórtex para todas as frentes. Quando éramos sócios de uma marca de roupas, trouxemos um operário do estoque para participar da nossa roda de desenvolvimento sobre o “perdão”. Falamos sobre o quanto guardar mágoas eleva o cortisol e corrói a pessoa por dentro. No dia seguinte, na roda de ganhos, ele levantou a mão e contou que não falava com o irmão há 10 anos. Depois do Vórtex, ele foi à casa do irmão e o perdoou. Todo mundo chorou de emoção! O ambiente da FBS é um ambiente seguro, onde as pessoas derrubam as máscaras. Nunca sofri um processo trabalhista na minha vida. O pessoal que sai da empresa é eternamente grato por ter passado por ali. E eu me forço a ler os livros pensando em como ensiná-los para a equipe na segunda-feira, o que me faz aprender duas vezes mais.

Eu entendi que o meu propósito é a liderança, é impactar o meu time, porque o meu time impacta a família deles e isso gera o vórtex. Saí das redes sociais, do Instagram e do YouTube. Literalmente parei com as telas. Meu nível de ansiedade caiu absurdamente. Sou maratonista e meu monitor cardíaco comprova que eu estou muito mais presente e grato hoje do que em qualquer momento da vida. No começo você fica com medo de deletar o Instagram achando que “ninguém mais vai saber quem é o Felipe”. É puro ego e orgulho. A rede social, na maioria das vezes, mais te distrai e te faz mal do que te impulsiona. Essa paz de espírito que ganhei eu aplico na minha empresa e na minha família.

Quero deixar um convite para vocês irem participar de um Vórtex na FBS qualquer segunda-feira. Mudamos o escritório para o Brooklin, na Berrini, estão mais do que convidados. E, finalizando com a pergunta de vocês sobre “se eu morresse hoje e a missão estivesse cumprida, que conselho deixaria?”: você já tem tudo. Não precisa acelerar tanto, não. Confie nos seus valores e viva o agora. Seguir a sua essência com leveza e autenticidade, sem querer provar nada em ambientes que não te representam, te liberta. Se você tentar ser algo que não é, você se atrasa no seu propósito real.

Se hoje fôssemos viajar no tempo para quando eu tivesse 90 anos, no leito de morte, eu provavelmente me arrependeria de ter acelerado tanto para “ter, ter, ter” e não ter vivido o presente. O “Poder do Agora” te ensina que você não é a sua mente. A mente é só um fluxo de pensamentos e traumas, e quando você se desassocia disso e passa a ser apenas o “observador” dos seus pensamentos, você atinge a verdadeira paz. O mundo vai continuar girando quando você morrer. Então viva com leveza.

Obrigado pelo convite e pela reflexão profunda! Para quem assistiu, o recado é esse: viva o presente e busque o essencial. Valeu!

Lorem ipsum dolor sit amet, consectetur adipiscing elit. Ut elit tellus, luctus nec ullamcorper mattis, pulvinar dapibus leo.

Posts Similares

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *