A Verdade Sobre a Receita Federal e o “Cassino” Tributário com Diego (Búfalos) | Além do CNPJ (EP #155)
Você já teve a sensação de que, não importa o quanto você se esforce, a carga tributária no Brasil sempre parece esmagar o seu negócio? E se nós te disséssemos que a própria Receita Federal já embute a taxa de sonegação do país no cálculo dos seus impostos? No trecho inicial do episódio #155 do Além do CNPJ, que marca a estreia de Bruno Bertozzi como co-host da mesa, recebemos Diego, ex-auditor da Receita Federal e sócio-fundador da Búfalos. Com uma trajetória que vai do sonho de ser motorista de ônibus até o topo do funcionalismo público e, em seguida, ao empreendedorismo disruptivo, Diego nos dá um choque de realidade sobre o sistema tributário brasileiro.
1. O Cassino Tributário: A Receita Federal Já Conta com a Sonegação
Logo nos primeiros minutos de conversa, Diego solta uma bomba: estima-se que entre 70% e 90% das empresas no Brasil sonegam impostos. No entanto, quem acha que está enganando o governo não percebe que a Receita Federal já padronizou essa perda na sua fórmula. Regimes como o Simples Nacional já possuem alíquotas elevadas justamente para compensar essa sonegação em massa. A dura realidade é que, se um empresário desavisado tentar declarar 100% de sua operação sem um planejamento estratégico, ele é engolido pela margem.
“A fórmula já é montada com a sonegação de até 70% embutida. Ou seja, o caixa nunca vai perder. Eu comparo isso a um cassino, né? A banca nunca perde. Nunca vai perder.”
2. A Escola do Serviço Público e a Coragem de Sair
A jornada de Diego é marcada por reviravoltas. Sem perspectiva no início da carreira, ele foi trabalhar em um escritório de contabilidade, lidando com 70 empresas em um ambiente caótico e burocrático. Buscando aprender de verdade, ele passou no concurso da Receita Federal em 2009. O serviço público serviu como uma escola imersiva, com seis meses de estudos intensos e treinamentos que moldaram sua visão técnica. Ele chegou ao cobiçado cargo de auditor fiscal. Porém, percebendo que a rotina burocrática e a falta de inovação o fariam “morrer por dentro”, ele tomou a corajosa decisão de pedir exoneração apenas três anos depois.
“Eu me vi no futuro velho, era aquilo. Falei: ‘Meu, eu sei que tem uma oportunidade aqui, mas eu acho que não é para mim’. E aí eu quis arriscar de novo na loucura de ir pro empresário.”
3. A Inovação e a Criação de um Novo Padrão
Fora da Receita, Diego abriu seu próprio escritório de contabilidade. Foi um sucesso financeiro, faturando bem e chegando a quase mil clientes e 120 funcionários ao longo de nove anos. Mas o incômodo voltou: ele havia se tornado mais do mesmo, apenas “fechando impostos e mandando guias” como qualquer outro escritório. Ele percebeu que precisava romper com o padrão. Para se destacar em meio a tantos concorrentes da área fiscal e jurídica, ele decidiu que não queria ser apenas contador ou advogado, mas sim criar um modelo inovador que unisse inteligência estratégica e consultoria de negócios, plantando a semente para o que viria a ser a Búfalos.
“Eu descobri que, infelizmente, se eu quisesse mudar, eu teria que fazer algo inovador. E no meio de um monte de concorrentes da área fiscal, contábil, jurídica, eu teria que fazer um trabalho que não era nem de advogado, nem de contador. Eu teria que fazer um meio termo, o que não existisse.”
Conclusão: A trajetória inicial de Diego nos mostra que a inquietude é o maior motor da inovação. Abandonar a estabilidade de um cargo de auditor da Receita Federal ou repensar um escritório de contabilidade de sucesso exige coragem. Mais do que isso, a sua visão técnica nos alerta: sobreviver ao “manicômio tributário” do Brasil requer inteligência e estratégia, pois o governo já desenhou o jogo para nunca sair perdendo.
Quer escutar mais sobre os bastidores da Receita Federal e as estratégias tributárias que as grandes empresas usam? Assista ao episódio completo agora mesmo!
Ler Transcrição Completa
Você sabia que no Brasil — olha que interessante esse dado —, mais de 70% das empresas sonegam? No meu entendimento, mais de 90%. Mas você sabia que a Receita Federal já calcula essa sonegação? É como se você vendesse um produto 10 vezes mais caro. Se essa pessoa pagar 30%, ela já pagou os 10 produtos. Então a Receita Federal, por exemplo, num Simples Nacional, ele já paga em 30% e declarado praticamente o 100%. Então a sonegação tá no cálculo, tá padronizado. Se você declarar 100%, você morre. A fórmula já é montada com a sonegação de até 70% embutida. Ou seja, o caixa nunca vai perder. Eu comparo isso a um cassino, né? A banca nunca perde. Nunca vai perder.
Buenas, buenas, buenas. Seja bem-vindo a mais um podcast do Além do CNPJ. Primeiro de tudo, muito obrigado por estar aqui pra gente trocar essa ideia de empreendedorismo, vida real. Aqui do meu lado, Bruno Bertozzi, meu parceiro, meu brother, cara que tá agregando demais ao podcast. Quase três, quatro meses já. Já foi baita de um, bom demais. Tá com gente boa, aprendendo todo dia. Sempre importante, né? Nossa, cara, esses caras dão aula, né? É fantástico.
E os caras aqui na nossa frente, cara… Conheci o Diego num evento em que ele foi palestrante. Eu também estava. É a primeira vez que você faz podcast a quatro? Não, não, já fiz várias. Quinta série! Desculpa, galera. Quinta série. E aí o Diegão tava palestrando e eu tive a honra de falar logo depois dele, o que me fez chegar um pouco mais cedo no evento e me deu o privilégio de assistir à palestra. No final cheguei nele e falei: “Bicho, preciso colar em você. Você tá com umas coisas que estão funcionando muito e tá todo mundo falando. E também quando algum assunto tá hypado, o que mais tem é espuma. Precisamos separar o joio do trigo. Tem um monte de aventureiro também, né?”.
Chamei ele para uma conversa. Depois eu o convidei para um evento do nosso mastermind, numa roda num restaurante chinês. O Diegão foi lá. Baita de um papo legal também com os empresários e tudo mais. E agora estamos juntos aqui no podcast. Tenho feito reuniões com eles, avaliando possibilidades, porque eu tava até conversando com o Iago recentemente. Tô numa transição bem relevante da minha empresa e isso tende a mudar, o cenário de hoje vai ser diferente daqui a dois meses. Então, tô esperando essas coisas acontecerem pra gente voltar a trocar ideia com mais força.
Mas os caras estão aqui na nossa frente, além de falar de um tema muito importante, que é a parte tributária num todo — que é um assunto relevante demais para todo empreendedor —, eles são, dentre os que eu conheço, as pessoas mais influentes nessa transição de algumas empresas, holdings e CPFs saindo do Brasil e indo para o Paraguai. Tá todo mundo ouvindo falar isso. Um monte de gente usando o Paraguai como forma de redução de tributos. Como isso funciona? Isso é real? Até onde vale a pena? Vale a pena para todo mundo? A partir de qual momento vale a pena para um Simples Nacional que fatura pouquinho? Faz sentido? O que é a cidadania paraguaia e o que eu ganho com isso? São tantas perguntas. Eu já tive a honra do Iago me responder todas elas, mas eu vou refazê-las aqui no ar para você que não participou disso e tá cheio de dúvidas. Então, cara, muito obrigado, Iago.
Obrigado. Obrigado, viu? Prazer estar aqui com vocês. Muito bom.
Dá um overview antes da gente entrar na Búfalos, que é a empresa de vocês. Eu queria um pouco de contexto rápido, como a gente tá em dois convidados, pra gente conseguir ser bem dinâmico, porque tem pergunta para caramba pra fazer para vocês. Começando com você, Diegão. Dá um overview de onde o Diego veio, qual foi a sua referência, o que você queria ser quando crescesse, e a sua trajetória profissional. Eu sei que você foi auditor, como que foi isso? Dá um overview até chegar na Búfalos. Depois eu volto pro Iago e a gente começa da união de vocês.
Bom, perfeito. Primeiro, obrigado, viu? Obrigado, Felipe. Obrigado, Bruno. Tamo junto aí. Acho que vai ser bom. O overview, né? Primeiro podcast a quatro também, estamos juntos. Mas vamos lá. O Diego, quem ele é? Na verdade, eu não tinha nem experiência e nem imaginava que ia trabalhar nessa área tributária. É bem doido. Na verdade não tinha experiência nenhuma, achava que ia ser motorista de ônibus. Caraca, que doido. Nada a ver, né? E aí a vida foi aos poucos me levando para essa área. O que me levou foi a necessidade de encontrar uma profissão.
Então, no momento eu entrei, acho que muita gente já fez isso no passado, num escritório de contabilidade para trabalhar. E dentro de um escritório de contabilidade, o que menos você faz é aprender, porque é sempre ali tumultuado, desgastante, burocrático e também não sabia o que fazer direito. Então eu me vi num desafio: logo de cara recebi 70 empresas, “toma aí, faz aí”. Isso foi o primeiro desafio.
Passado isso, fui prestando vários concursos públicos e, em 2009, eu acabei sendo chamado num concurso da Receita Federal do Brasil. Isso para mim foi uma novidade maravilhosa. Já estava querendo. Aí eu falei: “Agora eu acho que vou aprender de verdade”. O serviço público nessa parte da Receita Federal é, na verdade, uma escola. Só para ter uma ideia, você fica seis meses praticamente só estudando, recebendo para estudar. Após seis meses você fica em treinamento do teu trabalho. Então é muita informação, muita leitura e isso foi o que me ajudou a entender muita coisa.
Posteriormente a isso, passei por um concurso de auditoria, um ano e meio depois, e entrei como auditor fiscal. Por incrível que pareça, três anos depois eu pedi exoneração. Caraca, rapidinho assim. Por quê? Cara, eu ia morrer por dentro se eu continuasse, por causa do meu jeito inquieto. A carreira é maravilhosa. Eu acredito e respeito os servidores públicos demais. Acho que é uma profissão muito boa, mas não era para mim, entendeu? Ali o ambiente, o dia a dia… eu me vi no futuro velho, era apenas aquilo. Falei: “Meu, eu sei que tem uma oportunidade aqui, estabilidade, mas eu acho que não é para mim”. E aí eu quis arriscar de novo na loucura de ir pro lado empresarial.
Montei um escritório de contabilidade. Faturei bem, inclusive. Fiquei 9 anos com o escritório e bati quase 1.000 clientes. Foi um tempo muito bom, mas eu vi que, no fim, eu estava fazendo igualzinho a todos os que estavam fazendo anteriormente. Só tinha tempo para fechar imposto e mandar guia. O que eu não queria fazer, eu estava fazendo. Porque eu vi que eu tava igualzinho a todo mundo. Eu contava uma história para mim mesmo de que eu não era, mas só eu tava acreditando nessa história, porque todo mundo via que era igual. Eu colocava colaborador, funcionário, trabalhava… era a mesma coisa. Eu tentava fazer com que eles fossem diferentes, mas não consegui. Só para você ter uma ideia, eu cheguei a ter 120 funcionários. Cara, eu nem sabia o nome das pessoas, mas eu sabia exatamente a tarefa que eles iam fazer. A ideia era a mesma, o pensamento era o mesmo, engessado.
Aí eu descobri que, infelizmente, se eu quisesse mudar, eu teria que fazer algo inovador. No meio de um monte de concorrentes da área fiscal, contábil e jurídica, eu teria que fazer um trabalho que não era nem puramente de advogado, nem de contador. Eu teria que construir um meio termo, algo que ainda não existisse.
